{"id":9307,"date":"2023-10-24T17:15:31","date_gmt":"2023-10-24T21:15:31","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/2023\/10\/24\/the-everyday-violence-of-life-in-occupied-palestine\/"},"modified":"2024-06-20T17:31:28","modified_gmt":"2024-06-20T21:31:28","slug":"a-violencia-cotidiana-da-vida-na-palestina-ocupada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2023\/10\/24\/a-violencia-cotidiana-da-vida-na-palestina-ocupada\/","title":{"rendered":"A viol\u00eancia cotidiana da vida na Palestina ocupada"},"content":{"rendered":"<p><b><\/b>A \u00fanica forma do novo \u201cregime de seguran\u00e7a\u201d de Israel funcionar seria retirar todos os palestinos de Gaza, seja por meio de Dirigir ao longo do Vale do Rio Jord\u00e3o, no Territ\u00f3rio Palestino Ocupado (TPO) da Cisjord\u00e2nia, \u00e9 uma experi\u00eancia impressionante. A estrada \u00e9 oficialmente nomeada de \u201cEstrada 90\u201d. As terras ar\u00e1veis e irrigadas ao longo desta estrada s\u00e3o mantidas <a href=\"https:\/\/press.un.org\/en\/2016\/sc12657.doc.htm\">ilegalmente<\/a> por militares e colonos israelenses, muitos dos quais n\u00e3o s\u00e3o efetivamente cidad\u00e3os israelenses, mas sim residentes da di\u00e1spora judaica. Um <a href=\"https:\/\/www.ohchr.org\/sites\/default\/files\/documents\/hrbodies\/hrcouncil\/coiopt\/2022-10-19\/Report-COI-OPT-14Sept2022-EN.pdf\">relat\u00f3rio<\/a> da Comiss\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas publicado em 2022 demonstrou que a atividade de coloniza\u00e7\u00e3o constitui um crime contra o direito internacional em mat\u00e9ria de direitos humanos (transfer\u00eancia de popula\u00e7\u00e3o para um territ\u00f3rio ocupado). Os colonos israelenses e os militares israelenses que a defendem a chamam de Estrada 90 Derekh Gandhi, ou Estrada de Gandhi. Quando passei por essa estrada pela primeira vez, h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, fiquei intrigado com o nome de Gandhi. Mahatma Gandhi foi um l\u00edder da luta pela liberdade na \u00cdndia e, em muitas ocasi\u00f5es \u2013 como no seu <a href=\"https:\/\/www.jewishvirtuallibrary.org\/lsquo-the-jews-rsquo-by-gandhi\">artigo<\/a> de 1938, \u201cOs Judeus\u201d \u2013 manifestou a sua simpatia e solidariedade para com o povo palestino. De fato, a estrada que corta a Cisjord\u00e2nia &#8211; uma regi\u00e3o crucial para um pretendido Estado palestino &#8211; tem o nome de Rehavam Ze\u2019evi, que ironicamente recebeu a o apelido de Gandhi.<\/p>\n<p>Ze\u2019evi liderava o partido Uni\u00e3o Nacional, que reunia todas as correntes mais perigosas da extrema-direita israelense. Enquanto l\u00edder deste partido e, antes disso, do <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Moledet\">Moledet<\/a>, Ze\u2019evi <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2001\/oct\/18\/israel2\">defendia<\/a> a expuls\u00e3o dos palestinos do que considerava ser o territ\u00f3rio de Israel (Jerusal\u00e9m Oriental, Gaza e Cisjord\u00e2nia). Apoiava a cria\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.encyclopedia.com\/politics\/dictionaries-thesauruses-pictures-and-press-releases\/eretz-yisrael-hebrew-meaning-land-israel\">Eretz Yisrael<\/a> (termo para \u2018Terra de Israel\u2019), que se estenderia do rio Jord\u00e3o ao mar Mediterr\u00e2neo. Em mar\u00e7o de 2001, Ze\u2019evi \u2013 que mais tarde seria <a href=\"https:\/\/www.haaretz.com\/israel-news\/2016-04-15\/ty-article\/.premium\/tv-program-rips-image-of-idf-general-zeevi-to-shreds\/0000017f-ec5e-d4cd-af7f-ed7ee4100000\">acusado<\/a> de ass\u00e9dio sexual e de envolvimento com ocrime organizado &#8211; <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2001\/oct\/18\/israel2\">disse<\/a> ao <b><i>The Guardian<\/i><\/b> que \u201cn\u00e3o \u00e9 assassinato livrar-se de potenciais terroristas, ou daqueles que t\u00eam sangue nas m\u00e3os. Cada um que \u00e9 eliminado \u00e9 menos um terrorista que temos de combater\u201d. Alguns meses depois, Ze\u2019evi mostrou que n\u00e3o fazia distin\u00e7\u00e3o entre os palestinos, chamando a todos eles de \u201cc\u00e2ncer\u201d e <a href=\"https:\/\/ips-dc.org\/where_is_the_outrage\/\">dizendo<\/a>: \u201cPenso que n\u00e3o h\u00e1 lugar para dois povos no nosso pa\u00eds. Os palestinos s\u00e3o como piolhos. \u00c9 preciso elimin\u00e1-los como piolhos\u201d. Ele foi morto a tiros por combatentes da Frente Popular de Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (FPLP) em outubro de 2001. O nome da estrada que atravessa a Cisjord\u00e2nia \u2013 prometida a um Estado palestino nos Acordos de Oslo de 1993 \u2013 ainda tem o nome de Ze\u2019evi.<\/p>\n<p>Ze\u2019evi foi assassinado por combatentes da FPLP porque o ex\u00e9rcito israelense tinha assassinado o seu l\u00edder, Mustafa Ali Zibri, ao disparar dois m\u00edsseis de cruzeiro contra a sua resid\u00eancia em Al-Bireh (Palestina). O assassinato de Zibri n\u00e3o foi um incidente isolado. Fazia parte do <a href=\"https:\/\/www.thenation.com\/article\/archive\/and-darkness-covered-land\/\">plano<\/a> do primeiro-ministro israelense Ariel Sharon para \u201cprovocar o colapso\u201d da Autoridade Palestina \u2013 criada para gerir os Acordos de Oslo \u2013 e \u201cmand\u00e1-los todos para o inferno\u201d. Para al\u00e9m do assassinato sistem\u00e1tico de civis, a partir de julho de 2001 o governo israelense matou quatro dirigentes pol\u00edticos (o l\u00edder da Jihad Isl\u00e2mica, Salah Darwazeh, e o l\u00edder do Hamas, Jamal Mansour, em julho, e depois o l\u00edder do Hamas, Amer Mansour Habiri, al\u00e9m do l\u00edder da Fatah, Emad Abu Sneineh, em agosto). Ap\u00f3s o assassinato de Zibri, os israelenses assassinaram Mahmoud Abu Hanoud, do Hamas, em novembro. \u201cQuem quer que tenha dado luz verde a este ato de liquida\u00e7\u00e3o\u201d, <a href=\"https:\/\/www.thenation.com\/article\/archive\/sharon-or-arafat-which-sponsor-terror\/\">escreveu<\/a> o correspondente militar Alex Fishman no di\u00e1rio israelense <b><i>Yediot Ahronot<\/i><\/b>, \u201csabia muito bem que estava destruindo num s\u00f3 golpe o acordo de cavalheiros firmado entre o Hamas e a Autoridade Palestina; nos termos desse acordo, o Hamas deveria evitar, num futuro pr\u00f3ximo, os atentados suicidas dentro da Linha Verde [as fronteiras de Israel anteriores a 1967]\u201d.<\/p>\n<p><b>Viol\u00eancia quente, viol\u00eancia fria<\/b><\/p>\n<p>Durante s\u00e9culos, crist\u00e3os, mu\u00e7ulmanos e judeus palestinos viveram lado a lado nas terras que viriam a ser Israel e os TPO, incluindo a regi\u00e3o ao longo do vale do rio Jord\u00e3o. Desde a expuls\u00e3o dos crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos palestinos e a chegada dos judeus europeus, o aparato legal \u2013 ou a \u201cviol\u00eancia fria\u201d, como <a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/products\/132-letters-to-palestine\">descreve<\/a> o escritor Teju Cole \u2013 trabalhou em conjunto com a viol\u00eancia paramilitar e militar contra os palestinos para criar a fantasia de um projeto de Estado etno-nacionalista (o Estado judaico, como era ent\u00e3o chamado). A erradica\u00e7\u00e3o dos palestinos n\u00e3o-judeus foi fundamental para este projeto, quer atrav\u00e9s de massacres (<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Deir_Yassin_massacre\">Deir Yassin<\/a>, em 1948), quer atrav\u00e9s da remo\u00e7\u00e3o total da popula\u00e7\u00e3o palestina das suas terras (a Nakba de 1948). Os massacres e as transfer\u00eancias de popula\u00e7\u00e3o foram acompanhados pela nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia da Palestina e do povo palestino. O herdeiro de Ze\u2019evi, o atual ministro das Finan\u00e7as, Bezalel Smotrich, <a href=\"https:\/\/www.middleeasteye.net\/news\/israel-smotrich-palestinians-no-such-thing\">disse<\/a> em mar\u00e7o deste ano: \u201cN\u00e3o existem palestinos porque n\u00e3o existe um povo palestino\u201d. Esta n\u00e3o \u00e9 uma opini\u00e3o que possa ser considerada como um mero discurso de extrema-direita. Ofir Akunis, membro do Likud e ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia, <a href=\"https:\/\/www.israelnationalnews.com\/news\/281166\">disse<\/a> h\u00e1 tr\u00eas anos: \u201cN\u00e3o h\u00e1 lugar para qualquer f\u00f3rmula de cria\u00e7\u00e3o de um Estado palestino na parte ocidental de Israel\u201d. A express\u00e3o \u201cIsrael Ocidental\u201d \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o arrepiante sobre o consenso israelense em torno da anexa\u00e7\u00e3o total da Cisjord\u00e2nia, ignorando o direito internacional.<\/p>\n<p>\u00c9 essencial concentrar a aten\u00e7\u00e3o em Gaza. A \u201cviol\u00eancia quente\u201d israelense \u00e9 extrema, com o n\u00famero de mortes de palestinos \u2013 das quais quase metade, em Gaza, \u00e9 de crian\u00e7as \u2013 chegando a ser superior a 5 mil. A invas\u00e3o terrestre israelense foi bloqueada, por enquanto, pelo reconhecimento de que o moral da resist\u00eancia palestina est\u00e1 elevado. Esta lutar\u00e1 contra todos os soldados israelenses que entrarem nas ru\u00ednas de Gaza. Antes desta incurs\u00e3o israelense, 450 caminh\u00f5es <a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/5027f41d-90e6-4481-a386-0fde2cdffa63\">entraram<\/a> em Gaza com mantimentos para os 2,3 milh\u00f5es de habitantes; foi considerada uma vit\u00f3ria quando nove caminh\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas e onze caminh\u00f5es da Crescente Vermelha eg\u00edpcia entraram em Gaza, no dia 21 de outubro. A Anistia Internacional analisou apenas cinco bombardeios israelenses e <a href=\"https:\/\/www.amnesty.org\/en\/latest\/news\/2023\/10\/damning-evidence-of-war-crimes-as-israeli-attacks-wipe-out-entire-families-in-gaza\/\">encontrou<\/a> provas de crimes de guerra, o que deveria alertar o Tribunal Penal Internacional para reabrir o seu <a href=\"https:\/\/www.icc-cpi.int\/news\/statement-icc-prosecutor-fatou-bensouda-respecting-investigation-situation-palestine\">processo<\/a> sobre as atrocidades israelenses. Isto deveria incluir o crime de puni\u00e7\u00e3o coletiva, com o corte da \u00e1gua e da eletricidade de Gaza, o bombardeio das estradas de acesso \u00e0 passagem de Rafah para o Egito e bombardeio da pr\u00f3pria passagem de Rafah.<\/p>\n<p>Grandes manifesta\u00e7\u00f5es em todo o mundo exigem um cessar-fogo (no m\u00ednimo) e o fim da ocupa\u00e7\u00e3o. O Estado de Israel n\u00e3o est\u00e1 interessado. O ministro da Defesa, Yoav Gallant, <a href=\"https:\/\/www.timesofisrael.com\/liveblog_entry\/gallant-says-after-hamas-vanquished-israel-will-seek-new-security-regime-in-gaza\/\">disse<\/a> ao Parlamento que as suas for\u00e7as t\u00eam um plano de tr\u00eas pontos \u2013 destruir o Hamas, destruir as outras fac\u00e7\u00f5es palestinas e criar um novo \u201cregime de seguran\u00e7a\u201d em Gaza. O povo palestino \u2013 e n\u00e3o apenas as fac\u00e7\u00f5es armadas \u2013 est\u00e1 resoluto na sua resist\u00eancia \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o israelense. A \u00fanica maneira do novo \u201cregime de seguran\u00e7a\u201d de Gallant funcionar seria apagar essa resist\u00eancia, o que significa retirar todos os palestinos de Gaza, quer atrav\u00e9s de massacres, quer atrav\u00e9s da expuls\u00e3o. Os Estados Unidos est\u00e3o alinhados a este plano de exterm\u00ednio: um memorando do Departamento de Estado dos EUA <a href=\"https:\/\/www.huffpost.com\/entry\/state-department-internal-emails-gaza-israel_n_65296395e4b0a304ff6ff95d?ykm\">diz<\/a> que os seus diplomatas n\u00e3o devem usar frases como \u201cdesescalar\u201d, \u201ccessar-fogo\u201d, \u201cfim da viol\u00eancia\u201d, \u201cfim do derramamento de sangue\u201d e \u201crestaurar a calma\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00fanica forma do novo \u201cregime de seguran\u00e7a\u201d de Israel funcionar seria retirar todos os palestinos de Gaza, seja por meio de Dirigir ao longo do Vale do Rio Jord\u00e3o, no Territ\u00f3rio Palestino Ocupado (TPO) da Cisjord\u00e2nia, \u00e9 uma experi\u00eancia impressionante. A estrada \u00e9 oficialmente nomeada de \u201cEstrada 90\u201d. 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