{"id":9032,"date":"2024-04-05T11:08:37","date_gmt":"2024-04-05T15:08:37","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/2024\/04\/05\/the-unremarkable-death-of-migrants-in-the-sahara-desert\/"},"modified":"2024-04-18T20:53:37","modified_gmt":"2024-04-19T00:53:37","slug":"a-morte-banal-dos-imigrantes-no-deserto-do-saara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2024\/04\/05\/a-morte-banal-dos-imigrantes-no-deserto-do-saara\/","title":{"rendered":"A morte banal dos imigrantes no Deserto do Saara"},"content":{"rendered":"<p>Sabah, na L\u00edbia, \u00e9 uma cidade o\u00e1sis no extremo norte do deserto do Saara. Permanecer na orla da cidade e olhar para o sul, para o deserto, em dire\u00e7\u00e3o ao N\u00edger, \u00e9 intimidador. A areia se projeta at\u00e9 o infinito e, se o vento soprar, ele levanta a areia at\u00e9 cobrir o c\u00e9u. Os carros descem a estrada que passa pela Mesquita al-Baraka em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade. Alguns desses carros v\u00eam da Arg\u00e9lia (embora a fronteira esteja frequentemente fechada) ou de Djebel al-Akakus, as montanhas que correm ao longo da extremidade ocidental da L\u00edbia. Ocasionalmente, uma caminhonete Toyota branca cheia de homens da regi\u00e3o africana do Sahel e do oeste da \u00c1frica chega a Sabah. Milagrosamente, esses homens conseguiram atravessar o deserto, e \u00e9 por isso que muitos deles descem das caminhonetes e se jogam ao ch\u00e3o em desesperadas ora\u00e7\u00f5es. Sabah significa \u201cmanh\u00e3\u201d ou \u201cpromessa\u201d em \u00e1rabe, o que \u00e9 uma palavra adequada para essa cidade que fica \u00e0 beira do enorme, crescente e perigoso Saara.<\/p>\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional de Migra\u00e7\u00e3o (OIM) das Na\u00e7\u00f5es Unidas coletou dados sobre as mortes de imigrantes. O <a href=\"https:\/\/missingmigrants.iom.int\/\">Projeto de Migrantes Desaparecidos<\/a> publica seus dados todos os anos e, em abril deste ano, divulgou os <a href=\"https:\/\/www.migrationdataportal.org\/themes\/migrant-deaths-and-disappearances\">n\u00fameros<\/a> mais recentes. Nos \u00faltimos dez anos, a OIM diz que 64.371 mulheres, homens e crian\u00e7as morreram enquanto se deslocavam (metade deles morreu no Mar Mediterr\u00e2neo). Em m\u00e9dia, a cada ano desde 2014, 4 mil pessoas morreram. No entanto, em 2023, o n\u00famero subiu para 8 mil. Um em cada tr\u00eas imigrantes que fogem de uma zona de conflito morre no caminho rumo \u00e0 seguran\u00e7a. Esses n\u00fameros, no entanto, est\u00e3o muito deflacionados, j\u00e1 que a OIM simplesmente n\u00e3o consegue acompanhar o que eles chamam de \u201cmigra\u00e7\u00e3o irregular\u201d. Por exemplo, a OIM <a href=\"https:\/\/missingmigrants.iom.int\/methodology\">admite<\/a> que \u201calguns especialistas acreditam que mais imigrantes morrem ao atravessar o deserto do Saara do que no Mar Mediterr\u00e2neo\u201d.<\/p>\n<p><b>Tempestades de areia e atiradores<\/b><\/p>\n<p>Abdel Salam, que administra um pequeno neg\u00f3cio na cidade, apontou para longe e disse: \u201cNaquela dire\u00e7\u00e3o fica Toummo\u201d, a cidade l\u00edbia que faz fronteira com o N\u00edger. Ele percorre as m\u00e3os pelo horizonte e diz que na regi\u00e3o entre o N\u00edger e a Arg\u00e9lia fica a passagem de Salvador, e \u00e9 por essa passagem que drogas, imigrantes e armas v\u00e3o e voltam, um com\u00e9rcio que enriquece muitas das pequenas cidades da regi\u00e3o, como Ubari. Com a eros\u00e3o do estado l\u00edbio desde a guerra da OTAN em 2011, a fronteira \u00e9 amplamente porosa e perigosa. Foi a partir dali que o l\u00edder da al-Qaeda, Mokhtar Belmokhtar, transferiu suas tropas do norte do Mali para a regi\u00e3o de Fezzan, na L\u00edbia, em 2013 (<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2015\/06\/15\/world\/middleeast\/us-airstrike-targets-qaeda-operative-in-libya.html\">dizem que<\/a> ele foi morto na L\u00edbia em 2015). Essa tamb\u00e9m \u00e9 a \u00e1rea dominada pelos contrabandistas de cigarros da al-Qaeda, que transportam milh\u00f5es de <a href=\"https:\/\/balkaninsight.com\/2018\/12\/20\/albania-s-made-in-egypt-cigarettes-flood-north-africa-12-19-2018\/\">cigarros<\/a> Cle\u00f3patra, fabricados na Alb\u00e2nia, atrav\u00e9s do Saara at\u00e9 o Sahel (Belmokhtar, por exemplo, era <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=vTjsdFo_I3Q\">conhecido<\/a> como o \u201cHomem Marlboro\u201d por seu papel nesse com\u00e9rcio). Um caminh\u00e3o Toyota ocasionalmente segue em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade. Mas muitos deles desaparecem no deserto, v\u00edtimas das terr\u00edveis tempestades de areia ou de sequestradores e ladr\u00f5es. Ningu\u00e9m consegue registrar esses desaparecimentos, pois ningu\u00e9m sabe que eles aconteceram.<\/p>\n<p>O filme <i>Io Capitano<\/i> (2023), indicado ao Oscar, de Matteo Garrone, conta a hist\u00f3ria de dois meninos senegaleses \u2013 Seydou e Moussa \u2013 que v\u00e3o do Senegal para a It\u00e1lia, passando por Mali, N\u00edger e, depois, L\u00edbia, onde s\u00e3o encarcerados antes de fugirem para a It\u00e1lia pelo Mediterr\u00e2neo em um barco velho. Garrone construiu a hist\u00f3ria com base nos relatos de v\u00e1rios imigrantes, incluindo Kouassi Pli Adama Mamadou (da Costa do Marfim, hoje um ativista que vive em Caserta, na It\u00e1lia). O filme n\u00e3o se esquiva da beleza severa do Saara, que tira a vida de imigrantes que ainda n\u00e3o s\u00e3o vistos como imigrantes pela Europa. O foco do filme \u00e9 a jornada para a Europa, embora a maioria dos africanos imigre dentro do continente (21 milh\u00f5es de africanos vivem em <a href=\"https:\/\/www.iom.int\/africa-and-middle-east\">pa\u00edses<\/a> nos quais n\u00e3o nasceram). <i>Io Capitano<\/i> termina com um helic\u00f3ptero sobrevoando o navio enquanto ele se aproxima do litoral italiano; j\u00e1 foi <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2024\/03\/04\/opinion\/oscars-italy-io-capitano.html\">apontado<\/a> que o filme n\u00e3o registra as pol\u00edticas racistas que receber\u00e3o Seydou e Moussa. O que n\u00e3o \u00e9 mostrado no filme \u00e9 como os pa\u00edses europeus tentaram construir uma fortaleza na regi\u00e3o do Sahel para impedir a imigra\u00e7\u00e3o para o norte.<\/p>\n<p><b>Tumba a c\u00e9u aberto<\/b><\/p>\n<p>Um n\u00famero cada vez maior de imigrantes tem buscado a rota N\u00edger-L\u00edbia ap\u00f3s a queda do Estado l\u00edbio em 2011 e a <a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/news\/2023\/06\/22\/spain\/morocco-no-justice-deaths-melilla-border\">repress\u00e3o<\/a> na fronteira marroquino-espanhola em Melilla e Ceuta. H\u00e1 uma d\u00e9cada, os estados europeus voltaram sua aten\u00e7\u00e3o para essa rota, tentando construir um \u201cmuro\u201d europeu no Saara contra os imigrantes. O objetivo era deter os imigrantes antes que eles chegassem ao Mar Mediterr\u00e2neo, onde se tornariam um constrangimento para a Europa. A Fran\u00e7a, na vanguarda, reuniu cinco dos estados do Sahel (Burkina Faso, Chade, Mali, Maurit\u00e2nia e N\u00edger) em 2014 para criar o G5 Sahel. Em 2015, sob press\u00e3o francesa, o governo do N\u00edger <a href=\"https:\/\/www.refworld.org\/legal\/legislation\/natlegbod\/2015\/fr\/123771\">aprovou<\/a> a Lei 2015-36, que criminalizou a migra\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. O G5 Sahel e a lei no N\u00edger foram acompanhados de <a href=\"https:\/\/privacyinternational.org\/long-read\/3221\/eu-funds-surveillance-around-world-heres-what-must-be-done-about-it\">financiamentos<\/a> da Uni\u00e3o Europeia para fornecer tecnologias de vigil\u00e2ncia \u2013 ilegais na Europa \u2013 para serem usadas nesse grupo de pa\u00edses contra os imigrantes. Em 2016, os Estados Unidos <a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2016\/09\/29\/u-s-military-is-building-a-100-million-drone-base-in-africa\/\">constru\u00edram<\/a> a maior base de drones do mundo em Agadez, N\u00edger, como parte desse programa anti-imigrantes. Em maio de 2023, a <i>Border Forensics<\/i> estudou as rotas dos imigrantes e <a href=\"https:\/\/www.borderforensics.org\/app\/uploads\/2023\/05\/Report_Sahara_EN.pdf\">descobriu<\/a> que, devido \u00e0 lei no N\u00edger e a esses outros mecanismos, o Saara havia se tornado uma \u201ctumba a c\u00e9u aberto\u201d.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, entretanto, tudo isso come\u00e7ou a se desfazer. Os golpes de Estado na Guin\u00e9 (2021), no Mali (2021), em Burkina Faso (2022) e no N\u00edger (2023) resultaram no <a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2023\/12\/6\/chad-mauritania-pave-way-to-dissolve-g5-anti-rebel-alliance\">desmantelamento<\/a> do G5 Sahel, bem como na exig\u00eancia de remo\u00e7\u00e3o das tropas francesas e norte-americanas. Em novembro de 2023, o governo do N\u00edger<a href=\"https:\/\/www.lemonde.fr\/afrique\/article\/2023\/11\/28\/niger-le-regime-militaire-abroge-une-loi-contre-les-trafiquants-de-migrants_6202734_3212.html\"> revogou<\/a> a Lei 2015-36 e libertou aqueles que haviam sido acusados de serem contrabandistas.<\/p>\n<p>Abdourahamane, um chefe local, de p\u00e9 ao lado da Grande Mesquita em Agadez, falou comigo sobre os imigrantes. \u201cAs pessoas que v\u00eam para c\u00e1 s\u00e3o nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s\u201d, disse ele. \u201cElas v\u00eam. Descansam. Elas v\u00e3o embora. Elas n\u00e3o nos trazem problemas\u201d. A mesquita, constru\u00edda em barro, traz em si as marcas do deserto, mas n\u00e3o \u00e9 transit\u00f3ria. Abdourahamane me disse que ela remonta ao s\u00e9culo 16, muito antes do nascimento da Europa moderna. Muitos dos imigrantes passam ali para receber suas b\u00ean\u00e7\u00e3os antes de comprarem \u00f3culos escuros e atravessarem o deserto, esperando que consigam atravessar as areias e encontrar seu destino em algum lugar no horizonte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabah, na L\u00edbia, \u00e9 uma cidade o\u00e1sis no extremo norte do deserto do Saara. Permanecer na orla da cidade e olhar para o sul, para o deserto, em dire\u00e7\u00e3o ao N\u00edger, \u00e9 intimidador. A areia se projeta at\u00e9 o infinito e, se o vento soprar, ele levanta a areia at\u00e9 cobrir o c\u00e9u. Os carros [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":31,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[348],"tags":[384,899,484,801,613,618],"article-type":[625],"class_list":["post-9032","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-globetrotter-pt-br","tag-africa-pt-br","tag-africa-libia-pt-br","tag-africa-niger-pt-br","tag-nacoes-unidas","tag-opiniao","tag-politica-pt-br","article-type-opinion-analysis-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9032","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/31"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9032"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9032\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9032"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9032"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9032"},{"taxonomy":"article-type","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/article-type?post=9032"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}