{"id":7542,"date":"2022-05-23T15:19:52","date_gmt":"2022-05-23T19:19:52","guid":{"rendered":"https:\/\/gtmportal.wpenginepowered.com\/2022\/05\/23\/europe-is-at-a-crossroads-of-neoliberalism-and-what-people-actually-want\/"},"modified":"2023-06-11T18:58:04","modified_gmt":"2023-06-11T22:58:04","slug":"europa-na-encruzilhada-entre-o-neoliberalismo-e-o-que-quer-o-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2022\/05\/23\/europa-na-encruzilhada-entre-o-neoliberalismo-e-o-que-quer-o-povo\/","title":{"rendered":"Europa na encruzilhada: entre o neoliberalismo e o que quer o povo"},"content":{"rendered":"<p>\u201cNem guerra que nos destrua, nem paz que nos oprima\u201d: este lema hist\u00f3rico do movimento feminista espanhol contra a guerra det\u00e9m uma das chaves fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o de um horizonte de paz. Ele proclama que a paz n\u00e3o \u00e9 apenas um cessar-fogo ou a rendi\u00e7\u00e3o e o sil\u00eancio diante daqueles que nos imp\u00f5em suas guerras. Mas sim que a paz \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o das bases para rela\u00e7\u00f5es baseadas no respeito m\u00fatuo e na coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma ideia ing\u00eanua, nem algo imposs\u00edvel, porque se h\u00e1 vontade, h\u00e1 um caminho.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o deste caminho \u00e9 a \u00fanica alternativa poss\u00edvel para a sustentabilidade da vida das pessoas e do planeta. O contr\u00e1rio \u00e9 a paz dos cemit\u00e9rios, a perda de vidas humanas, um mundo partido em dois, em guerra permanente, armas nucleares e mis\u00e9ria para os povos.<\/p>\n<p>Os que dizem defender a liberdade n\u00e3o querem que aqueles que n\u00e3o s\u00e3o como eles a desfrutem. O que se coloca \u00e9 um \u201ccomigo ou contra mim\u201d, ou, <a href=\"https:\/\/mobile.twitter.com\/dw_espanol\/status\/1498829189482356739\">nas palavras de Josep Borrell<\/a>, Alto Representante da Uni\u00e3o Europeia para Assuntos Exteriores e Pol\u00edtica de Seguran\u00e7a, \u201clembraremos daqueles que n\u00e3o est\u00e3o do nosso lado\u201d.<\/p>\n<p>A liberdade, portanto, n\u00e3o \u00e9 simplesmente escolher entre duas op\u00e7\u00f5es, mas sim a possibilidade de criar op\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias. Por isso \u00e9 fundamental que frente esta vis\u00e3o <em>mainstream<\/em> do mundo, que nos retira a capacidade de construir novos imagin\u00e1rios, articulemos um em que possamos entrar todas juntas. A guerra n\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>\u2018A Europa \u00e9 indefens\u00e1vel\u2019<\/strong><\/p>\n<p>No contexto em que vivemos se respira amn\u00e9sia e s\u00e9culo XX. De novo a guerra, de novo o \u00f3dio, de novo o \u201cn\u00f3s\u201d e os \u201coutros\u201d. \u00c9 escandaloso que nesta <a href=\"https:\/\/www.amnesty.org\/en\/documents\/eur05\/001\/2014\/en\/\">Europa-Fortaleza<\/a>, que converteu o mar mediterr\u00e2neo em uma <a href=\"https:\/\/www.clarin.com\/mundo\/mediterraneo-gran-fosa-comun-inmigrantes-europa_0_FhU7-2XHT.html\">vala comum<\/a> de pessoas que escapam das guerras de pa\u00edses do Sul Global; que devolve imigrantes de pronto e <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/global-development\/2021\/may\/05\/revealed-2000-refugee-deaths-linked-to-eu-pushbacks\">ilegalmente<\/a>; e que <a href=\"https:\/\/www.nbcnews.com\/news\/world\/frontex-europes-border-agency-fire-aiding-libyas-brutal-migrant-detent-rcna6778\">prende<\/a> os requerentes de asilo em centros de deten\u00e7\u00e3o sem que sequer possam falar com um advogado; seja t\u00e3o f\u00e1cil usar os instrumentos necess\u00e1rios para abrir suas portas para aqueles que escapam da guerra da Ucr\u00e2nia, quando s\u00e3o pessoas brancas e de olhos azuis. A guerra na Ucr\u00e2nia mostrou que a UE \u00e9 perfeitamente capaz de receber refugiados, mas para aqueles presos na L\u00edbia \u2013 aquele pa\u00eds que destru\u00edmos com a OTAN \u2013 n\u00e3o h\u00e1 rotas seguras, nem trens, nem \u00f4nibus gratuitos. Isso nos diz novamente que <strong>se h\u00e1 vontade, h\u00e1 um caminho<\/strong>.<\/p>\n<p>Todas as pessoas t\u00eam direito de fugir da guerra e de refazer suas vidas, como os afeg\u00e3os, curdos ou s\u00edrios vivendo sob superlota\u00e7\u00e3o em Moria, o campo de refugiados na ilha de Lesbos, na Gr\u00e9cia, que pegou fogo durante a pandemia com <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/news\/world-europe-54082201\">quase 13 mil pessoas dentro<\/a> e onde crian\u00e7as de 10 anos <a href=\"https:\/\/tdh-europe.org\/news\/lesbos-prisoners-of-the-horror-camp-story-in-lillustre-magazine\/7402\">tentaram se suicidar<\/a> pela viol\u00eancia, a fome e a superlota\u00e7\u00e3o. Parece que a Hist\u00f3ria da Europa colonial persiste, com vidas que importam e vidas que n\u00e3o importam.<\/p>\n<p>Mas a n\u00e3o tantos anos, milhares de fam\u00edlias espanholas fugiam de um fascismo que tamb\u00e9m perseguia \u201cos outros\u201d, como o povo cigano, pessoas da comunidade LGTBI ou defensores da Rep\u00fablica Espanhola. Como escreveu Aim\u00e9 C\u00e9saire em seu <em>Discurso sobre o colonialismo<\/em>, \u201ca Europa \u00e9 indefens\u00e1vel\u201d. O n\u00edvel de contradi\u00e7\u00f5es \u00e9 t\u00e3o alto que seria suic\u00eddio continuar nesse caminho em que falamos de paz e mandamos armas, falamos de democracia e apoiamos a censura, falamos de direitos humanos e desmantelamos a ONU, falamos de liberdade e fechamos os olhos ao fascismo. E no centro de tudo isso: a OTAN. Como se n\u00e3o bastasse entregar nossa soberania aos mercados, tamb\u00e9m a entregamos \u00e0s guerras dos EUA.<\/p>\n<p><strong>\u2018N\u00e3o se come dignidade, mas um povo sem dignidade se ajoelha e acaba sem comer\u2019<\/strong><\/p>\n<p>A famosa frase do dirigente <a href=\"https:\/\/elpais.com\/opinion\/2020-05-16\/julio-y-el-hilo-rojo.html\">Julio Anguita<\/a><a href=\"https:\/\/elpais.com\/opinion\/2020-05-16\/julio-y-el-hilo-rojo.html\"> Gonz\u00e1lez<\/a>, ex-prefeito de C\u00f3rdoba e influente l\u00edder pol\u00edtico da esquerda espanhola, \u201cn\u00e3o se come dignidade, mas um povo sem dignidade se ajoelha e acaba sem comer\u201d ressoa na minha cabe\u00e7a enquanto tento discernir o que est\u00e1 ocorrendo na Europa, ou, mais importante: o que \u00e9 a Europa e como podemos torn\u00e1-la o contr\u00e1rio do que \u00e9. Mas para entender o que \u00e9 a Europa hoje, devemos recordar que os debates que constru\u00edram os consensos no sentido da cria\u00e7\u00e3o desta Uni\u00e3o Europeia se deram em termos abstratos e aspiracionais, associando a modernidade ao neoliberalismo. Enquanto os povos absorviam uma identidade europeia vazia, se constru\u00edam os andaimes para uma economia independente do poder pol\u00edtico e democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Como a pequena sereia do conto popular de Hans Christian Andersen, vendemos nossas vozes por uma ideia de amor rom\u00e2ntico. Sem a nossa voz, os construtores da UE preencheram o abismo entre o econ\u00f4mico e o social com institui\u00e7\u00f5es geradoras de desigualdades e um projeto europeu de seguran\u00e7a a servi\u00e7o de Washington. As decis\u00f5es da UE face \u00e0 crise de 2008, \u00e0 pandemia de COVID-19 ou \u00e0 guerra na Ucr\u00e2nia n\u00e3o poderiam estar mais longe das reais e cotidianas necessidades de seguran\u00e7a das pessoas. Com a pequena sereia, aprendemos que sem a nossa voz n\u00e3o pode haver amor verdadeiro.<\/p>\n<p><strong>A luta contra a amn\u00e9sia<\/strong><\/p>\n<p>Aqueles de n\u00f3s que lutam contra a amn\u00e9sia sabem que n\u00e3o precisamos de alian\u00e7as militares, porque a guerra \u00e9 um sintoma terr\u00edvel, mas n\u00e3o \u00e9 a doen\u00e7a do mundo. Para erradic\u00e1-la, a Europa precisa urgentemente de um transplante de cora\u00e7\u00e3o, de um cora\u00e7\u00e3o antifascista e anticolonial, que seja respons\u00e1vel pelo mundo que constr\u00f3i e pelas pessoas que vivem e chegam a ele. Ent\u00e3o, como podemos tornar a Europa o oposto do que \u00e9? Em primeiro lugar, partindo do princ\u00edpio de que n\u00e3o podemos adiar o abrir dos olhos, olhar para a Europa como ela \u00e9 e enfrentar a tarefa mais dif\u00edcil: construir o nosso pr\u00f3prio caminho. Com a mem\u00f3ria, seremos capazes de enfrentar esse caminho, porque esse caminho j\u00e1 foi tentado antes. Escutemos o passado e tornemos ele melhor. Esse caminho passa por Rosa Luxemburgo, o Movimento dos Pa\u00edses N\u00e3o Alinhados, os BRICS, o pan-africanismo ou a luta das M\u00e3es da Pra\u00e7a de Maio. Toda essa hist\u00f3ria nos lembra que a luta para construir outro caminho de paz \u00e9 cheia de coragem, e que quem lutou aprendeu que sua vontade tamb\u00e9m contava.<\/p>\n<p>Porque <strong>se h\u00e1 vontade, h\u00e1 um caminho<\/strong>.<\/p>\n<p>Mais armas n\u00e3o nos salvar\u00e3o. N\u00f3s mesmas o faremos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNem guerra que nos destrua, nem paz que nos oprima\u201d: este lema hist\u00f3rico do movimento feminista espanhol contra a guerra det\u00e9m uma das chaves fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o de um horizonte de paz. 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