{"id":8618,"date":"2023-12-04T20:59:02","date_gmt":"2023-12-05T01:59:02","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/2023\/12\/04\/exxonmobil-wants-to-start-a-war-in-south-america\/"},"modified":"2024-01-17T16:30:32","modified_gmt":"2024-01-17T21:30:32","slug":"a-exxonmobil-quer-comecar-uma-guerra-na-america-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2023\/12\/04\/a-exxonmobil-quer-comecar-uma-guerra-na-america-do-sul\/","title":{"rendered":"A ExxonMobil quer come\u00e7ar uma guerra na Am\u00e9rica do Sul"},"content":{"rendered":"<p>No dia 3 de dezembro de 2023, um grande n\u00famero de eleitores venezuelanos votou em um referendo sobre a disputada regi\u00e3o de Essequibo com a vizinha Guiana. <a href=\"https:\/\/ultimasnoticias.com.ve\/noticias\/general\/abrumadora-mayoria-apoya-al-sien-referendum-sobre-el-esequibo\/\">Quase todos<\/a> os que votaram responderam sim \u00e0s cinco perguntas. Estas perguntas pediam ao povo venezuelano que afirmasse a soberania do seu pa\u00eds sobre o Essequibo. \u201c<a href=\"https:\/\/ultimasnoticias.com.ve\/noticias\/politica\/maduro-el-unico-vencedor-es-la-soberania-de-la-patria\/\">Hoje<\/a>\u201d, disse o presidente da Venezuela, Nicol\u00e1s Maduro, \u201cn\u00e3o h\u00e1 vencedores nem perdedores\u201d. O \u00fanico vencedor, disse ele, \u00e9 a soberania da Venezuela. O principal perdedor, disse Maduro, \u00e9 a ExxonMobil.<\/p>\n<p>Em 2022, a ExxonMobil <a href=\"https:\/\/fortune.com\/2023\/01\/31\/exxon-mobil-record-profit-2022-ukraine-war-high-gas-prices\/\">teve um lucro<\/a> de 55,7 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, tornando-se uma das empresas petrol\u00edferas mais ricas e poderosas do mundo. Empresas como a ExxonMobil exercem um poder desmedido sobre a economia global e sobre os pa\u00edses com reservas de petr\u00f3leo. Ela tem tent\u00e1culos em todo o mundo, da Mal\u00e1sia \u00e0 Argentina. No livro <b><i>Private Empire: ExxonMobil and American Power<\/i><\/b> (2012), Steve Coll descreve como a empresa \u00e9 um \u201cestado corporativo dentro do estado americano\u201d. Os l\u00edderes da ExxonMobil sempre tiveram uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com o governo dos EUA: Lee \u201cIron Ass\u201d Raymond (diretor executivo de 1993 a 2005) era amigo pessoal do vice-presidente dos EUA Dick Cheney, e ajudou a moldar a pol\u00edtica do governo dos EUA em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas; Rex Tillerson (sucessor de Raymond em 2006) deixou a empresa em 2017 para se tornar secret\u00e1rio de Estado dos EUA sob o presidente Donald Trump. Coll <a href=\"https:\/\/news.columbia.edu\/content\/private-empire-exxonmobil-and-american-power\">descreve<\/a> como a ExxonMobil utiliza o poder do Estado norte-americano para encontrar cada vez mais reservas de petr\u00f3leo e garantir que a empresa se torne a principal benefici\u00e1ria dessas descobertas.<\/p>\n<p>Andando pelas v\u00e1rias se\u00e7\u00f5es eleitorais em Caracas no dia da elei\u00e7\u00e3o, ficava claro que as pessoas que votaram sabiam exatamente no que estavam votando: elas n\u00e3o foram \u00e0s se\u00e7\u00f5es de vota\u00e7\u00e3o para se manifestar contra o povo da Guiana \u2013 um pa\u00eds com uma popula\u00e7\u00e3o de pouco mais de 800 mil habitantes \u2013 mas para afirmar a soberania venezuelana contra empresas como a ExxonMobil. A atmosfera dessa vota\u00e7\u00e3o, impregnada de patriotismo venezuelano, tinha mais a ver com o desejo de eliminar a influ\u00eancia das empresas multinacionais e permitir que os povos da Am\u00e9rica do Sul resolvam as suas disputas e partilhem de suas riquezas entre si.<\/p>\n<p><b>Quando a Venezuela expulsou a ExxonMobil<\/b><\/p>\n<p>Quando Hugo Ch\u00e1vez foi eleito para a presid\u00eancia da Venezuela, em 1998, afirmou quase de imediato que os recursos do pa\u00eds \u2013 principalmente o petr\u00f3leo, que financia o desenvolvimento social do pa\u00eds \u2013 deviam estar nas m\u00e3os do povo e n\u00e3o de empresas petrol\u00edferas como a ExxonMobil. \u201cO petr\u00f3leo \u00e9 nosso\u201d era o slogan da \u00e9poca. A partir de 2006, o governo de Ch\u00e1vez iniciou um ciclo de nacionaliza\u00e7\u00f5es, e o petr\u00f3leo era central \u2013 o petr\u00f3leo havia sido nacionalizado na d\u00e9cada de 1970 e privatizado novamente duas d\u00e9cadas depois. A maioria das multinacionais petrol\u00edferas aceitou as novas leis que regulamentavam o setor, mas duas as recusaram: a ConocoPhillips e a ExxonMobil. Ambas as empresas exigiram dezenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares de indeniza\u00e7\u00e3o, embora o Centro Internacional para a Resolu\u00e7\u00e3o de Disputas sobre Investimentos (ICSID) tenha <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/article\/us-venezuela-exxon-idUSKCN0HY20720141009\/\">decidido em 2014<\/a> que a Venezuela s\u00f3 tinha que pagar \u00e0 ExxonMobil 1,6 bilh\u00e3o de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Rex Tillerson ficou furioso, de acordo com pessoas que trabalhavam na ExxonMobil na \u00e9poca. Em 2017, o <i>Washington Post<\/i> publicou um <a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/news\/worldviews\/wp\/2017\/01\/16\/rex-tillerson-got-burned-in-venezuela-then-he-got-revenge\/\">artigo<\/a> que captava o sentimento de Tillerson: \u201cRex Tillerson se queimou na Venezuela. Ent\u00e3o ele se vingou\u201d. A ExxonMobil assinou um acordo com a Guiana para a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo offshore em 1999, mas s\u00f3 come\u00e7ou a explora\u00e7\u00e3o offshore em mar\u00e7o de 2015 \u2013 ap\u00f3s o veredito negativo do ICSID. A ExxonMobil utilizou toda a for\u00e7a de uma campanha de press\u00e3o m\u00e1xima dos EUA contra a Venezuela, tanto para assegurar os seus projetos no territ\u00f3rio em disputa como para minar a reivindica\u00e7\u00e3o da Venezuela sobre a regi\u00e3o de Essequibo. Esta foi a vingan\u00e7a de Tillerson.<\/p>\n<p><b>O p\u00e9ssimo neg\u00f3cio da ExxonMobil para a Guiana<\/b><\/p>\n<p>Em 2015, a ExxonMobil <a href=\"https:\/\/corporate.exxonmobil.com\/Locations\/Guyana\/News-releases\/ExxonMobil-announces-significant-oil-discovery-offshore-Guyana\">anunciou<\/a> que tinha encontrado 295 p\u00e9s de \u201creservat\u00f3rios de arenito de petr\u00f3leo de alta qualidade\u201d, uma das maiores descobertas de petr\u00f3leo dos \u00faltimos anos. A gigante petrol\u00edfera entrou em <a href=\"https:\/\/guyaneseonline.net\/2016\/01\/06\/guyana-oil-talks-with-exxonmobil\/\">consultas<\/a> frequentes com o governo guianense, incluindo o compromisso de financiar todo e qualquer custo inicial da explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. Quando o acordo de partilha de produ\u00e7\u00e3o entre o governo da Guiana e a ExxonMobil foi divulgado, tornou-se claro o qu\u00e3o mal a Guiana se saiu nas negocia\u00e7\u00f5es. A ExxonMobil recebeu 75% das receitas do petr\u00f3leo para recupera\u00e7\u00e3o dos custos, e o restante foi dividido 50\/50 com a Guiana; a companhia petrol\u00edfera, por sua vez, est\u00e1 isenta de quaisquer impostos. O artigo 32\u00ba (\u201cEstabilidade do acordo\u201d) estipula que o governo \u201cn\u00e3o alterar\u00e1, modificar\u00e1, rescindir\u00e1, terminar\u00e1, declarar\u00e1 inv\u00e1lido ou inexequ\u00edvel, exigir\u00e1 renegocia\u00e7\u00e3o, obrigar\u00e1 a substitui\u00e7\u00e3o ou reposi\u00e7\u00e3o, ou procurar\u00e1 evitar, alterar ou limitar este acordo\u201d sem o consentimento da ExxonMobil. Este acordo deixa todos os futuros governos da Guiana num neg\u00f3cio muito mal costurado.<\/p>\n<p>Pior ainda para a Guiana \u00e9 o fato do acordo ter como palco \u00e1guas disputadas com a Venezuela desde o s\u00e9culo XIX. A desonestidade dos brit\u00e2nicos e depois dos EUA criou as condi\u00e7\u00f5es para uma disputa fronteiri\u00e7a na regi\u00e3o que tinha problemas pontuais antes da descoberta do petr\u00f3leo. Durante a d\u00e9cada de 2000, a Guiana manteve estreitos la\u00e7os de fraternidade com o governo venezuelano. Em 2009, no \u00e2mbito do programa PetroCaribe, a Guiana <a href=\"https:\/\/publications.iadb.org\/en\/guyanas-petrocaribe-rice-compensation-scheme-has-ended-assessment-and-policy-implications\">comprou<\/a> petr\u00f3leo a um pre\u00e7o reduzido da Venezuela em troca de arroz, o que constituiu uma vantagem para o setor arrozeiro guianense. O programa \u201cpetr\u00f3leo por arroz\u201d terminou em novembro de 2015, em parte devido \u00e0 queda dos pre\u00e7os mundiais do petr\u00f3leo. Para os observadores, tanto em Georgetown como em Caracas, ficou claro que o programa foi afetado pelas crescentes tens\u00f5es entre os dois pa\u00edses sobre a disputada regi\u00e3o de Essequibo.<\/p>\n<p><b>A ExxonMobil divide e conquista<\/b><\/p>\n<p>O referendo realizado em 3 de dezembro na Venezuela e os <a href=\"https:\/\/www.stabroeknews.com\/2023\/12\/04\/photos\/circles-of-unity-for-essequibo\/\">protestos<\/a> dos \u201cc\u00edrculos de unidade\u201d na Guiana sugerem um endurecimento da posi\u00e7\u00e3o dos dois pa\u00edses. Entretanto, \u00e0 margem da reuni\u00e3o da COP-28, o presidente da Guiana, Irfaan Ali, encontrou-se com o presidente cubano Miguel D\u00edaz-Canel e com o primeiro-ministro de S\u00e3o Vicente e Granadinas, Ralph Gonsalves, para discutir a situa\u00e7\u00e3o. Ali <a href=\"https:\/\/www.stabroeknews.com\/2023\/12\/03\/news\/guyana\/president-urges-cuba-to-call-on-venezuela-to-maintain-zone-of-peace\/\">pediu<\/a> a D\u00edaz-Canel que instasse a Venezuela a manter uma \u201czona de paz\u201d.<\/p>\n<p>A guerra n\u00e3o parece estar no horizonte. Os EUA retiraram parte do seu bloqueio \u00e0 ind\u00fastria petrol\u00edfera venezuelana, permitindo \u00e0 Chevron <a href=\"https:\/\/www.larepublica.co\/globoeconomia\/chevron-prepara-campana-de-perforacion-petrolera-en-venezuela-para-produccion-3712918\">retomar<\/a> v\u00e1rios projetos petrol\u00edferos na Faixa do Orinoco e no Lago de Maracaibo. Washington n\u00e3o tem apetite de aprofundar o seu conflito com a Venezuela. Mas a ExxonMobil tem. Nem o povo venezuelano nem o povo guianense se beneficiar\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da ExxonMobil na regi\u00e3o. \u00c9 por isso que muitos venezuelanos que foram votar no dia 3 de dezembro sentiram que este n\u00e3o era tanto um conflito entre a Venezuela e a Guiana, mas sim um conflito entre a ExxonMobil e os cidad\u00e3os destes dois pa\u00edses sul-americanos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 3 de dezembro de 2023, um grande n\u00famero de eleitores venezuelanos votou em um referendo sobre a disputada regi\u00e3o de Essequibo com a vizinha Guiana. Quase todos os que votaram responderam sim \u00e0s cinco perguntas. 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