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Terremoto na Venezuela. A luta pela sobrevivência

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Este artigo foi produzido pela Globetrotter

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No dia 24 de junho, a Venezuela comemorava duas festas importantes: os 205 anos da Batalha de Carabobo, a batalha que selou a independência do país, e a festa de São João Batista, declarada pela UNESCO como Patrimônio Imaterial da Humanidade, uma celebração com profundo conteúdo espiritual, especialmente para os povos afrodescendentes da Venezuela. Um dia de festa que foi interrompido às 18h04 e 18h05 por dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5, respectivamente, com um intervalo de 39 segundos entre um e outro.

No momento em que estas linhas são escritas, as informações oficiais divulgadas pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, indicam 1.719 mortos, 5.034 feridos, 15.866 desabrigados, 855 edifícios afetados — dos quais 189 desabaram totalmente —, 38 hospitais afetados e 1.645 estruturas de outras naturezas, como pontes e rodovias, danificadas. Um nível de destruição sem precedentes no país.

Os terremotos ocorridos naquele dia 24 de junho constituem um evento singular conhecido como “dupla sísmica”. Trata-se da ruptura de uma falha (neste caso, a falha de Boconó) que, por sua vez, ativa a ruptura de outra (a falha de San Sebastián). Esse fenômeno produz um campo de ondas altamente assimétrico, sobreposto e caótico. A ruptura ocorreu de oeste para leste, e é por isso que os efeitos mais intensos se manifestaram a leste do epicentro. O que torna esse “duplo terremoto” tão letal é que as ondas produzidas pelo segundo se sobrepõem às do primeiro, amplificando seu poder destrutivo. A sobreposição também fez com que um terremoto que normalmente dura de 30 a 40 segundos se prolongasse por 2 a 3 minutos, provocando uma “tempestade geodinâmica perfeita”. Até o momento, foram registradas 609 reverberações. Um monstro para o qual ninguém poderia estar preparado.

Imediatamente, como aves de rapina, a mídia e os chamados “influenciadores” iniciaram uma campanha para menosprezar a resposta do governo venezuelano, argumentando que os prédios desabados eram aqueles construídos pela Missão Moradia Venezuela, um programa único no mundo que já proporcionou moradia a mais de 4 milhões de famílias (a realidade é que 80% dos edifícios desabados foram construídos pelo setor privado), e que os órgãos de proteção civil, bombeiros e equipes de resgate não haviam marcado presença, numa tentativa de gerar mais angústia e incerteza na população.

Uma campanha verdadeiramente suja que deveria envergonhar aqueles que, do conforto de seus computadores, lucram com o sofrimento alheio e, na falta de propostas sérias, criticam um governo usando mentiras e provocando caos em uma situação já bastante delicada.

A realidade é que, até 29 de junho, havia 30 mil socorristas mobilizados, entre militares, policiais, bombeiros, proteção civil e pessoal da Cruz Vermelha; 75.238 famílias foram atendidas, 7.237.000 quilos de alimentos foram distribuídos, 222.478 sacolas de alimentos foram distribuídas no estado de La Guaira (o mais afetado), 4.200 pessoas receberam assistência médica, 90% do serviço de energia elétrica foi restabelecido e, mesmo cinco dias após a tragédia, o trabalho de busca por sobreviventes prossegue. Uma tarefa à qual se juntaram 10.834 voluntários que foram credenciados para evitar qualquer desordem que pudesse atrapalhar os trabalhos de resgate.

É importante levar em conta que todo essa mobilização e esforço ocorrem apesar das mais de mil medidas coercitivas unilaterais (erroneamente chamadas de sanções) que o governo dos EUA impôs à Venezuela e às quais a União Europeia se somou. Tanto os EUA quanto alguns países da UE ofereceram “ajuda humanitária” para enfrentar a tragédia, mas não poderia haver maior cinismo e hipocrisia por parte daqueles que submeteram o país a penúrias por mais de uma década com o único objetivo de provocar uma mudança de governo e conseguir a pilhagem dos muitos recursos que a Venezuela possui, incluindo a maior reserva de petróleo do mundo. De fato, as medidas coercitivas unilaterais são concebidas para minar a vontade dos povos por meio de ataques à economia, restrições que impedem o livre comércio com o exterior, a exportação dos produtos do país e a importação de tudo o que não é produzido, mas é necessário, o que inclui não apenas peças de reposição e maquinário, mas também alimentos e medicamentos. É um fato que, durante a pandemia, por exemplo, a Venezuela enfrentou obstáculos para acessar o fundo COVAX a fim de adquirir as vacinas, o que poderíamos facilmente qualificar como tentativa de genocídio.

As medidas coercitivas unilaterais são um mecanismo perverso. Um estudo recente publicado na revista Lancet demonstra, utilizando técnicas estatísticas rigorosas e bancos de dados da Organização das Nações Unidas e do Banco Mundial, que as medidas coercitivas, especialmente aquelas implementadas unilateralmente pelos EUA (sem autorização da ONU), têm um impacto direto sobre a saúde pública, resultando em 564.258 mortes anuais — um número semelhante ao causado pelas guerras. Os EUA mataram mais de 28 milhões de pessoas nos últimos 50 anos por meio da imposição de medidas coercitivas unilaterais. Essas medidas são ilegais e violam o direito internacional e a Carta das Nações Unidas. Um relatório elaborado em 2021 pela relatora especial da ONU descreve a grave situação pela qual a Venezuela passava naquele ano em consequência dessas medidas coercitivas, confirmando os resultados apurados no estudo que acabamos de citar.

É esse país, atingido por essas medidas ilegais e criminosas, com hospitais e sistemas de emergência fragilizados por anos de ataques, que hoje enfrenta uma tragédia de proporções gigantescas. Felizmente, tem-se contado com a solidariedade sincera de países como Cuba, México e Nicarágua, entre outros, que enviam equipes de resgate, maquinário, medicamentos e muito bom coração, servindo de apoio ao árduo trabalho realizado pelas equipes venezuelanas. Quanto aos EUA, país que, em 3 de janeiro deste ano, bombardeou e sequestrou o presidente, só poderíamos exigir a retirada imediata das medidas coercitivas impostas e a libertação do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores. A ajuda hipócrita que oferecem não é bem-vinda. Na Venezuela, o governo, as forças armadas e o povo organizado, com a ajuda de amigos de verdade, estão trabalhando incansavelmente para salvar o maior número possível de vidas e recuperar a normalidade o mais rápido possível.

Fim do texto do artigo
LIBERADO PARA SINDICAÇÃO:
30 de junho de 2026
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