{"id":7648,"date":"2022-03-08T20:32:47","date_gmt":"2022-03-09T01:32:47","guid":{"rendered":"https:\/\/gtmportal.wpenginepowered.com\/2022\/03\/08\/understanding-the-war-in-ukraine\/"},"modified":"2023-06-18T17:56:26","modified_gmt":"2023-06-18T21:56:26","slug":"entendendo-a-guerra-na-ucrania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2022\/03\/08\/entendendo-a-guerra-na-ucrania\/","title":{"rendered":"Entendendo a guerra na Ucr\u00e2nia"},"content":{"rendered":"<p>A guerra entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia come\u00e7ou muito antes do dia 24 de fevereiro de 2022, data prevista pelo governo ucraniano, a OTAN e os Estados Unidos para o come\u00e7o da invas\u00e3o russa sobre o pa\u00eds. Segundo Dmitry Kovalevich, jornalista e membro de uma organiza\u00e7\u00e3o comunista agora proibida na Ucr\u00e2nia, a guerra na verdade come\u00e7ou na primavera de 2014 e n\u00e3o cessou desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde o sul de Kyiv\/Kiev, na Ucr\u00e2nia, Dmitry me escreve e conta uma anedota: \u201cO que h\u00e1 no <em>front<\/em>?\u201d, pergunta uma pessoa. \u201cNossas tropas est\u00e3o ganhando, como sempre!\u201d, respondem. \u201cQuem s\u00e3o nossas tropas?\u201d, pergunta a primeira pessoa, que \u00e9 respondida: \u201cEm breve veremos\u2026\u201d. Em uma guerra tudo se disputa, inclusive o nome da capital (Kyiv em ucraniano e Kiev em russo, <a href=\"https:\/\/asiatimes.com\/2022\/03\/war-of-words-kiev-vs-kyiv\/\">segundo o debate<\/a> na internet).<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.counterpunch.org\/2013\/10\/07\/where-war-reporting-goes-wrong\/\">cobertura<\/a> da guerra \u00e9 uma das fun\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis para um jornalista. Nestes dias, especialmente, com a torrente das redes sociais e a beliger\u00e2ncia dos canais televisivos de not\u00edcia, as quest\u00f5es no terreno s\u00e3o dif\u00edceis de aclarar. Os fatos b\u00e1sicos sobre os acontecimentos durante uma guerra s\u00e3o dif\u00edceis de estabelecer, isso para n\u00e3o falar de assegurar uma correta interpreta\u00e7\u00e3o de tais fatos. Os v\u00eddeos de aparentes atrocidades de guerra que podem ser encontrados em plataformas de redes sociais como o YouTube s\u00e3o imposs\u00edveis de verificar. Muitas vezes fica claro que muito do conte\u00fado relacionado \u00e0 guerra que pode ser encontrado nessas plataformas foi identificado erroneamente ou vem de outros conflitos. Inclusive a <em>BBC<\/em>, que adotou uma posi\u00e7\u00e3o muito fortemente favor\u00e1vel \u00e0 Ucr\u00e2nia e \u00e0 OTAN neste conflito, teve que <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/news\/60554910\">publicar um artigo<\/a> sobre a falsidade de muitas das afirma\u00e7\u00f5es virais sobre as atrocidades russas. Entre estas afirma\u00e7\u00f5es falsas, que tiveram ampla difus\u00e3o, est\u00e1 um v\u00eddeo que circula no TikTok e que diz mostrar, erroneamente, uma \u201cmenina ucraniana enfrentando um soldado russo\u201d, mas que na realidade se trata de um v\u00eddeo da pequena palestina <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/news\/world-middle-east-42612666\">Ahed Tamimi<\/a> \u2013 naquele momento com 11 anos (2012 \u2013 enfrentando um soldado israelense. O v\u00eddeo segue circulando no <a href=\"https:\/\/www.tiktok.com\/@mattthorne39\/video\/7069740585371962630?lang=en\">TikTok<\/a> com o t\u00edtulo \u201cPequenas enfrentam soldados russos\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto isso, disputando o 24 de fevereiro como a data do in\u00edcio da guerra russo-ucraniana, Kovalevich me diz: \u201cA guerra na Ucr\u00e2nia n\u00e3o come\u00e7ou em fevereiro de 2022. Come\u00e7ou na primavera de 2014 no Donbass e n\u00e3o parou durante oito anos\u201d. Kovalevich \u00e9 membro do Borotba (Luta), uma organiza\u00e7\u00e3o comunista da Ucr\u00e2nia. O Borotba, junto de outras organiza\u00e7\u00f5es comunistas e marxistas, <a href=\"https:\/\/pda.pravda.com.ua\/news\/id_7083272\/\">foi proibido em 2015<\/a> pelo governo anterior \u2013 apoiado pelos Estados Unidos \u2013 de Petro Poroshenko (como parte deste processo repressivo, os servi\u00e7os de seguran\u00e7a ucranianos <a href=\"https:\/\/peoplesdispatch.org\/2022\/03\/07\/ukrainian-security-services-arrest-young-communist-leaders\/\">prenderam<\/a>, neste 6 de mar\u00e7o, dois l\u00edderes juvenis comunistas: Aleksandr Kononovich e Mikhail Kononovich).<\/p>\n<p>\u201cA maior parte dos nossos companheiros tiveram de emigrar para Donetsk e Lugansk\u201d, me diz Kovalevich. Se tratam das duas prov\u00edncias orientais de maioria russofalante que se <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/europe\/what-will-russian-recognition-breakaway-ukraine-regions-mean-2022-02-21\/\">separaram<\/a> do \u201ccontrole do governo ucraniano em 2014\u201d e que estiveram sob o controle de grupos apoiados pela R\u00fassia. No entanto, em fevereiro, antes da invas\u00e3o russa \u00e0 Ucr\u00e2nia, o presidente Vladimir Putin <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/europe\/what-will-russian-recognition-breakaway-ukraine-regions-mean-2022-02-21\/\">reconheceu<\/a> a estas \u201cduas regi\u00f5es divididas do leste da Ucr\u00e2nia como independentes\u201d, fazendo deste pol\u00eamico movimento o trampolim para a invas\u00e3o militar final da R\u00fassia. Agora, diz Kovalevich, seus companheiros \u201cesperam voltar do ex\u00edlio e trabalhar legalmente\u201d. Essa expectativa se baseia na suposi\u00e7\u00e3o de que o governo ucraniano se ver\u00e1 obrigado a abrir m\u00e3o do sistema existente, que inclui agentes de vigil\u00e2ncia e paramilitares de direita antirrusa, treinados e financiados pelo Ocidente no pa\u00eds, e ter\u00e1 que reverter muitas das leis antiliberais e antiminorit\u00e1rias (inclusive as antirussas) da era Poroshenko.<\/p>\n<p><strong>\u201cSinto-me nervoso\u201d<\/strong><\/p>\n<p>\u201cSinto-me bastante nervoso\u201d, me diz Kovalevich. \u201c[Esta guerra] parece muito sombria, e n\u00e3o tanto pelos russos, mas por nossos bandos armados [ucranianos] que est\u00e3o saqueando e roubando\u201d. Quando os russos interviram, o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/europe\/ukraines-zelenskiy-calls-citizens-fight-promises-weapons-2022-02-24\/\">distribuiu armas<\/a> a qualquer cidad\u00e3o ou cidad\u00e3 que quisesse defender o pa\u00eds. Kovalevich, que vive no centro da Ucr\u00e2nia, justamente ao sul da capital, diz: \u201cMinha regi\u00e3o n\u00e3o foi afetada pelas a\u00e7\u00f5es militares, somente pelo terror dos bandos nacionalistas [de direita]\u201d.<\/p>\n<p>Durante os primeiros dias da interven\u00e7\u00e3o militar russa, Kovalevich ajudou uma fam\u00edlia cigana que havia fugido da zona de guerra. \u201cMinha fam\u00edlia tinha um apartamento livre\u201d, me diz. As organiza\u00e7\u00f5es romani <a href=\"https:\/\/minelres.lv\/reports\/ukraine\/PDF_Roma_of_Ukraine_eng.pdf\">afirmam<\/a> que h\u00e1 cerca de 400 mil romanis na Ucr\u00e2nia, a maior parte dos quais vivem na parte ocidental do pa\u00eds, no <em>oblast<\/em> de Zakarpatska (fronteira com Hungria, Pol\u00f4nia, Rom\u00eania e Eslov\u00e1quia). \u201cOs romani de nosso pa\u00eds s\u00e3o agredidos regularmente pelos nacionalistas\u201d, afirma Kovalevich. \u201cOs nacionalistas costumavam atac\u00e1-los publicamente, queimando seus acampamentos, chamando-os de \u2018lixo\u2019. A pol\u00edcia n\u00e3o reagia, j\u00e1 que nossos bandos de extrema-direita sempre trabalham em coopera\u00e7\u00e3o com a pol\u00edcia ou os servi\u00e7os de seguran\u00e7a\u201d. Esta fam\u00edlia romani, que estava sendo acolhida por Kovalevich e sua fam\u00edlia, se dirigia ao oeste da Ucr\u00e2nia, onde vive a maior parte da popula\u00e7\u00e3o romani da Ucr\u00e2nia. \u201cMas \u00e9 muito inseguro se mover\u201d, diz Kovalevich. \u201cH\u00e1 nacionalistas [que vigiam] os pontos de controle [ao longo de] todas as estradas, e podem disparar [contra qualquer um] que lhes pare\u00e7a suspeito ou simplesmente roubar os refugiados\u201d.<\/p>\n<p><strong>Acordos de Minsk<\/strong><\/p>\n<p>A guerra na regi\u00e3o do Donbass \u2013 que come\u00e7ou em 2014 \u2013 deu lugar \u00e0 assinatura dos acordos em Bielorr\u00fassia (2014 e 2015) <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/europe\/what-are-minsk-agreements-ukraine-conflict-2022-02-21\/\">conhecidos como Acordos de Minsk<\/a> em homenagem \u00e0 capital deste pa\u00eds. Estes acordos tinham como objetivo \u201c[p\u00f4r] fim \u00e0 guerra separatistas dos russos no leste da Ucr\u00e2nia\u201d. O <a href=\"https:\/\/peacemaker.un.org\/sites\/peacemaker.un.org\/files\/UA_150212_MinskAgreement_en.pdf\">segundo destes acordos<\/a> foi assinado por duas personalidades por duas personalidades pol\u00edticas da Ucr\u00e2nia (Leonid Kuchma, presidente da Ucr\u00e2nia entre 1994 a 2005) e da R\u00fassia (Mikhail Zubarov, embaixador da federa\u00e7\u00e3o russa na Ucr\u00e2nia, 2009-2016), respectivamente, e foi supervisionado por uma diplomata su\u00ed\u00e7a (Heidi Tagliavini, que presidiu a <a href=\"https:\/\/www.echr.coe.int\/Documents\/HUDOC_38263_08_Annexes_ENG.pdf\">Miss\u00e3o Internacional Independente de Investiga\u00e7\u00e3o do Conflito na Ge\u00f3rgia<\/a>, 2008-2009). Esse segundo acordo, o Minsk II, foi <a href=\"https:\/\/www.un.org\/press\/en\/2015\/sc11785.doc.htm\">referendado<\/a> pela resolu\u00e7\u00e3o 2022 do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU no dia 17 de fevereiro de 2015. Se os acordos de Minsk tivessem sido cumpridos, R\u00fassia e Ucr\u00e2nia teriam conseguido uma resolu\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel no Donbass.<\/p>\n<p>\u201cDois governos ucranianos assinaram os acordos de Minsk\u201d, me diz Kovalevich, \u201cmas n\u00e3o os cumpriram. Recentemente os funcion\u00e1rios de Zelenskyy zombaram abertamente do acordo, dizendo que n\u00e3o o cumpririam (alentados pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, \u00e9 claro). Essa foi uma viola\u00e7\u00e3o absoluta de todas as normas: n\u00e3o podem assinar e depois negar-se a cumprir\u201d. A linguagem dos acordos de Minsk era, como diz Kovalevich, \u201csuficientemente liberal para o governo\u201d. As rep\u00fablicas de Donetsk e Lugansk seguiriam sendo parte da Ucr\u00e2nia e lhes seria dada certa autonomia cultural (isso estava na nota de rodap\u00e9 realizada no dia 12 de fevereiro de 2015 <a href=\"https:\/\/peacemaker.un.org\/sites\/peacemaker.un.org\/files\/UA_150212_MinskAgreement_en.pdf\">para o artigo 11 do Acordo de Minsk II<\/a>). \u201cIsto era inaceit\u00e1vel para nossos nacionalistas\u201d, diz Kovalevich. Eles \u201cqueriam organizar expurgos e vingan\u00e7as l\u00e1\u201d. Antes da interven\u00e7\u00e3o militar russa, o Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Direitos Humanos <a href=\"https:\/\/news.un.org\/en\/story\/2022\/02\/1112202\">constatou<\/a> que mais de 14 mil pessoas haviam sido mortas no conflito em Donetsk e Lugansk, apesar dos acordos de Minsk. \u00c9 essa viol\u00eancia a que provoca Kovalevich a fazer seus coment\u00e1rios sobre a viol\u00eancia dos ultranacionalistas e os paramilitares de direita. \u201cAs autoridades eleitas s\u00e3o uma capa que mascara os verdadeiros governantes da Ucr\u00e2nia\u201d, afirma ele. O presidente ucraniano Zelenskyy e seus aliados no parlamento n\u00e3o dirigem o governo do pa\u00eds, mas t\u00eam \u201cuma agenda imposta pelos grupos armados de extrema-direita\u201d.<\/p>\n<p><strong>Paz?<\/strong><\/p>\n<p>Na fronteira entre a Ucr\u00e2nia e a Bielorr\u00fassia, <a href=\"https:\/\/www.rferl.org\/a\/russia-ukraine-talks-belarus\/31727584.html\">est\u00e3o ocorrendo negocia\u00e7\u00f5es entre russos e ucranianos<\/a>. No entanto, Kovalevich n\u00e3o est\u00e1 otimista quanto ao resultado positivo dessas negocia\u00e7\u00f5es. As decis\u00f5es, diz ele, n\u00e3o s\u00e3o tomadas apenas pelo presidente ucraniano, mas por grupos armados ultranacionalistas de direita e pa\u00edses da OTAN. Enquanto Kovalevich e eu convers\u00e1vamos, o <em>Washington Post<\/em> publicava <a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/national-security\/2022\/03\/05\/russia-ukraine-insurgency\/\">uma reportagem<\/a> sobre \u201cPlanos para uma insurg\u00eancia apoiada pelos EUA na Ucr\u00e2nia\u201d; A ex-secret\u00e1ria de Estado dos EUA, Hillary Clinton, <a href=\"https:\/\/www.msnbc.com\/transcripts\/rachel-maddow-show\/transcript-rachel-maddow-show-2-28-22-n1290370\">insinuou uma guerra de guerrilha ao estilo do Afeganist\u00e3o na Ucr\u00e2nia<\/a>, dizendo: \u201cTemos que continuar apertando os parafusos\u201d. \u201cIsso revela que [os EUA] realmente n\u00e3o se importam com os ucranianos\u201d, diz Kovalevich. \u201cEles querem usar isso como uma oportunidade para causar alguma dor aos russos\u201d.<\/p>\n<p>Esses coment\u00e1rios de Clinton e outros sugerem a Kovalevich que os Estados Unidos querem \u201corganizar o caos entre a R\u00fassia e os europeus\u201d. A paz na Ucr\u00e2nia, diz ele, \u201c\u00e9 uma quest\u00e3o de reconcilia\u00e7\u00e3o entre a OTAN e as novas pot\u00eancias mundiais, R\u00fassia e China\u201d. At\u00e9 que essa reconcilia\u00e7\u00e3o seja poss\u00edvel, e at\u00e9 que a Europa desenvolva uma pol\u00edtica externa racional, \u201cseremos afetados por guerras\u201d, diz Kovalevich.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A guerra entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia come\u00e7ou muito antes do dia 24 de fevereiro de 2022, data prevista pelo governo ucraniano, a OTAN e os Estados Unidos para o come\u00e7o da invas\u00e3o russa sobre o pa\u00eds. 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