{"id":8849,"date":"2024-02-13T11:41:45","date_gmt":"2024-02-13T16:41:45","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/2024\/02\/13\/los-palestinos-y-palestinas-de-gaza-no-tienen-adonde-ir\/"},"modified":"2024-03-13T18:41:06","modified_gmt":"2024-03-13T22:41:06","slug":"os-palestinos-de-gaza-nao-tem-para-onde-ir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2024\/02\/13\/os-palestinos-de-gaza-nao-tem-para-onde-ir\/","title":{"rendered":"Os palestinos de Gaza n\u00e3o t\u00eam para onde ir"},"content":{"rendered":"<p>No dia 9 de fevereiro de 2024, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, <a href=\"https:\/\/www.haaretz.com\/israel-news\/2024-02-09\/ty-article\/.premium\/netanyahu-orders-israeli-army-to-present-plans-to-evacuate-rafah-civilians-defeat-hamas\/0000018d-8e6e-d7bc-a7fd-afef6a250000\">declarou<\/a> que seu ex\u00e9rcito invadiria Rafah, a \u00faltima cidade remanescente em Gaza n\u00e3o ocupada pelos israelenses. A maioria dos 2,3 milh\u00f5es de palestinos que vivem em Gaza fugiram para a sua fronteira sul com o Egito depois de serem <a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2023\/10\/13\/israel-orders-1-1-million-people-in-gaza-to-move-south-what-to-know\">informados<\/a> pelos israelenses, no dia 13 de outubro de 2023, que o norte deveria ser abandonado e que o sul seria uma \u201czona segura\u201d. Quando os palestinos do norte, especialmente da cidade de Gaza, come\u00e7aram a marcha para o sul \u2013 muitas vezes a p\u00e9 \u2013 foram atacados pelas for\u00e7as israelenses, que n\u00e3o lhes deram passagem segura. Os israelenses disseram que tudo o que estivesse ao sul de Wadi Gaza, que divide a estreita Faixa de Gaza, seria seguro, mas quando os palestinos se deslocaram para Deir-al-Balah, Khan Younis e Rafah, depararam-se com jatos israelenses os seguindo e com as tropas israelenses os perseguindo. Agora, Netanyahu disse que suas for\u00e7as entrar\u00e3o em Rafah para combater o Hamas. Em 11 de fevereiro, Netanyahu <a href=\"https:\/\/abcnews.go.com\/ThisWeek\/video\/1-1-prime-minister-benjamin-netanyahu-107138466\">disse<\/a> \u00e0 NBC News que os israelenses forneceriam \u201cpassagem segura para a popula\u00e7\u00e3o civil\u201d e que n\u00e3o haveria \u201ccat\u00e1strofe\u201d.<\/p>\n<p><b>Cat\u00e1strofe<\/b><\/p>\n<p>O uso da palavra \u201ccat\u00e1strofe\u201d \u00e9 significativo. Essa \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o aceita em portugu\u00eas da palavra \u201cnakba\u201d, utilizada desde 1948 para descrever a remo\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, naquele ano, de metade da popula\u00e7\u00e3o palestina de suas casas. O uso do termo por Netanyahu se d\u00e1 depois de altos funcion\u00e1rios do governo israelense j\u00e1 terem falado de uma \u201cNakba de Gaza\u201d ou de uma \u201cSegunda Nakba\u201d. A utiliza\u00e7\u00e3o dessas frases fez parte do <a href=\"https:\/\/www.icj-cij.org\/sites\/default\/files\/case-related\/192\/192-20231228-app-01-00-en.pdf\">requerimento<\/a> da \u00c1frica do Sul \u00e0 Corte Internacional de Justi\u00e7a (CIJ) em 29 de dezembro de 2023, alegando que fazem parte das \u201cexpress\u00f5es de inten\u00e7\u00e3o genocida contra o povo palestino por parte de autoridades do Estado israelense\u201d. Um m\u00eas depois, a CIJ disse que havia evid\u00eancias \u201cplaus\u00edveis\u201d de genoc\u00eddio sendo conduzido em Gaza, destacando as palavras das autoridades israelenses. Uma das autoridades, o ministro da Defesa israelense Yoav Gallant, disse: \u201cEu suspendi todas as restri\u00e7\u00f5es [para a a\u00e7\u00e3o militar]\u201d (o que foi citado tanto na queixa sul-africana quanto na ordem da CIJ).<\/p>\n<p>Netanyahu disse que n\u00e3o haveria \u201ccat\u00e1strofe\u201d depois que mais de 28 mil palestinos foram mortos e depois que dois milh\u00f5es dos 2,3 milh\u00f5es de palestinos em Gaza foram deslocados, o que \u00e9 intrigante. Desde a ordem da CIJ, o ex\u00e9rcito israelense matou quase 2 mil palestinos. O ex\u00e9rcito israelense j\u00e1 come\u00e7ou a atacar Rafah, uma cidade com uma <a href=\"https:\/\/www.nrc.no\/news\/2024\/february\/gaza-israels-military-operation-in-rafah-would-be-fatal-for-displaced-civilians-and-humanitarian-aid\/\">densidade populacional<\/a> de 22 mil pessoas por quil\u00f4metro quadrado. Em resposta ao an\u00fancio israelense de que entrariam na cidade de Rafah, o Conselho Noruegu\u00eas para Refugiados (NRC) \u2013 um dos poucos grupos que operam na parte sul de Gaza \u2013 <a href=\"https:\/\/www.nrc.no\/news\/2024\/february\/gaza-israels-military-operation-in-rafah-would-be-fatal-for-displaced-civilians-and-humanitarian-aid\/\">declarou<\/a> que essa invas\u00e3o \u201cpoderia levar a resposta humanit\u00e1ria a um colapso\u201d. O NRC avaliou nove dos abrigos existentes em Rafah, que abrigam 27,4 mil civis, e descobriu que os residentes n\u00e3o t\u00eam \u00e1gua pot\u00e1vel. Como os abrigos est\u00e3o extenuados, operando com 150% da capacidade, centenas de palestinos est\u00e3o vivendo nas ruas. Em cada uma das \u00e1reas estudadas pelo NRC, os refugiados palestinos foram acometidos por hepatite A, gastroenterite, diarreia, var\u00edola, piolhos e gripe. Devido ao colapso dessa resposta humanit\u00e1ria do NRC e das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2013 cuja ag\u00eancia UNRWA perdeu seu financiamento e est\u00e1 sob ataque dos israelenses \u2013 a situa\u00e7\u00e3o se deteriorar\u00e1 ainda mais.<\/p>\n<p><b>Passagem segura<\/b><\/p>\n<p>Netanyahu diz que seu governo fornecer\u00e1 uma \u201cpassagem segura\u201d aos palestinos. Essas palavras t\u00eam sido ouvidas pelos palestinos desde meados de outubro, quando lhes foi ordenado que continuassem indo para o sul para evitar que fossem mortos pelos bombardeios israelenses. Ningu\u00e9m acredita em nada do que Netanyahu diz. Saleem, um agente de sa\u00fade palestino, me disse que n\u00e3o consegue imaginar nenhum lugar seguro em Gaza. Ele chegou ao bairro de al-Zohour, em Rafah, vindo de Khan Younis, caminhando com a fam\u00edlia, desesperado para sair do alcance das armas israelenses. \u201cPara onde vamos agora?\u201d, ele me pergunta. \u201cN\u00e3o podemos entrar no Egito. A fronteira est\u00e1 fechada. Portanto, n\u00e3o podemos ir para o sul. N\u00e3o podemos entrar em Israel, porque isso \u00e9 imposs\u00edvel. Devemos ir para o norte, de volta a Khan Younis e \u00e0 Cidade de Gaza?\u201d<\/p>\n<p>Saleem se lembra que, quando chegou a al-Zohour, os israelenses atacaram a casa do Dr. Omar Mohammed Harb, matando 22 palestinos (entre eles, cinco crian\u00e7as). A casa foi destru\u00edda. O nome do Dr. Omar Mohammed Harb me marcou porque me lembrei de que h\u00e1 dois anos sua filha Abeer se casaria com Ismail Abdel-Hameed Dweik. Um ataque a\u00e9reo israelense ao campo de refugiados de Shouhada havia matado Ismail em agosto de 2022. Abeer foi morta no ataque \u00e0 casa de seu pai, que era um ref\u00fagio para os que fugiam do norte. Saleem mudou-se para essa \u00e1rea de Rafah. Agora ele est\u00e1 inquieto. \u201cPara onde ir?\u201d, ele pergunta.<\/p>\n<p><b>Domic\u00eddio<\/b><\/p>\n<p>Em 29 de janeiro de 2024, o relator especial da ONU sobre o direito \u00e0 moradia adequada, Dr. Balakrishnan Rajagopal, escreveu um <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/interactive\/2024\/01\/29\/opinion\/destruction-of-homes-crime-domicide.html\">forte ensaio<\/a> no The New York Times intitulado \u201cDomic\u00eddio: a destrui\u00e7\u00e3o em massa de casas deve ser um crime contra a humanidade\u201d. Acompanhando seu artigo, havia um ensaio fotogr\u00e1fico de Yaqeen Baker, cuja casa foi destru\u00edda em Jabalia (norte de Gaza) pelo bombardeio israelense. \u201cA destrui\u00e7\u00e3o de casas em Gaza\u201d, escreveu Baker, \u201ctornou-se comum, assim como o sentimento de que \u2018o importante \u00e9 que voc\u00ea esteja seguro \u2013 todo o resto pode ser substitu\u00eddo\u2019\u201d. Essa \u00e9 uma avalia\u00e7\u00e3o compartilhada em Gaza entre aqueles que ainda est\u00e3o vivos. Mas, como diz o Dr. Rajagopal, a escala da destrui\u00e7\u00e3o de moradias em Gaza n\u00e3o deve ser considerada um fato natural. Trata-se de uma forma de \u201cdomic\u00eddio\u201d, um crime contra a humanidade.<\/p>\n<p>O ataque israelense a Gaza, escreve o Dr. Rajagopal, \u00e9 \u201cmuito pior do que o que vimos em Dresden e Roterd\u00e3 durante a Segunda Guerra Mundial, onde cerca de 25 mil casas foram destru\u00eddas em cada cidade\u201d. Em Gaza, segundo ele, mais de 70 mil unidades habitacionais foram totalmente destru\u00eddas e 290 mil foram parcialmente danificadas. Nesses tr\u00eas meses sob fogo israelense, ele observa, \u201cum n\u00famero chocante de 60% a 70% das estruturas em Gaza e at\u00e9 84% das estruturas no norte de Gaza foram danificadas ou destru\u00eddas\u201d. Devido ao domic\u00eddio, n\u00e3o h\u00e1 lugar para onde os palestinos de Rafah possam ir caso sigam para o norte. Suas casas foram destru\u00eddas. \u201cEssa destrui\u00e7\u00e3o de Gaza como um lugar\u201d, reflete o Dr. Rajagopal, \u201capaga o passado, o presente e o futuro de muitos palestinos\u201d. Essa declara\u00e7\u00e3o do Dr. Rajagopal \u00e9 um reconhecimento do genoc\u00eddio que est\u00e1 ocorrendo em Gaza.<\/p>\n<p>Enquanto falo com Saleem, o som do avan\u00e7o israelense pode ser ouvido \u00e0 dist\u00e2ncia. \u201cN\u00e3o sei quando poderemos falar em seguida\u201d, diz ele. \u201cN\u00e3o sei onde estarei\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 9 de fevereiro de 2024, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou que seu ex\u00e9rcito invadiria Rafah, a \u00faltima cidade remanescente em Gaza n\u00e3o ocupada pelos israelenses. 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