{"id":7565,"date":"2022-05-09T17:32:45","date_gmt":"2022-05-09T21:32:45","guid":{"rendered":"https:\/\/gtmportal.wpenginepowered.com\/2022\/05\/09\/why-latin-america-needs-a-new-world-order\/"},"modified":"2023-06-11T19:12:42","modified_gmt":"2023-06-11T23:12:42","slug":"a-america-latina-entre-o-nao-alinhamento-e-a-multipolaridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2022\/05\/09\/a-america-latina-entre-o-nao-alinhamento-e-a-multipolaridade\/","title":{"rendered":"A Am\u00e9rica Latina entre o n\u00e3o alinhamento e a multipolaridade"},"content":{"rendered":"<p>O mundo urge pelo fim da guerra na Ucr\u00e2nia. No entanto, a OTAN parece apostar no prolongamento do conflito, aumentando o envio de armas \u00e0 Ucr\u00e2nia e declarando que seu objetivo \u00e9 \u201c<a href=\"https:\/\/www.wsj.com\/articles\/u-s-to-return-embassy-to-ukraine-boost-military-aid-blinken-and-austin-tell-zelensky-in-visit-to-kyiv-11650859391\">enfraquecer a R\u00fassia<\/a>\u201d. Em menos de dois meses, somente os EUA j\u00e1 aprovaram 13,6 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em or\u00e7amentos de emerg\u00eancia, a maior parte em armas. Biden acabou de solicitar mais 33 bilh\u00f5es ao Congresso. Para efeito de compara\u00e7\u00e3o, seriam necess\u00e1rios 45 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano <a href=\"https:\/\/ceres2030.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ceres2030-what-would-it-cost_.pdf\">para acabar com a fome no mundo<\/a> at\u00e9 2030.<\/p>\n<p>Mesmo que as negocia\u00e7\u00f5es avancem e a guerra acabe, uma solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica talvez n\u00e3o seja poss\u00edvel. Nada leva a crer que as tens\u00f5es geopol\u00edticas diminuam de fato e que cessem as tentativas do Norte Global de frear o desenvolvimento da China, de quebrar seus la\u00e7os com a R\u00fassia e de conter as parcerias estrat\u00e9gicas chinesas com o Sul Global.<\/p>\n<p>Por exemplo, em depoimentos dados em mar\u00e7o deste ano ao Senado estadunidense, os comandantes do <a href=\"https:\/\/www.washingtonexaminer.com\/policy\/defense-national-security\/southcom-commander-warns-about-russian-and-chinese-influence-in-latin-america\">Comando do Sul<\/a> (General Laura Richardson) e do <a href=\"https:\/\/www.news24.com\/news24\/africa\/news\/us-army-general-concerned-about-china-and-russias-growing-influence-in-africa-20220323\">Comando da \u00c1frica<\/a> (General Stephen J. Townsend) alertaram para os \u201cperigos\u201d do aumento da influ\u00eancia da R\u00fassia e da China na \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina e Caribe. Reafirmando a nova doutrina de seguran\u00e7a nacional lan\u00e7ada em 2018 pelo governo Trump \u2013 que elegeu R\u00fassia e China como os \u201c<a href=\"https:\/\/www.cnn.com\/2018\/01\/19\/politics\/trump-defense-strategy-china-russia\/index.html\">desafios centrais<\/a>\u201d aos EUA \u2013 os generais recomendam a\u00e7\u00f5es para enfraquecer a influ\u00eancia de Moscou e Pequim. Com suas a\u00e7\u00f5es e ret\u00f3rica cada vez mais agressivas, os EUA e seus aliados parecem dispostos a levar o mundo a uma nova guerra fria.<\/p>\n<p><strong>Basta de Guerra Fria<\/strong><\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Latina n\u00e3o quer uma nova guerra fria. Nossa regi\u00e3o j\u00e1 sofreu uma experi\u00eancia traum\u00e1tica com a polariza\u00e7\u00e3o do mundo p\u00f3s II Guerra. A propaganda da \u201camea\u00e7a comunista\u201d serviu de pretexto para a derrubada de in\u00fameros governos democraticamente eleitos. Buscavam alternativas, nos marcos do capitalismo, para superar o subdesenvolvimento e a hist\u00f3rica desigualdade social. Mesmo assim, sofreram golpes operados pelas elites locais com <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/news\/2020\/sep\/03\/operation-condor-the-illegal-state-network-that-terrorised-south-america\">apoio da Casa Branca<\/a>. Dezenas de milhares de pessoas foram torturadas, assassinadas e exiladas, in\u00fameros pa\u00edses da regi\u00e3o viveram muitos anos sob ditaduras militares e as condi\u00e7\u00f5es de vida do povo pioraram.<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Latina quer paz. Mas somente a unidade regional ser\u00e1 capaz de nos defender das press\u00f5es internacionais que devem crescer. Esse processo j\u00e1 foi iniciado h\u00e1 mais de 20 anos, ap\u00f3s uma s\u00e9rie de revoltas populares em in\u00fameros pa\u00edses e do sucesso eleitoral de governos progressistas na regi\u00e3o, como rea\u00e7\u00e3o ao esgotamento do tsunami de pol\u00edticas neoliberais de austeridade. Venezuela (1999), Brasil (2002), Argentina (2003), Uruguai (2005), Bol\u00edvia (2005), Nicar\u00e1gua (2006), Equador (2007) e Paraguai (2008), se juntaram a Cuba e impulsionaram pela primeira vez uma tentativa de integra\u00e7\u00e3o regional atrav\u00e9s de organismos como a Alian\u00e7a Bolivariana para as Am\u00e9ricas (ALBA), em 2004, a Uni\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Sul-americanas (UNASUL), em 2008, e a Comunidade de Estados da Am\u00e9rica Latina e Caribe (CELAC) em 2011. Estas plataformas visavam aumentar o com\u00e9rcio regional e a integra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Seus avan\u00e7os foram respondidos por crescentes agress\u00f5es de Washington, que buscou <a href=\"https:\/\/therealnews.com\/the-role-the-us-played-in-reversing-latin-americas-pink-tide\">enfraquecer o processo<\/a>, ao tentar derrubar governos dos pa\u00edses-membros e dividir os blocos conforme os interesses da Casa Branca.<\/p>\n<p><strong>O trope\u00e7o do Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Por seu tamanho e relev\u00e2ncia, o Brasil foi um dos protagonistas destas articula\u00e7\u00f5es. Em 2009, voou ainda mais alto ao compor os BRICS, junto a R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul, uma nova alian\u00e7a com potencial para rearranjar as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7as do com\u00e9rcio e da pol\u00edtica globais.<\/p>\n<p>Mas o protagonismo brasileiro n\u00e3o agradou a Casa Branca, que sofisticou seus m\u00e9todos de interven\u00e7\u00e3o. Em vez de um golpe militar, o Brasil foi palco de uma bem-sucedida opera\u00e7\u00e3o de \u201cguerra h\u00edbrida\u201d, combinando o uso do judici\u00e1rio, do legislativo e da m\u00eddia (tradicional e redes sociais). Baseados em investiga\u00e7\u00f5es sobre corrup\u00e7\u00e3o na Petrobr\u00e1s (estatal petroleira), criaram as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para o <em>impeachment<\/em> da presidenta Dilma em 2016 e a pris\u00e3o do ex-presidente Lula em 2018, quando liderava as pesquisas da elei\u00e7\u00e3o presidencial.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as ao <a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2019\/06\/09\/brazil-archive-operation-car-wash\/\">vazamento<\/a> da conta de <a href=\"https:\/\/thewire.in\/world\/lula-de-silva-brazil-cia\">Telegram<\/a> de <a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2021-fev-08\/deltan-disse-prisao-lula-presente-cia\">um dos promotores<\/a>, temos provas sobre a ilegalidade do processo e sobre o papel do Departmento de Justi\u00e7a dos EUA e do <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/ultimas-noticias\/agencia-publica\/2020\/07\/01\/o-fbi-e-a-lava-jato.htm\">FBI<\/a> na opera\u00e7\u00e3o que acusou injustamente os ex-presidentes. Algum tempo depois, a Suprema Corte anulou todos os processos. Mas o afastamento de Lula e Dilma j\u00e1 havia semeado o solo para a ascens\u00e3o da extrema direita. Com a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro (2018), o Brasil abandonou a <a href=\"https:\/\/www.radiohc.cu\/en\/noticias\/internacionales\/188489-brazil-quits-unasur-after-receiving-pro-tempore-presidency\">UNASUL<\/a> e a <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/article\/us-brazil-diplomacy-celac-idUSKBN1ZF2U9\">CELAC<\/a>, e se mant\u00e9m no BRICS apenas formalmente \u2013 como \u00e9 tamb\u00e9m o caso da \u00cdndia \u2013, enfraquecendo a perspectiva de alian\u00e7as estrat\u00e9gicas do Sul Global contra a hegemonia estadunidense.<\/p>\n<p><strong>A mar\u00e9 est\u00e1 virando<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, o continente latino-americano vive uma nova onda de governos progressistas e a ideia de integra\u00e7\u00e3o regional volta a ter for\u00e7a. Ap\u00f3s quatro anos sem uma reuni\u00e3o de c\u00fapula, a <a href=\"https:\/\/elpais.com\/mexico\/2021-09-18\/lopez-obrador-pide-la-integracion-comercial-y-el-fin-de-los-bloqueos-en-america-latina.html#?rel=mas\">CELAC voltou a se reunir<\/a> em setembro de 2021, gra\u00e7as \u00e0 lideran\u00e7a do presidente mexicano, L\u00f3pez Obrador, e do argentino, Alberto Fern\u00e1ndez. Caso <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/americas\/colombian-leftist-petro-leads-presidential-election-poll-2022-04-29\/\">Gustavo Petro<\/a> ven\u00e7a a elei\u00e7\u00e3o presidencial colombiana em maio, e <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2022\/apr\/30\/is-brazil-ready-for-the-next-incarnation-of-president-lula\">Lula ven\u00e7a<\/a> a brasileira em outubro, pela primeira vez em d\u00e9cadas, teremos as <a href=\"https:\/\/es.statista.com\/grafico\/26372\/paises-latinoamericanos-con-el-mayor-pib-a-traves-del-tiempo\/\">quatro maiores economias<\/a> da regi\u00e3o (<a href=\"https:\/\/www.statista.com\/statistics\/802640\/gross-domestic-product-gdp-latin-america-caribbean-country\/\">Brasil, M\u00e9xico, Argentina e <\/a><a href=\"https:\/\/www.statista.com\/statistics\/802640\/gross-domestic-product-gdp-latin-america-caribbean-country\/\">Col\u00f4mbia<\/a>) governadas pela centro-esquerda, notadamente apoiadores da integra\u00e7\u00e3o latino-americana e caribenha. Em in\u00fameras entrevistas, Lula j\u00e1 defendeu o <a href=\"https:\/\/lula.com.br\/integra-do-discurso-de-lula-na-camara-dos-deputados-do-mexico\/\">retorno do Brasil \u00e0 CELAC<\/a> e a retomada de uma postura ativa nos <a href=\"https:\/\/www.brasil247.com\/blog\/vitoria-de-lula-na-onu-incomoda-washington-porque-fortalece-geopolitica-dos-brics-x-eua-otan\">BRICS<\/a>.<\/p>\n<p>O Sul Global pode estar criando as condi\u00e7\u00f5es para a retomada de um novo lugar na ordem mundial at\u00e9 o fim do ano. A tentativa da OTAN de criar uma grande alian\u00e7a global contra a R\u00fassia despertou rea\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias em v\u00e1rias partes do <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2022\/mar\/10\/russia-ukraine-west-global-south-sanctions-war\">Sul Global<\/a>. Mesmo governos que condenam a guerra (como Brasil, M\u00e9xico, Argentina, \u00c1frica do Sul e \u00cdndia) n\u00e3o concordam em sancionar a R\u00fassia unilateralmente, e preferem apoiar as negocia\u00e7\u00f5es por uma solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica. A ideia da retomada de um \u201c<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2022\/04\/24\/world\/asia\/cold-war-ukraine.html\">movimento dos n\u00e3o alinhados<\/a>\u201d, inspirado pela hist\u00f3rica iniciativa lan\u00e7ada em uma confer\u00eancia em Bandung (Indon\u00e9sia) em 1955, tem encontrado resson\u00e2ncia em in\u00fameros c\u00edrculos.<\/p>\n<p>Sua inten\u00e7\u00e3o \u00e9 correta, pois buscam conter a escalada de tens\u00f5es pol\u00edticas globais, que s\u00e3o uma amea\u00e7a \u00e0 soberania dos pa\u00edses e tendem a impactar negativamente a economia global. Na pior das hip\u00f3teses, elas podem nos arrastar para uma nova guerra mundial. O esp\u00edrito de n\u00e3o confronta\u00e7\u00e3o, e de paz, de Bandung \u00e9 urgente hoje.<\/p>\n<p>Mas o \u201cmovimento dos n\u00e3o alinhados\u201d surgiu como uma recusa dos pa\u00edses do \u201cterceiro mundo\u201d em escolher um dos lados na polariza\u00e7\u00e3o entre EUA e URSS. Eles lutavam por sua soberania e pelo direito a ter rela\u00e7\u00f5es com os pa\u00edses de ambos sistemas, sem que sua pol\u00edtica externa fosse decidida em Washington ou Moscou.<\/p>\n<p>Este n\u00e3o \u00e9 o cen\u00e1rio atual. \u00c9 somente o Eixo Washington-Bruxelas (e aliados) que exige alinhamento \u00e0 sua chamada \u201c<a href=\"https:\/\/mronline.org\/2022\/01\/12\/the-u-s-makes-a-mockery-of-treaties-and-international-law\/\">ordem internacional baseada em regras<\/a>\u201d. Aqueles que n\u00e3o se alinham, sofrem com as san\u00e7\u00f5es, aplicadas contra dezenas de pa\u00edses (devastando economias inteiras, como <a href=\"https:\/\/www.wola.org\/2020\/10\/new-report-us-sanctions-aggravated-venezuelas-economic-crisis\/\">Venezuela<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.jacobinmag.com\/2021\/07\/us-policy-cuba-blockade-embargo-protests-rubio-history-war-covid-food-medicine-shortages\">Cuba<\/a>), o confisco ilegal de centenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares em ativos (Venezuela, Ir\u00e3, <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2022\/02\/13\/world\/asia\/afghanistan-funds-biden.html\">Afeganist\u00e3o<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.globaltimes.cn\/page\/202203\/1255112.shtml\">R\u00fassia<\/a>) as invas\u00f5es militares que resultam em genoc\u00eddios (Iraque, S\u00edria, L\u00edbia e Afeganist\u00e3o) e o apoio a \u201c<a href=\"https:\/\/www.scmp.com\/news\/china\/diplomacy\/article\/3124567\/china-and-russia-should-work-together-combat-colour\">revolu\u00e7\u00f5es coloridas<\/a>\u201d (da <a href=\"https:\/\/www.wsws.org\/en\/topics\/event\/2014-coup-ukraine\">Ucr\u00e2nia em 2014<\/a> ao Brasil em 2016). A exig\u00eancia de \u201calinhamento\u201d s\u00f3 vem do Norte Global, n\u00e3o da China, nem da R\u00fassia.<\/p>\n<p>A humanidade se defronta com desafios urgentes, como a desigualdade, a fome, a crise clim\u00e1tica e a amea\u00e7a de novas pandemias. Para super\u00e1-los, alian\u00e7as regionais no Sul Global precisam ser capazes de instituir uma nova multipolaridade na pol\u00edtica global. Mas os suspeitos de sempre podem ter outros planos para a humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo urge pelo fim da guerra na Ucr\u00e2nia. No entanto, a OTAN parece apostar no prolongamento do conflito, aumentando o envio de armas \u00e0 Ucr\u00e2nia e declarando que seu objetivo \u00e9 \u201cenfraquecer a R\u00fassia\u201d. 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