{"id":8595,"date":"2023-12-13T20:23:10","date_gmt":"2023-12-14T01:23:10","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/2023\/12\/13\/the-no-state-solution-becomes-more-and-more-real-as-israels-permanent-nakba-continues\/"},"modified":"2024-01-17T16:29:17","modified_gmt":"2024-01-17T21:29:17","slug":"a-solucao-sem-estado-torna-se-mais-real-a-medida-que-a-nakba-permanente-de-israel-prossegue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2023\/12\/13\/a-solucao-sem-estado-torna-se-mais-real-a-medida-que-a-nakba-permanente-de-israel-prossegue\/","title":{"rendered":"A \u2018solu\u00e7\u00e3o sem Estado\u2019 torna-se mais real \u00e0 medida que a Nakba permanente de Israel prossegue"},"content":{"rendered":"<p>Em 1948, o historiador s\u00edrio Constantin Zurayk utilizou a palavra \u00e1rabe <b><i>Nakba<\/i><\/b> (Cat\u00e1strofe) para se referir \u00e0 remo\u00e7\u00e3o for\u00e7ada dos palestinos das suas terras e casas pelo rec\u00e9m-formado Estado israelense (no seu livro de agosto de 1948, <b><i>Ma\u2019na al-Nakba<\/i><\/b> ou \u201cO significado da Nakba\u201d). H\u00e1 uma d\u00e9cada, em Beirute, conheci o romancista liban\u00eas Elias Khoury \u2013 ent\u00e3o editor do <b><i>Journal of Palestinian Studies \u2013<\/i><\/b>, que me disse que a Nakba de 1948 n\u00e3o era um acontecimento, mas parte de um processo. \u201cO que temos \u00e9 uma Nakba permanente, o que significa que esta cat\u00e1strofe tem sido cont\u00ednua para os palestinos\u201d, disse Khoury. Desde 1948, os movimentos pol\u00edticos e os intelectuais palestinos t\u00eam argumentado que a l\u00f3gica do Estado israelense tem sido a de expulsar os palestinos da regi\u00e3o entre o rio Jord\u00e3o e o Mar Mediterr\u00e2neo. Essa pol\u00edtica de expuls\u00e3o para criar um Estado judeu \u00e9tnico-religioso de Israel \u00e9 o que Khoury entende como Nakba permanente.<\/p>\n<p>No dia 11 de novembro de 2023, o ministro da Agricultura de Israel, Avi Dichter, <a href=\"https:\/\/www.haaretz.com\/israel-news\/2023-11-12\/ty-article\/israeli-security-cabinet-member-calls-north-gaza-evacuation-nakba-2023\/0000018b-c2be-dea2-a9bf-d2be7b670000\">disse<\/a> algo surpreendente \u00e0 imprensa. \u201cEstamos neste momento lan\u00e7ando a Nakba de Gaza\u201d, disse o ministro. \u201cGaza Nakba 2023. \u00c9 assim que vai acabar\u201d, disse este antigo diretor do servi\u00e7o de seguran\u00e7a interna de Israel, o Shin Bet. Na primeira semana de novembro, o ministro do Patrim\u00f4nio de Israel, Amihai Eliyahu, esteve na R\u00e1dio Kol BaRama, cujo entrevistador comentou sobre lan\u00e7ar \u201cuma esp\u00e9cie de bomba nuclear sobre toda a Faixa de Gaza, destruindo-a, eliminando todos os que l\u00e1 est\u00e3o\u201d. Eliyahu <a href=\"https:\/\/www.timesofisrael.com\/far-right-minister-says-nuking-gaza-an-option-pm-suspends-him-from-cabinet-meetings\/#:~:text=Heritage%20Minister%20Amichai%20Eliyahu%20said,the%20minister%20from%20cabinet%20meetings.\">respondeu<\/a>: \u201cEssa \u00e9 uma maneira. A segunda maneira \u00e9 descobrir o que \u00e9 importante para eles, o que os assusta, o que os desencoraja&#8230; Eles n\u00e3o t\u00eam medo da morte\u201d. Israel, disse o ministro, deve retomar toda a Faixa de Gaza. E os palestinos? \u201cPodem ir para a Irlanda ou para os desertos\u201d, declarou. \u201cOs monstros de Gaza devem encontrar uma solu\u00e7\u00e3o por conta pr\u00f3pria\u201d. Essa linguagem de aniquila\u00e7\u00e3o e desumaniza\u00e7\u00e3o tornou-se normal no gabinete do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Netanyahu suspendeu Eliyahu do seu gabinete, mas n\u00e3o repreendeu o seu ministro da Defesa, Yoav Gallant, que <a href=\"https:\/\/www.timesofisrael.com\/liveblog_entry\/defense-minister-announces-complete-siege-of-gaza-no-power-food-or-fuel\/\">chamou<\/a> os palestinos de \u201canimais humanos\u201d. Esta \u00e9 a atitude em geral dos altos funcion\u00e1rios israelenses, que agora est\u00e3o utilizando este tipo de linguagem.<\/p>\n<p>O ex\u00e9rcito israelense deu seguimento na execu\u00e7\u00e3o da \u201cNakba de Gaza\u201d. Na fase inicial do ataque, Israel disse aos civis palestinos para se deslocarem em dire\u00e7\u00e3o ao sul da Faixa, ao longo da estrada Salah al-Din, o eixo norte-sul desta \u00e1rea de 40 km de extens\u00e3o da Palestina, onde vivem 2,3 milh\u00f5es de palestinos. Os israelenses disseram que iriam atacar principalmente o norte de Gaza, em particular a cidade de Gaza. Cerca de 1,5 milh\u00f5es de palestinos <a href=\"https:\/\/reliefweb.int\/report\/occupied-palestinian-territory\/unrwa-situation-report-25-situation-gaza-strip-and-west-bank-including-east-jerusalem-information-valid-7-november-2023-1830-local-time-enar\">deslocaram-se<\/a> da parte norte de Gaza para o sul, uma vez que os israelenses lhes <a href=\"https:\/\/www.haaretz.com\/israel-news\/2023-11-09\/ty-article\/.premium\/gazans-told-to-move-south-must-choose-between-israeli-bombardment-and-disease\/0000018b-b550-df42-a78f-bd5359900000\">disseram<\/a> repetidas vezes que essa seria uma zona segura. Os que ficaram sofreram um n\u00edvel de bombardeio nunca antes visto em Gaza, que tem sido bombardeada pelos israelenses de forma constante desde 2006 (a guerra atual <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/graphics\/ISRAEL-PALESTINIANS\/GAZA-JABALIA\/byprrdygjpe\/\">inclui<\/a> ataques a\u00e9reos mortais contra campos de refugiados extremamente povoados, como Jabalia). No final de novembro, ap\u00f3s cinco semanas de bombardeios brutais no norte, os avi\u00f5es israelenses intensificaram os bombardeios na segunda maior cidade de Gaza, Khan Younis, e iniciaram opera\u00e7\u00f5es terrestres nas \u00e1reas onde haviam indicado aos civis para se abrigarem. Na primeira semana de dezembro, os tanques israelenses <a href=\"https:\/\/www.haaretz.com\/israel-news\/2023-12-05\/ty-article\/.premium\/israeli-army-initiates-ground-operation-in-khan-yunis-hamas-hub-in-southern-gaza-strip\/0000018c-3ae3-d11b-a3bf-feeb33320000\">cercaram<\/a> Khan Younis, e os avi\u00f5es israelenses come\u00e7aram a bombardear pequenas cidades na parte sul de Gaza. Depois de empurrar 1,8 milh\u00f5es de palestinos para o sul, os israelenses come\u00e7aram agora a bombardear essa regi\u00e3o de Gaza. Entretanto, a recusa de Israel em permitir a entrada de ajuda humanit\u00e1ria suficiente em Gaza significa que nove em cada 10 palestinos est\u00e3o vivendo <a href=\"https:\/\/www.wfp.org\/news\/statement-wfp-deputy-executive-director-after-visit-gaza#:~:text=A%20WFP%20survey%20taken%20during,without%20any%20food%20at%20all.\">sem comida<\/a> h\u00e1 v\u00e1rios dias (alguns disseram ao Programa Alimentar Mundial da ONU que n\u00e3o comiam h\u00e1 10 dias). Esta guerra total de Israel empurrou a maioria dos palestinos de Gaza para a fronteira com o Egito. Sob a cobertura desta guerra, os israelenses tamb\u00e9m avan\u00e7aram agressivamente para a Cisjord\u00e2nia para aprofundar a Nakba permanente nessa parte do Territ\u00f3rio Palestino Ocupado.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 18 de outubro, muito antes das for\u00e7as israelenses avan\u00e7arem em dire\u00e7\u00e3o a Khan Younis, as for\u00e7as armadas israelense <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/news\/world-middle-east-67646964\">tuitaram<\/a> que \u201cordeneram aos residentes de Gaza que se mudem para a zona humanit\u00e1ria na \u00e1rea de al-Mawasi\u201d. Tr\u00eas dias depois, os militares israelenses disseram que os palestinos deveriam deslocar-se \u201cpara sul de Wadi Gaza\u201d e ir para a \u201czona humanit\u00e1ria em Mawasi\u201d. Os que se deslocaram para este pequeno enclave encontraram-no sem quaisquer servi\u00e7os \u2013 incluindo internet \u2013 e descobriram que mesmo aqui os israelenses estavam disparando suas armas nas proximidades. Mohammed Ghanem, que viveu perto do Hospital al-Shifa no norte de Gaza, <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/news\/world-middle-east-67646964\">disse<\/a> que al-Mawasi n\u00e3o era \u201cnem humano nem seguro\u201d. Os palestinos do sul de Gaza esperam agora poder sair antes que os bombardeios israelenses os encontrem. O n\u00famero de mortos j\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/middle-east\/about-18000-palestinians-killed-israeli-attacks-gaza-since-october-7-gaza-health-2023-12-10\/\">ultrapassou<\/a> os 18 mil. Como um amigo palestino escreveu em uma mensagem: \u201cSe n\u00e3o deixarmos nossas casas e formos para o ex\u00edlio, seremos mortos aqui\u201d. Ele enviou esta mensagem precisamente quando chegou a confirma\u00e7\u00e3o de que, desde 7 de outubro, foram expulsos das suas casas e mortos mais palestinos do que na Nakba de 1948. \u201cEsta \u00e9 a segunda Nakba\u201d, disse, perto da fronteira entre Gaza e o Egito.<\/p>\n<p><b>Um voto pela aniquila\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>O terr\u00edvel ataque israelense aos palestinos de Gaza provocou um apelo a um cessar-fogo a partir da segunda semana de outubro. O imenso poder de fogo de Israel \u2013 fornecido pelos pa\u00edses ocidentais (especialmente o Reino Unido e os Estados Unidos) \u2013 foi utilizado indiscriminadamente contra um povo que vive em zonas densamente povoadas de Gaza. As imagens dessa viol\u00eancia inundaram as redes sociais e at\u00e9 os telejornais, que n\u00e3o puderam ignorar o que estava acontecendo. Essas imagens superaram todas as tentativas do governo israelense e dos seus patrocinadores ocidentais de justificar as suas a\u00e7\u00f5es. Dezenas de milh\u00f5es de pessoas juntaram-se a v\u00e1rias formas de protesto em todo o mundo, de forma mais significativa nos Estados ocidentais que apoiam Israel, confrontando corajosamente os governos que tentaram retratar a sua solidariedade para com os palestinos \u2013 sem sucesso \u2013 como antissemitismo. Este ataque foi uma tentativa c\u00ednica de utilizar a exist\u00eancia real e horr\u00edvel do antissemitismo para difamar os protestos. N\u00e3o funcionou. O apelo a um cessar-fogo em grande escala aumentou, pressionando os governos de todo o mundo a agir.<\/p>\n<p>Em 8 de dezembro de 2023, os Emirados \u00c1rabes Unidos (UAE) apresentaram uma resolu\u00e7\u00e3o \u201cbreve, simples e crucial\u201d para um cessar-fogo (as <a href=\"https:\/\/press.un.org\/en\/2023\/sc15519.doc.htm\">palavras<\/a> s\u00e3o do embaixador dos UAE na ONU, Mohamed Issa Abushahab). O secret\u00e1rio-geral da ONU, Ant\u00f3nio Guterres, invocou o artigo 99\u00ba da Carta, que lhe permite destacar a import\u00e2ncia de um evento por meio da \u201c<a href=\"https:\/\/legal.un.org\/repertory\/art99\/english\/rep_supp9_vol6_art99.pdf\">diplomacia preventiva<\/a>\u201d (o artigo s\u00f3 foi utilizado <a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2023\/12\/7\/israels-war-on-gaza-can-guterress-use-of-uns-article-99-bring-peace\">tr\u00eas vezes<\/a> anteriormente, por ocasi\u00e3o dos conflitos na Rep\u00fablica do Congo, em 1960, no Ir\u00e3, em 1979, e no L\u00edbano, em 1989). Quase uma centena de pa\u00edses membros da ONU apoiaram a resolu\u00e7\u00e3o dos Emirados \u00c1rabes Unidos. \u201cA popula\u00e7\u00e3o de Gaza est\u00e1 sendo obrigada a se mover como uma bola de pingue-pongue humana \u2013 ricocheteando entre trechos cada vez menores do sul, sem nenhum dos elementos b\u00e1sicos para a sobreviv\u00eancia\u201d, <a href=\"https:\/\/press.un.org\/en\/2023\/sgsm22076.doc.htm\">disse<\/a> Guterres ao Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. \u201cNenhum lugar em Gaza \u00e9 seguro\u201d. Treze membros do Conselho de Seguran\u00e7a <a href=\"https:\/\/press.un.org\/en\/2023\/sc15519.doc.htm\">votaram<\/a> a favor, incluindo a Fran\u00e7a, enquanto o Reino Unido se absteve. Apenas o embaixador adjunto dos EUA, Robert Wood, <a href=\"https:\/\/press.un.org\/en\/2023\/sc15519.doc.htm\">levantou<\/a> a m\u00e3o para vetar a resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quatro dias depois, em 12 de dezembro, os eg\u00edpcios apresentaram praticamente a mesma resolu\u00e7\u00e3o na Assembleia Geral da ONU, onde o presidente da Assembleia, Dennis Francis (de Trinidad e Tobago), <a href=\"https:\/\/news.un.org\/en\/story\/2023\/12\/1144717\">disse<\/a>: \u201cTemos uma prioridade singular \u2013 apenas uma: salvar vidas. Acabem j\u00e1 com esta viol\u00eancia\u201d. A vota\u00e7\u00e3o foi <a href=\"https:\/\/twitter.com\/UN_News_Centre\/status\/1734686801699491975\/photo\/1\">esmagadora<\/a>: 153 pa\u00edses votaram a favor da resolu\u00e7\u00e3o, 10 votaram contra e 23 se abstiveram. \u00c9 interessante ver quais os pa\u00edses que votaram contra o cessar-fogo: \u00c1ustria, Rep\u00fablica Checa, Guatemala, Israel, Lib\u00e9ria, Micron\u00e9sia, Nauru, Papua Nova Guin\u00e9, Paraguai e Estados Unidos. Muitos pa\u00edses europeus \u2013 da Bulg\u00e1ria ao Reino Unido \u2013 abstiveram-se. Mas as coisas s\u00e3o complexas. Nem mesmo a Ucr\u00e2nia votou com Israel nesta resolu\u00e7\u00e3o. Se absteve.<\/p>\n<p>O veto dos EUA no Conselho de Seguran\u00e7a e os votos contra na Assembleia Geral s\u00e3o efetivamente votos a favor da Nakba permanente do povo palestino, a \u201cSolu\u00e7\u00e3o Sem Estado\u201d. Pelo menos, \u00e9 assim que ser\u00e3o lidos em todo o mundo, n\u00e3o s\u00f3 em al-Mawasi, \u00e0 medida que as bombas se aproximam, mas tamb\u00e9m nas manifesta\u00e7\u00f5es de Nova Iorque a Jacarta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1948, o historiador s\u00edrio Constantin Zurayk utilizou a palavra \u00e1rabe Nakba (Cat\u00e1strofe) para se referir \u00e0 remo\u00e7\u00e3o for\u00e7ada dos palestinos das suas terras e casas pelo rec\u00e9m-formado Estado israelense (no seu livro de agosto de 1948, Ma\u2019na al-Nakba ou \u201cO significado da Nakba\u201d). 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