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A crise financeira e política no Paraguai: mais uma prova do fracasso do modelo econômico liberal

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Globetrotter

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Este artigo foi produzido pela Globetrotter

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O Paraguai atravessa uma das crises políticas e financeiras mais graves de sua história recente. A intervenção no Ueno Bank por parte do Banco Central do Paraguai, após a detecção de graves irregularidades em suas operações e problemas de solvência, desencadeou uma crise que rapidamente deixou de ser apenas bancária. Hoje, ela tem consequências diretas sobre o governo de Santiago Peña e deu início a um processo de impeachment que colocou em questão a permanência do próprio presidente da República no cargo.

Para entender o que está acontecendo, é necessário explicar alguns elementos. O Ueno Bank experimentou um crescimento exponencial nos últimos anos, coincidindo com o início do governo de Santiago Peña. Chegou a ter cerca de três milhões de clientes, mais de 50% da população adulta do país, e recebeu cerca de 800 milhões de dólares em depósitos do setor público. Entre esses recursos estão fundos vinculados ao Instituto de Previdência Social (IPS), que administra as contribuições previdenciárias e de saúde de milhares de trabalhadoras e trabalhadores.

Um dos problemas é que o próprio presidente da República manteve vínculos empresariais com o grupo ligado à instituição bancária até março de 2025. Somado a isso, Carlos Carvallo, que havia presidido a Financiera Ueno, passou posteriormente a dirigir o Banco Central, órgão responsável por supervisionar e controlar o sistema financeiro. Durante este governo, também foram alteradas as disposições que visavam impedir esse tipo de conflito de interesses, conhecidas como “normativa da “porta giratória.

A intervenção no banco, o congelamento dos depósitos e as investigações sobre empréstimos concedidos a empresas ligadas aos seus proprietários acabaram expondo uma teia de relações entre interesses privados e instituições públicas. No entanto, além disso, por trás dos números e das operações financeiras, há milhares de pessoas que hoje não podem dispor de suas economias; trabalhadores que enfrentam incertezas quanto aos seus salários e aposentados cujos recursos estão comprometidos. A inclusão financeira, que foi apresentada como uma das grandes conquistas do modelo econômico, acabou se transformando em um enorme golpe para a população.

Os laços de Santiago Peña com o grupo empresarial, as decisões adotadas pelo Executivo e as responsabilidades dos órgãos de fiscalização fazem parte das questionamentos que deram origem ao pedido de impeachment. A oposição impulsionou o processo no Congresso e, em 5 de novembro, a Câmara dos Deputados aprovou a acusação contra o presidente. Peña apresentou sua renúncia, mas ambas as casas rejeitaram essa saída e o Senado deu continuidade ao processo. No momento em que estas linhas são escritas, o presidente deve apresentar sua defesa no julgamento político [no dia 6, ele sofreu impeachment].

Para entender essa crise, porém, é preciso olhar também para a Associação Nacional Republicana (ANR), o Partido Colorado, – profundamente ligado à estrutura do Estado paraguaio e aos 35 anos de ditadura de Alfredo Stroessner – e, particularmente, para Horacio Cartes (HC). O Paraguai possui uma particularidade política que é fundamental para compreender o que está acontecendo. O Partido Colorado governa praticamente de forma ininterrupta desde 1947; a única interrupção nesse longo ciclo foi o governo de Fernando Lugo (2008-2012), que chegou ao poder liderando uma aliança que conseguiu derrotar eleitoralmente o coloradismo após mais de seis décadas. No entanto, seu governo terminou abruptamente em junho de 2012, por meio de um golpe parlamentar que, em apenas 48 horas, o destituiu por meio de um questionável processo de impeachment. Para os movimentos sociais e setores do campo popular, esse fato não foi apenas mais um episódio da história, mas uma operação política orquestrada por setores da direita paraguaia, tendo Horacio Cartes como um de seus principais atores e com supostas cumplicidades e apoio de interesses externos, entre eles os da Embaixada dos Estados Unidos.

Atualmente, o poder dentro da ANR é fortemente disputado por seus movimentos internos, mas o cartismo (HC) tornou-se o principal espaço de poder da coalizão governista. Cartes não só foi presidente da República entre 2013 e 2018, como também assumiu posteriormente a presidência do próprio Partido Colorado e manteve uma enorme influência sobre as decisões do governo de Santiago Peña.

Peña chegou à Presidência impulsionado politicamente por Cartes. Sua candidatura e seu posterior governo foram construídos sob a liderança do movimento Honor Colorado. Por isso, o que estamos vendo hoje representa uma contradição política muito importante: o mesmo setor que construiu e sustentou esse governo agora decide apoiar o processo de impeachment contra o presidente.

A posição de Cartes foi mudando à medida que a crise avançava. Inicialmente, seu círculo rejeitava a possibilidade de um processo de impeachment e buscava atribuir a responsabilidade às autoridades do Banco Central. No entanto, em 5 de novembro, Cartes anunciou publicamente que a ANR apoiaria o processo de impeachment contra Peña. Esse movimento não pode ser interpretado simplesmente como uma decisão institucional do Partido Colorado; ele também expressa uma disputa pelo controle político, pela continuidade do projeto de governo e pela preservação de um esquema de poder que o próprio movimento ajudou a construir.

A partir desse cenário, por parte dos movimentos sociais e do campo popular, a denúncia não se limita a exigir responsabilidades individuais e rejeitar qualquer tentativa de impunidade; ela também alerta que essa crise é mais um sinal do fracasso do modelo econômico liberal que, durante anos, repetiu que o mercado poderia se regular sozinho, que o Estado deveria reduzir sua intervenção e que a privatização e a desregulamentação eram o caminho para alcançar o desenvolvimento. Prometeram que, se deixássemos o capital funcionar livremente, a riqueza acabaria chegando a toda a população, que o crescimento econômico se traduziria em bem-estar e que todos se beneficiariam desse suposto “efeito cascata”. No Paraguai, hoje as consequências estão bem diante dos olhos de cada trabalhador, como resultado do narcocapitalismo financeiro. Um modelo que administra de forma inescrupulosa os recursos públicos, concentra riquezas e estabelece relações entre o poder político e os interesses privados. Um sistema em que os lucros ficam nas mãos de determinados setores, enquanto as consequências de suas operações acabam recaindo sobre a população.

Portanto, o que ocorre neste lado do sul da nossa América não é alheio ao que acontece em outras partes do mundo; faz parte de uma dinâmica na qual os grandes capitais condicionam as decisões políticas, se apropriam dos bens comuns e transformam direitos e necessidades básicas em oportunidades de negócio. Os cenários mudam, os atores mudam, mas a lógica continua a mesma.

Contudo, o evidente fracasso da política econômica do capitalismo financeiro também abre uma oportunidade para o movimento popular organizado: disputar outro horizonte e construir uma alternativa política e econômica que rompa com essa lógica. Abrir caminho para um mundo em que a economia esteja a serviço da vida e não da acumulação de poucos, e em que os povos possam decidir sobre seus recursos, seu presente e seu destino.

Fim do texto do artigo
LIBERADO PARA SINDICAÇÃO:
6 de novembro de 2026
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1,257
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