{"id":9494,"date":"2024-07-03T15:19:09","date_gmt":"2024-07-03T19:19:09","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/2024\/07\/03\/historias-que-no-quisieramos-contar-sobre-las-infancias-en-gaza\/"},"modified":"2024-07-17T18:19:57","modified_gmt":"2024-07-17T22:19:57","slug":"as-inacreditaveis-historias-das-criancas-de-gaza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2024\/07\/03\/as-inacreditaveis-historias-das-criancas-de-gaza\/","title":{"rendered":"As inacredit\u00e1veis hist\u00f3rias das crian\u00e7as de Gaza"},"content":{"rendered":"<p>Essa hist\u00f3ria n\u00e3o deveria ser real. Era manh\u00e3 do dia 29 de janeiro de 2004. Os militares israelenses j\u00e1 haviam bombardeado grande parte do pr\u00f3spero bairro de Tel al-Hawa, na Cidade de Gaza, incluindo, em outubro de 2023, a totalidade do campus da Universidade Isl\u00e2mica de Gaza. Ap\u00f3s um aviso dos militares israelenses, sete membros de uma fam\u00edlia entraram em um carro Kia Picanto para fugir em dire\u00e7\u00e3o ao sul. Mas o bombardeio israelense havia derrubado um pr\u00e9dio alto nas proximidades, de modo que o carro teve de ir para o norte antes de se dirigir para o sul.<\/p>\n<p>N\u00e3o muito longe da estrada, o carro foi atacado por ve\u00edculos militares israelenses, inclusive por tanques Merkava. De acordo com uma <a href=\"https:\/\/forensic-architecture.org\/investigation\/the-killing-of-hind-rajab\">investiga\u00e7\u00e3o<\/a> excepcional da ag\u00eancia de pesquisa Forensic Architecture, sediada no Reino Unido, 355 proj\u00e9teis foram disparados contra o carro.<\/p>\n<p>Uma das pessoas que estavam no carro, uma crian\u00e7a de seis anos chamada Hind Rajab, ligou para a equipe de emerg\u00eancia. \u201cEles est\u00e3o mortos\u201d, <a href=\"https:\/\/x.com\/PalestineRCS\/status\/1759285054369304869\">disse<\/a> ela sobre seus familiares. \u201cO tanque est\u00e1 ao meu lado. J\u00e1 \u00e9 quase noite. Estou com medo. Venham me buscar, por favor\u201d. A Sociedade do Crescente Vermelho Palestino (PRCS) enviou uma ambul\u00e2ncia para resgat\u00e1-la.<\/p>\n<p>Duas semanas depois, em 10 de fevereiro, o cad\u00e1ver de Hind Rajab foi encontrado perto dos corpos de seus familiares, junto com os dos param\u00e9dicos (Ahmed al-Madhoun e Yusuf al-Zeino) enviados para salv\u00e1-la. \u201cO tanque est\u00e1 ao meu lado\u201d, diz a menina em uma fita gravada pelo PRCS, mas tanto o Departamento de Estado dos EUA quanto os militares israelenses <a href=\"https:\/\/www.state.gov\/?post_type=state_briefing&amp;%3Bp=92333\">dizem<\/a> que nenhum tanque operava na \u00e1rea naquele momento. \u00c9 a palavra de uma crian\u00e7a assassinada contra os governos mais perigosos e dissimulados do mundo.<\/p>\n<p>O assassinato de Hind Rajab e de sua fam\u00edlia chocou o mundo (o pai de Hind Rajab foi <a href=\"https:\/\/x.com\/jeremyscahill\/status\/1807868423092789298\">morto<\/a> em outro ataque no final de junho). Quando os estudantes da Universidade de Columbia, nos EUA, ocuparam o pr\u00e9dio da administra\u00e7\u00e3o da faculdade, eles o batizaram de Hind Rajab Hall (Sa\u00e7\u00e3o Hind Rajab); o cantor Macklemore lan\u00e7ou uma <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=fgDQyFeBBIo&amp;rco=1\">m\u00fasica<\/a> em maio chamada \u201cHind\u2019s Hall\u201d.<\/p>\n<p><b>Viol\u00eancia cotidiana<\/b><\/p>\n<p><b>14 de junho<\/b>: Uma crian\u00e7a foi <a href=\"https:\/\/english.wafa.ps\/Pages\/Details\/145043\">morta<\/a> por ataques a\u00e9reos israelenses em Zeitoun (Cidade de Gaza).<\/p>\n<p><b>22 de junho<\/b>: Duas crian\u00e7as foram <a href=\"https:\/\/english.wafa.ps\/Pages\/Details\/145200\">mortas<\/a> por ataques a\u00e9reos israelenses em Shujaiya (Cidade de Gaza).<\/p>\n<p><b>25 de junho<\/b>: Duas crian\u00e7as foram <a href=\"https:\/\/english.wafa.ps\/Pages\/Details\/145278\">mortas<\/a> por disparos israelenses na rua al-Wahda, perto do Hospital Al-Shifa (Cidade de Gaza).<\/p>\n<p><b>25 de junho<\/b>: Tr\u00eas crian\u00e7as foram <a href=\"https:\/\/english.wafa.ps\/Pages\/Details\/145271\">mortas<\/a> por ataques a\u00e9reos israelenses no campo de refugiados de Maghazi.<\/p>\n<p>Cada uma destas hist\u00f3rias trata de crian\u00e7as preciosas, a maioria das quais n\u00e3o chegaram nem aos 10 anos de idade. Algumas dessas crian\u00e7as viveram a cruel campanha de bombardeio israelense de 2014, quando mais de 3 mil crian\u00e7as foram mortas. Nas casas de fam\u00edlias na Cidade de Gaza e em Khan Younis ap\u00f3s aquela guerra, ouvi hist\u00f3rias e mais hist\u00f3rias de crian\u00e7as mortas e mutiladas (Maha, paralisada; Ahmed, cego \u2013 <i>meu caderno de anota\u00e7\u00f5es, uma bagun\u00e7a de perdas e tristeza<\/i>). Enquanto as bombas continuavam caindo em 2014, Pernille Ironside, ent\u00e3o chefe do escrit\u00f3rio do Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (UNICEF) em Gaza, <a href=\"https:\/\/news.un.org\/en\/story\/2014\/08\/475622\">disse<\/a> que 373 mil crian\u00e7as precisavam de \u201cprimeiros socorros psicossociais imediatos\u201d. Simplesmente n\u00e3o havia conselheiros suficientes para ajudar as crian\u00e7as, a maioria das quais agora est\u00e1 endurecida pela crueldade da ocupa\u00e7\u00e3o e da guerra.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia que elas sofrem se tornou rotina. Mas esse tipo de viol\u00eancia nunca pode ser banal. \u201cEstou com medo\u201d, disse Hind Rajab. Lembro-me de conhecer um garotinho que estava jogando futebol nas ruas de al-Mughraqa. Seu pai, que estava me mostrando o local, me disse que o menino n\u00e3o conseguia dormir e ficava acordado \u00e0 noite, chorando. Isso foi em 2014. Esse menino agora deve ter vinte e poucos anos. Talvez ele sequer esteja vivo.<\/p>\n<p><b>Uma ou duas pernas<\/b><\/p>\n<p>Um <a href=\"https:\/\/interactive.aljazeera.com\/aje\/2024\/israel-war-on-gaza-10000-children-killed\/\">site<\/a> interativo da <i>Al Jazeera<\/i> tem os nomes das crian\u00e7as mortas desde outubro de 2023, uma morta a cada quinze minutos; \u00e0 medida que descia a p\u00e1gina lendo os nomes, me senti indisposto, e ent\u00e3o encontrei isso bem no final: \u201cEstes s\u00e3o os nomes de apenas metade das crian\u00e7as mortas\u201d. No in\u00edcio de maio, a diretora da UNICEF, Catherine Russell, <a href=\"https:\/\/www.unicef.org\/press-releases\/statement-unicef-executive-director-catherine-russell-military-operations-and-border\">disse<\/a>: \u201cQuase todas as crian\u00e7as de Gaza foram expostas a experi\u00eancias traum\u00e1ticas de guerra, cujas consequ\u00eancias durar\u00e3o a vida inteira\u201d. Em sua declara\u00e7\u00e3o, onde relatou que 14 mil crian\u00e7as foram mortas, ela disse que \u201cestima-se que 17 mil crian\u00e7as estejam desacompanhadas ou separadas [da fam\u00edlia]\u201d. Esses n\u00fameros s\u00e3o estimativas e provavelmente s\u00e3o subnotificados.<\/p>\n<p>Um novo <a href=\"https:\/\/www.savethechildren.net\/gaza-missing-children\">relat\u00f3rio<\/a> da Save the Children sugere que mais de 20 mil crian\u00e7as est\u00e3o desaparecidas em Gaza. Elas est\u00e3o sob os escombros, detidas pelos militares israelenses ou enterradas em valas comuns. Durante uma apresenta\u00e7\u00e3o detalhada em 25 de junho, o Comiss\u00e1rio Geral da Ag\u00eancia Palestina da ONU (UNRWA), Philippe Lazzarini, <a href=\"https:\/\/www.unrwa.org\/newsroom\/official-statements\/press-briefing-commissioner-general-philippe-lazzarini-during-meeting\">disse<\/a> algo surpreendente: \u201cE voc\u00ea leve em considera\u00e7\u00e3o que, basicamente, a cada dez dias, temos crian\u00e7as perdendo uma perna ou duas pernas, em m\u00e9dia. Isso lhe d\u00e1 uma ideia do escopo do tipo de inf\u00e2ncia que uma crian\u00e7a pode ter em Gaza\u201d.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria n\u00e3o deveria ser real. Era a manh\u00e3 de 19 de dezembro de 2023. Tanques israelenses passavam pelo bairro de Rimal, na Cidade de Gaza. Ahed Bseiso, de 17 anos, estava no \u00faltimo andar de um pr\u00e9dio de seis andares tentando ligar para seu pai na B\u00e9lgica para dizer que ainda estava viva. Ela ouviu um estrondo, caiu e chamou por sua irm\u00e3 Mona e sua m\u00e3e. Sua fam\u00edlia correu, carregou-a para baixo e a colocou sobre a mesa da cozinha, onde sua m\u00e3e estava fazendo p\u00e3o. O tio de Ahed, Hani Bseiso, um m\u00e9dico ortopedista, olhou para a perna dela e percebeu que teria que amput\u00e1-la ou ela morreria. Ele pegou todos os suprimentos que conseguiu encontrar e realizou a amputa\u00e7\u00e3o sem anestesia. Ahed recitou vers\u00edculos do Alcor\u00e3o para se acalmar. Hani chorou enquanto fazia a opera\u00e7\u00e3o, que a fam\u00edlia filmou e depois postou no YouTube, que foi <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/shorts\/6CqGKalLduI\">republicado<\/a> em muitos lugares.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o as hist\u00f3rias de Gaza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa hist\u00f3ria n\u00e3o deveria ser real. Era manh\u00e3 do dia 29 de janeiro de 2004. 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