{"id":7666,"date":"2022-02-17T22:16:41","date_gmt":"2022-02-18T03:16:41","guid":{"rendered":"https:\/\/gtmportal.wpenginepowered.com\/2022\/02\/17\/western-democracies-have-mutated-into-propagandists-for-war-and-conflict\/"},"modified":"2023-06-18T18:10:24","modified_gmt":"2023-06-18T22:10:24","slug":"as-democracias-ocidentais-se-tornaram-propagandistas-de-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2022\/02\/17\/as-democracias-ocidentais-se-tornaram-propagandistas-de-guerra\/","title":{"rendered":"As democracias ocidentais se tornaram propagandistas de guerra"},"content":{"rendered":"<p>A profecia de Marshall McLuhan de que \u201ca sucessora da pol\u00edtica ser\u00e1 a propaganda\u201d se confirmou. A propaganda crua \u00e9 agora a regra nas democracias ocidentais, especialmente nos EUA e na Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p>Em quest\u00f5es de guerra e paz, fraudes ministeriais s\u00e3o reportadas como se not\u00edcias fossem. Fatos inconvenientes s\u00e3o censurados, dem\u00f4nios s\u00e3o estimulados. \u00c9 o modelo das rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, a moeda desta era. Em 1964, McLuhan fez a famosa declara\u00e7\u00e3o de que \u201co meio \u00e9 a mensagem\u201d. A mentira \u00e9 a mensagem agora.<\/p>\n<p>Mas seria isso novo? J\u00e1 se vai mais de um s\u00e9culo desde que Edward Bernays, o pai da manipula\u00e7\u00e3o corporativa, inventou as \u201crela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas\u201d, um disfarce para a propaganda de guerra. O que \u00e9 novo \u00e9 a virtual elimina\u00e7\u00e3o do dissenso nos meios convencionais.<\/p>\n<p>O grande editor David Bowman, autor de <em>The Captive Press <\/em>(A imprensa cativa, em tradu\u00e7\u00e3o livre), chamou isso de \u201cuma defenestra\u00e7\u00e3o de todos os que se recusam a seguir uma linha e engolir o intrag\u00e1vel e que sejam corajosos\u201d. Ele se referia a jornalistas independentes e denunciantes (<em>whistleblowers)<\/em>, os dissidentes honestos a quem as organiza\u00e7\u00f5es de m\u00eddia costumavam dar espa\u00e7o, muitas vezes com orgulho. Esse espa\u00e7o foi abolido.<\/p>\n<p>A histeria de guerra que avan\u00e7ou como um maremoto nas \u00faltimas semanas e meses \u00e9 o exemplo mais impressionante. No jarg\u00e3o, trata-se de \u201cmoldar a narrativa\u201d; muito disso, se n\u00e3o a maior parte, \u00e9 pura propaganda.<\/p>\n<p>Os russos est\u00e3o chegando. A R\u00fassia \u00e9 pior do que ruim. Putin \u00e9 mau, \u201cum nazista como Hitler\u201d, disse o parlamentar trabalhista brit\u00e2nico Chris Bryant. A Ucr\u00e2nia est\u00e1 prestes a ser invadida pela R\u00fassia \u2013 esta noite, esta semana, semana que vem. As fontes incluem um ex-propagandista da CIA que agora fala pelo Departamento de Estado dos EUA e n\u00e3o oferece evid\u00eancias de suas alega\u00e7\u00f5es sobre as a\u00e7\u00f5es russas porque elas \u201cv\u00eam do governo dos EUA\u201d.<\/p>\n<p>A regra da aus\u00eancia de provas tamb\u00e9m se aplica em Londres. A secret\u00e1ria de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores brit\u00e2nica, Liz Truss, que gastou 500.000 euros em dinheiro p\u00fablico voando para a Austr\u00e1lia em um avi\u00e3o particular para alertar o governo de Camberra que tanto a R\u00fassia quanto a China estavam prestes a atacar, n\u00e3o ofereceu nenhuma evid\u00eancia. As cabe\u00e7as dos ant\u00edpodas assentiram; a \u201cnarrativa\u201d n\u00e3o \u00e9 contestada ali. Uma rara exce\u00e7\u00e3o: o ex-primeiro-ministro Paul Keating chamou o belicismo de Truss de \u201cdemente\u201d.<\/p>\n<p>Truss confundiu alegremente os pa\u00edses do Mar B\u00e1ltico e do Mar Negro. Em Moscou, ela disse ao ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores russo que a Gr\u00e3-Bretanha nunca aceitaria a soberania russa sobre Rostov e Voronezh \u2013 at\u00e9 que lhe foi dito que esses lugares n\u00e3o faziam parte da Ucr\u00e2nia, mas sim da R\u00fassia. Ler a imprensa russa sobre a palha\u00e7ada desta pretendente a primeira-ministra inglesa nos leva a se encolher de vergonha.<\/p>\n<p>Toda essa farsa, recentemente estrelada por Boris Johnson em Moscou, onde interpretou uma vers\u00e3o palhacesca de seu her\u00f3i, Churchill, poderia ser apreciada como s\u00e1tira, n\u00e3o fosse por seu abuso intencional dos fatos e da compreens\u00e3o hist\u00f3rica, al\u00e9m do perigo real da guerra.<\/p>\n<p>Vladimir Putin fala do \u201cgenoc\u00eddio\u201d no leste da Ucr\u00e2nia, na regi\u00e3o do Donbass. Ap\u00f3s o golpe de 2014 na Ucr\u00e2nia \u2013 orquestrado pela \u201clinha de frente\u201d do presidente Obama em Kiev, Victoria Nuland \u2013 o regime golpista, infestado de neonazistas, lan\u00e7ou uma campanha de terror contra o Donbass, onde predominante se fala russo e cujos residentes correspondem a um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Supervisionados pelo diretor da CIA em Kiev, John Brennan, \u201cunidades especiais de seguran\u00e7a\u201d coordenaram ataques selvagens contra o povo de Donbass, que se opunha ao golpe. V\u00eddeos e relatos de testemunhas oculares mostram bandidos fascistas em \u00f4nibus queimando a sede da Casa dos Sindicatos na cidade de Odessa, matando 41 pessoas dentro. A pol\u00edcia s\u00f3 assistiu. Obama parabenizou o regime golpista \u201cdevidamente eleito\u201d por sua \u201cnot\u00e1vel conten\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Na m\u00eddia dos EUA, a atrocidade de Odessa foi minimizada como \u201cobscura\u201d e uma \u201ctrag\u00e9dia\u201d na qual \u201cnacionalistas\u201d (neo-nazistas) atacaram \u201cseparatistas\u201d (pessoas coletando assinaturas para um referendo sobre uma Ucr\u00e2nia federal). O <em>Wall Street Journal<\/em> de Rupert Murdoch condenou as v\u00edtimas \u2013 \u201c<a href=\"https:\/\/www.wsj.com\/articles\/SB10001424052702304831304579545093207787978\">Inc\u00eandio mortal na Ucr\u00e2nia provavelmente desencadeado por rebeldes, diz o governo<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>O professor Stephen Cohen, aclamado como a maior autoridade sobre R\u00fassia nos EUA, <a href=\"https:\/\/www.thenation.com\/article\/archive\/americas-collusion-with-neo-nazis\/\">escreveu<\/a>:<\/p>\n<p>\u201cA queima, ao estilo dos <em>pogroms,<\/em> de russos \u00e9tnicos e outras pessoas em Odessa [\u2026] reavivou as mem\u00f3rias sobre esquadr\u00f5es de exterm\u00ednio nazistas na Ucr\u00e2nia durante a Segunda Guerra. [\u2026] [Hoje] ataques de tropas de assalto contra gays, judeus, russos \u00e9tnicos idosos e outros cidad\u00e3os \u2018impuros\u2019 s\u00e3o comuns em toda a Ucr\u00e2nia governada por Kiev, bem como marchas \u00e0 luz de tochas que lembram aquelas que eventualmente inflamaram a Alemanha no final dos anos 1920 e 1930. [\u2026]\u201d<\/p>\n<p>\u201cA pol\u00edcia e as autoridades legais n\u00e3o fazem virtualmente nada para prevenir esses atos neofascistas ou para puni-los. Pelo contr\u00e1rio, Kiev oficialmente os encorajou, ao reabilitar sistematicamente e at\u00e9 homenagear colaboradores ucranianos dos <em>pogroms<\/em> nazistas alem\u00e3es [\u2026], renomeando ruas em sua honra, construindo monumentos a eles, reescrevendo a hist\u00f3ria para glorific\u00e1-los e mais. [\u2026]\u201d<\/p>\n<p>Hoje, a Ucr\u00e2nia neonazista raramente \u00e9 mencionada. Que os brit\u00e2nicos estejam treinando a Guarda Nacional Ucraniana, que inclui neonazistas, n\u00e3o \u00e9 novidade. (<a href=\"https:\/\/declassifieduk.org\/uk-commanders-in-ukraine-met-neo-nazi-linked-national-guard-to-deepen-military-cooperation\/\">Veja o relat\u00f3rio <\/a><a href=\"https:\/\/declassifieduk.org\/uk-commanders-in-ukraine-met-neo-nazi-linked-national-guard-to-deepen-military-cooperation\/\"><em>Declassified<\/em><\/a><a href=\"https:\/\/declassifieduk.org\/uk-commanders-in-ukraine-met-neo-nazi-linked-national-guard-to-deepen-military-cooperation\/\"> de Matt Kennard<\/a> no <a href=\"https:\/\/consortiumnews.com\/2022\/02\/15\/uk-denies-it-agreed-to-train-neo-nazi-linked-ukraine-unit\/\"><em>Consortium News<\/em><\/a> em 15 de fevereiro.) O retorno do fascismo violento e endossado \u00e0 Europa do s\u00e9culo 21, para citar Harold Pinter, \u201cnunca aconteceu\u2026 mesmo enquanto estava acontecendo\u201d.<\/p>\n<p>Em 16 de dezembro, as Na\u00e7\u00f5es Unidas apresentaram uma resolu\u00e7\u00e3o que propunha \u201ccombater a glorifica\u00e7\u00e3o do nazismo, neonazismo e outras pr\u00e1ticas que contribuem para alimentar formas contempor\u00e2neas de racismo\u201d. As \u00fanicas na\u00e7\u00f5es que votaram contra foram os Estados Unidos e a Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Quase todos os russos sabem que foi atrav\u00e9s das plan\u00edcies da \u201cfronteira\u201d da Ucr\u00e2nia que as divis\u00f5es de Hitler vieram em 1941, refor\u00e7adas pelos cultistas e colaboradores nazistas ucranianos. O resultado foi mais de 20 milh\u00f5es de russos mortos.<\/p>\n<p>Deixando de lado as manobras e o cinismo da geopol\u00edtica, sejam quais forem os atores, essa mem\u00f3ria hist\u00f3rica \u00e9 a for\u00e7a motriz por tr\u00e1s das propostas de seguran\u00e7a autoprotetivas da R\u00fassia, que foram publicadas em Moscou na semana em que a ONU votou por 130 a 2 para proibir o nazismo. Elas s\u00e3o:<\/p>\n<ul>\n<li>A garantia por parte da OTAN (Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte) de que m\u00edsseis n\u00e3o ser\u00e3o instalados em na\u00e7\u00f5es vizinhas \u00e0 R\u00fassia. (Eles j\u00e1 se fazem presentes da Eslov\u00eania at\u00e9 a Rom\u00eania, com a Pol\u00f4nia a seguir).<\/li>\n<li>Que a OTAN pare seus exerc\u00edcios militares e navais em na\u00e7\u00f5es e oceanos nas fronteiras da R\u00fassia.<\/li>\n<li>Que a Ucr\u00e2nia n\u00e3o se torne um estado-membro da OTAN.<\/li>\n<li>Que o Ocidente e a R\u00fassia assinem um pacto vinculativo de seguran\u00e7a Leste-Oeste.<\/li>\n<li>Que o tratado entre os EUA e a R\u00fassia sobre armas nucleares de alcance intermedi\u00e1rio seja reabilitado. (Os EUA abandonaram o tratado em 2019).<\/li>\n<\/ul>\n<p>Trata-se de um esbo\u00e7o abrangente de um plano de paz para toda a Europa do p\u00f3s-guerra e deveria ser bem recebido no Ocidente. Mas quem entende seu significado na Inglaterra? O que lhes \u00e9 dito \u00e9 que Putin \u00e9 um p\u00e1ria e uma amea\u00e7a \u00e0 cristandade.<\/p>\n<p>Os ucranianos falantes de russo, sob bloqueio econ\u00f4mico de Kiev h\u00e1 sete anos, lutam por sua sobreviv\u00eancia. O ex\u00e9rcito \u201cmassivo\u201d do qual raramente ouvimos falar s\u00e3o as 13 brigadas do ex\u00e9rcito ucraniano sitiando Donbass: cerca de 150.000 soldados. Se eles atacarem, a provoca\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia quase certamente significar\u00e1 guerra.<\/p>\n<p>Em 2015, mediados pelos alem\u00e3es e franceses, os presidentes da R\u00fassia, Ucr\u00e2nia, Alemanha e Fran\u00e7a se reuniram em Minsk e assinaram um acordo de paz provis\u00f3rio. A Ucr\u00e2nia concordou em oferecer autonomia ao Donbass, agora sob as autodeclaradas rep\u00fablicas de Donetsk e Lugansk.<\/p>\n<p>O acordo de Minsk nunca teve uma chance. Na Inglaterra, a linha, ampliada por Boris Johnson, \u00e9 que a Ucr\u00e2nia est\u00e1 sendo \u201cditada\u201d por l\u00edderes mundiais. De sua parte, a Gr\u00e3-Bretanha est\u00e1 armando a Ucr\u00e2nia e treinando seu ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Desde a primeira Guerra Fria, a OTAN efetivamente marchou at\u00e9 a fronteira mais sens\u00edvel da R\u00fassia, tendo antes demonstrado sua agressividade sangrenta na Iugosl\u00e1via, Afeganist\u00e3o, Iraque e L\u00edbia e quebrado promessas solenes de recuar. Tendo arrastado \u201caliados\u201d europeus para guerras americanas que n\u00e3o lhes dizem respeito, o grande n\u00e3o-dito \u00e9 que a OTAN \u00e9 a verdadeira amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a europeia.<\/p>\n<p>Na Gr\u00e3-Bretanha, uma xenofobia estatal e midi\u00e1tica \u00e9 desencadeada com a simples men\u00e7\u00e3o da \u201cR\u00fassia\u201d. Perceba a hostilidade instintiva com que a <em>BBC<\/em> relata a R\u00fassia. Por qu\u00ea? Ser\u00e1 porque a restaura\u00e7\u00e3o da mitologia imperial exige, acima de tudo, um inimigo permanente? Certamente, n\u00f3s merecemos algo melhor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A profecia de Marshall McLuhan de que \u201ca sucessora da pol\u00edtica ser\u00e1 a propaganda\u201d se confirmou. A propaganda crua \u00e9 agora a regra nas democracias ocidentais, especialmente nos EUA e na Gr\u00e3-Bretanha. Em quest\u00f5es de guerra e paz, fraudes ministeriais s\u00e3o reportadas como se not\u00edcias fossem. 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