{"id":7401,"date":"2022-08-08T22:20:24","date_gmt":"2022-08-09T02:20:24","guid":{"rendered":"https:\/\/gtmportal.wpenginepowered.com\/2022\/08\/08\/mendels-genetic-revolution-and-the-legacy-of-scientific-racism\/"},"modified":"2023-06-01T16:20:20","modified_gmt":"2023-06-01T20:20:20","slug":"a-revolucao-genetica-de-mendel-e-o-legado-do-racismo-cientifico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2022\/08\/08\/a-revolucao-genetica-de-mendel-e-o-legado-do-racismo-cientifico\/","title":{"rendered":"A revolu\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica de Mendel e o legado do racismo cient\u00edfico"},"content":{"rendered":"<p>Em julho, o mundo celebrou os 200 anos do nascimento de Gregor Mendel, amplamente considerado como o \u201cpai da gen\u00e9tica moderna\u201d por sua <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41576-022-00510-8\">descoberta das leis da hereditariedade<\/a>. Seus experimentos com ervilhas, <a href=\"https:\/\/embryo.asu.edu\/pages\/experiments-plant-hybridization-1866-johann-gregor-mendel\">publicados em 1866<\/a> sob o t\u00edtulo \u201cExperimentos na hibridiza\u00e7\u00e3o de plantas\u201d, identificaram tra\u00e7os dominantes e recessivos, como estes tra\u00e7os recessivos reaparecem em gera\u00e7\u00f5es futuras e em qual propor\u00e7\u00e3o. Seu trabalho permaneceria sem reconhecimento e ignorado at\u00e9 outros <a href=\"https:\/\/www.encyclopedia.com\/science\/science-magazines\/biology-genetics\">tr\u00eas bi\u00f3logos o replicarem em 1900<\/a>.<\/p>\n<p>Embora o trabalho de Mendel seja central para a gen\u00e9tica moderna, e seu uso de m\u00e9todos experimentais e observa\u00e7\u00f5es seja um modelo para a ci\u00eancia, eles tamb\u00e9m motivaram fen\u00f4menos obscuros ao qual a gen\u00e9tica esteve estritamente ligada: <a href=\"https:\/\/www.smithsonianmag.com\/science-nature\/disturbing-resilience-scientific-racism-180972243\/\">a eugenia e o racismo<\/a>. Mas a eugenia era muito mais do que uma \u201cci\u00eancia\u201d racial. Ele foi usado para arrazoar uma superioridade das elites e ra\u00e7as dominantes, e em pa\u00edses como a \u00cdndia tamb\u00e9m foi utilizado como uma justifica\u00e7\u00e3o \u201ccient\u00edfica\u201d para o sistema de castas.<\/p>\n<p>Aqueles que acreditam que o eugenismo foi uma aberra\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria na ci\u00eancia e que ele morreu com a Alemanha nazista se chocar\u00e3o ao saber que at\u00e9 as maiores institui\u00e7\u00f5es e publica\u00e7\u00f5es que incluiam a palavra \u201ceugenia\u201d em nomes continuaram a operar, simplesmente alterando seus t\u00edtulso. Os Anais da Eugenia <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Annals_of_Human_Genetics\">se tornaram<\/a> os <a href=\"https:\/\/eugenicsarchive.ca\/discover\/timeline\/543d5b1328f51f0000000004\"><em>Anais de Gen\u00e9tica Humana<\/em><\/a>; a <em>Eugenics Review<\/em> <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Journal_of_Biosocial_Science\">se tornou<\/a> o <em>Jornal de Ci\u00eancia Biosocial<\/em>; a <em>Eugenics Quarterly<\/em> <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Biodemography_and_Social_Biology#:~:text\">mudou seu nome<\/a> para <em>Biodemografia<\/em> e <em>Biologia Social<\/em>; e a Sociedade Eug\u00eanica foi <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Galton_Institute\">renomeada<\/a> para Instituto Galton. Diversos departamentos de grandes universidades, que antes se chamavam \u201cdepartamento de eugenia\u201d, ou se tornaram \u201cdepartamento de gen\u00e9tica humana\u201d ou \u201cdepartamento de biologia social\u201d.<\/p>\n<p>Todos eles aparentemente deixaram de lado seu passado eug\u00eanico, mas a recorr\u00eancia do debate sobre QI e ra\u00e7a, a sociobiologia, a <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2022\/jun\/08\/a-deadly-ideology-how-the-great-replacement-theory-went-mainstream\">teoria da substitui\u00e7\u00e3o<\/a> e o crescimento do nacionalismo branco s\u00e3o todos marcadores de que o eugenismo est\u00e1 bastante vivo. Na \u00cdndia, a teoria racial toma a forma da <a href=\"https:\/\/delhiscienceforum.net\/ancient-civilisations-and-the-aryan-myth-by-prabir-purkayastha\/\">cren\u00e7a de que arianos s\u00e3o \u201csuperiores\u201d<\/a>, e a pele clara \u00e9 vista como um sinal de ancestralidade ariana.<\/p>\n<p>Enquanto as c\u00e2maras de g\u00e1s de Hitler e o genoc\u00eddio de judeus e ciganos na Alemanha nazista tornaram dif\u00edcil falar sobre a superioridade racial de certas ra\u00e7as, o racismo cient\u00edfico persiste na ci\u00eancia. Ele \u00e9 parte da justifica\u00e7\u00e3o buscada pela elite para arrazoar sua posi\u00e7\u00e3o superior com base em seus genes, e n\u00e3o no fato de terem herdado ou roubado sua riqueza. Trata-se de uma forma de retocar a hist\u00f3ria de saques, escravid\u00e3o e genoc\u00eddio que acompanhou a coloniza\u00e7\u00e3o do mundo por um punhado de pa\u00edses da Europa ocidental.<\/p>\n<p>Mas por que, sempre que tratamos de gen\u00e9tica e hist\u00f3ria, a \u00fanica hist\u00f3ria repetida \u00e9 <a href=\"https:\/\/www.theatlantic.com\/science\/archive\/2017\/12\/trofim-lysenko-soviet-union-russia\/548786\/\">sobre como o bi\u00f3logo Trofim Lysenko<\/a> e o Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica colocaram a ideologia acima da ci\u00eancia, rejeitando a gen\u00e9tica? Por que as men\u00e7\u00f5es \u00e0 gen\u00e9tica na literatura popular s\u00f3 dizem respeito \u00e0 Alemanha nazista e nunca sobre como <a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/abs\/10.1177\/0952695116631230?journalCode=hhsa\">as leis eug\u00eanicas da Alemanha<\/a> foram <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/scitable\/forums\/genetics-generation\/america-s-hidden-history-the-eugenics-movement-123919444\/\">inspiradas diretamente nos Estados Unidos<\/a>? Ou <a href=\"https:\/\/historynewsnetwork.org\/article\/1796\">como o eugenismo na Alemanha e nos EUA estavam profundamente interligados<\/a>? Ou ainda como o legado de Mendel sobre a gen\u00e9tica se tornou uma ferramenta na m\u00e3o de estados racistas que inclu\u00edam os EUA e a Gr\u00e3-Bretanha? Por que \u00e9 que a gen\u00e9tica \u00e9 repetidamente utilizada para apoiar teorias de superioridade da ra\u00e7a branca?<\/p>\n<p>Mendel demonstrou que havia tra\u00e7os que eram herdados e, portanto, que temos genes que carregam certos marcadores que podem ser medidos, como a cor de uma flor ou a altura de uma planta. A biologia de ent\u00e3o n\u00e3o fazia ideia de quantos genes n\u00f3s t\u00ednhamos, quais tra\u00e7os poderiam ser passados \u00e0 frente e qu\u00e3o geneticamente misturada \u00e9 a popula\u00e7\u00e3o humana, etc. O pr\u00f3prio Mendel n\u00e3o tinha ideia alguma sobre os genes como portadores de heran\u00e7a, e isso foi conhecido muito mais tarde.<\/p>\n<p>Da gen\u00e9tica para a sociedade, a aplica\u00e7\u00e3o desses princ\u00edpios foi um grande salto, que n\u00e3o era apoiado por nenhuma evid\u00eancia cient\u00edfica emp\u00edrica. Todas as tentativas de demonstrar a superioridade de certas ra\u00e7as partiram de uma presun\u00e7\u00e3o <em>a priori<\/em> de que tais ra\u00e7as eram superiores, e ent\u00e3o partiam para tentar encontrar quais evid\u00eancias poderiam ser selecionadas para sustentar tal tese. Muito do debate sobre QI e sociobiologia veio dessa abordagem na \u201cci\u00eancia\u201d. <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/1994\/10\/26\/opinion\/in-america-throwing-a-curve.html\">Em sua resenha do livro <\/a><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/1994\/10\/26\/opinion\/in-america-throwing-a-curve.html\"><em>The Bell Curve<\/em><\/a>, Bob Herbert escreveu que os autores Charles Murray e Richard Herrnstein haviam escrito uma pe\u00e7a de \u201cpornografia racial\u201d: \u201c[\u2026] colocando um manto de respeitabilidade sobre as vis\u00f5es obscenas e h\u00e1 muito desacreditadas dos racistas mais raivosos do mundo\u201d.<\/p>\n<p>Sobre esse tema, um pouco de hist\u00f3ria \u00e9 necess\u00e1rio. O eugenismo era bastante popular no come\u00e7o do s\u00e9culo 20, tendo o apoio de grandes partidos e figuras pol\u00edticas do Reino Unido e EUA. N\u00e3o surpreendentemente, o ex-primeiro-ministro brit\u00e2nico Winston Churchill era um <a href=\"https:\/\/www.cnn.com\/2020\/06\/10\/opinions\/churchill-racist-great-white-men-view-toye-opinion\/index.html\">not\u00e1vel apoiador<\/a> do racismo cient\u00edfico, apesar do eugenismo tamb\u00e9m ter tido o apoio de alguns progressistas.<\/p>\n<p>O fundador do eugenismo na Gr\u00e3-Bretanha foi Francis Galton, <a href=\"https:\/\/rss.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/j.1740-9713.2009.00379.x\">primo<\/a> de Charles Darwin. Galton foi pioneiro no uso de m\u00e9todos estat\u00edsticos como distribui\u00e7\u00e3o regressiva e normal, assim como seus <a href=\"https:\/\/nautil.us\/how-eugenics-shaped-statistics-9365\/\">colaboradores e sucessores<\/a> na Sociedade Eug\u00eanica, como Karl Pearson e R.A. Fisher. <a href=\"https:\/\/nautil.us\/how-eugenics-shaped-statistics-9365\/\">Aubrey Clayton escreve, em um ensaio para a revista <\/a><a href=\"https:\/\/nautil.us\/how-eugenics-shaped-statistics-9365\/\"><em>Nautilus<\/em><\/a>, sobre a conex\u00e3o entre ra\u00e7a e ci\u00eancia que \u201co que n\u00f3s hoje entendemos como estat\u00edstica veio em grande parte do trabalho de Galton, Pearson e Fisher, cujos nomes apareceram em termos pr\u00e1ticos como \u2018coeficiente de correla\u00e7\u00e3o de Pearson\u2019 e \u2018informa\u00e7\u00f5es de Fisher\u2019. O conceito de \u2018signific\u00e2ncia estat\u00edstica\u2019 em particular \u2013 por d\u00e9cadas usado como medida sobre o valor de publica\u00e7\u00e3o de pesquisas emp\u00edricas \u2013 \u00e9 diretamente ligado ao trio\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi Galton quem, com base em evid\u00eancias supostamente cient\u00edficas, defendeu a tese da <a href=\"https:\/\/nautil.us\/how-eugenics-shaped-statistics-9365\/\">superioridade dos brit\u00e2nicos em rela\u00e7\u00e3o a africanos<\/a> e outros povos nativos, bem como o argumento de que ra\u00e7as superiores <a href=\"https:\/\/exhibits.lib.unc.edu\/exhibits\/show\/race-deconstructed\/item\/6451\">deveriam substituir ra\u00e7as inferiores<\/a> por meio da sele\u00e7\u00e3o artificial. Pearson ofereceu <a href=\"https:\/\/nautil.us\/how-eugenics-shaped-statistics-9365\/\">sua pr\u00f3pria justificativa para o genoc\u00eddio<\/a>: \u201ca hist\u00f3ria me mostra um caminho, e apenas um, pelo qual um alto estado de civiliza\u00e7\u00e3o foi produzido, a saber, a luta de ra\u00e7a com ra\u00e7a e a sobreviv\u00eancia da ra\u00e7a f\u00edsica e mentalmente mais apta\u201d.<\/p>\n<p>O programa eugenista tinha dois lados: em um deles o estado deveria buscar encorajar a sele\u00e7\u00e3o artificial para melhorar o \u201cestoque\u201d populacional. No outro, o estado deveria tomar passos ativos para \u201celiminar\u201d popula\u00e7\u00f5es indesej\u00e1veis. A <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC1127045\/\">esteriliza\u00e7\u00e3o de \u201cindesej\u00e1veis\u201d<\/a> fazia parte das sociedades eug\u00eanicas tanto quanto encorajar os povos \u00e0 sele\u00e7\u00e3o artificial.<\/p>\n<p>Nos EUA, o eugenismo esteve centrado no <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2014\/10\/14\/science\/haunted-files-the-eugenics-record-office-recreates-a-dark-time-in-a-laboratorys-past.html\">Departamento de Registros Eug\u00eanicos<\/a> de Cold Spring Harbor. Enquanto o Laborat\u00f3rio Cold Spring Harbor e suas publica\u00e7\u00f5es de pesquisa ainda ocupam um lugar importante nas ci\u00eancias contempor\u00e2neas, originalmente ele veio do Departamento de Registros Eug\u00eanicos, que era operado como o centro intelectual do eugenismo e da \u201cci\u00eancia\u201d racial. Esse departamento foi sustentado por meio de doa\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas da fam\u00edlia Rockefeller, o Instituto Carnegie e muitos outros. Charles Davenport, um bi\u00f3logo de Harvard, e seu companheiro Harry Laughlin, se tornaram <a href=\"https:\/\/www.nbcnews.com\/id\/wbna24714393\">figuras-chave<\/a> para a aprova\u00e7\u00e3o de um conjunto de leis estaduais nos EUA que levaram \u00e0 esteriliza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de popula\u00e7\u00f5es \u201cimpr\u00f3prias\u201d. Eles tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2014\/10\/14\/science\/haunted-files-the-eugenics-record-office-recreates-a-dark-time-in-a-laboratorys-past.html\">contribu\u00edram ativamente<\/a> para a Lei de Imigra\u00e7\u00e3o de 1924, que definia cotas para ra\u00e7as, sendo os n\u00f3rdicos priorizados enquanto europeus do leste (eslavos), asi\u00e1ticos, \u00e1rabes, africanos e judeus eram virtualmente barrados de entrar no pa\u00eds.<\/p>\n<p>As leis de esteriliza\u00e7\u00e3o nos EUA, \u00e0 \u00e9poca, eram controladas pelos estados. O juiz da Suprema Corte dos EUA, Oliver Wendell Holmes, o decano da jurisprud\u00eancia liberal nos EUA, deu seu infame julgamento na Virg\u00ednia <a href=\"https:\/\/faculty.uca.edu\/benw\/biol4415\/papers\/carriebuck.pdf\">justificando a esteriliza\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria<\/a>: \u201ctr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de d\u00e9beis mentais s\u00e3o suficientes\u201d, ele disse no caso <em>Buck v. Bell<\/em>. Carrie Buck e sua filha n\u00e3o eram d\u00e9beis mentais; elas pagaram pelo pecado de serem pobres e consideradas amea\u00e7as \u00e0 sociedade (uma sociedade que falhou com elas). Mais uma vez, o <a href=\"https:\/\/embryo.asu.edu\/pages\/buck-v-bell-1927\">Departamento de Registros Eug\u00eanicos<\/a> e Laughlin tiveram um papel importante ao prover \u201cevid\u00eancias cient\u00edficas\u201d para a esteriliza\u00e7\u00e3o dos \u201cinadequados\u201d.<\/p>\n<p>Embora as leis raciais da Alemanha nazista sejam amplamente condenadas como a base para as c\u00e2maras de g\u00e1s de Hitler, o pr\u00f3prio Hitler afirmou que sua inspira\u00e7\u00e3o para as <a href=\"https:\/\/longislandwins.com\/immigration-history\/when-americas-racist-immigration-law-inspired-hitler\/\">leis raciais da Alemanha foram as leis estadunidenses sobre esteriliza\u00e7\u00e3o e imigra\u00e7\u00e3o<\/a>. As liga\u00e7\u00f5es estreitas entre os eugenistas estadunidenses e a Alemanha nazista s\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/uk\/2004\/feb\/06\/race.usa\">amplamente conhecidas e documentadas<\/a>. O livro <em>War Against the Weak: Eugenics and America\u2019s Campaign to Create a Master Race<\/em>, de Edwin Black, descreve como \u201co \u00f3dio racial de Adolf Hitler se sustentava no trabalho de eugenistas estadunidenses\u201d, de acordo com um artigo <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/uk\/2004\/feb\/06\/race.usa\">publicado no <\/a><a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/uk\/2004\/feb\/06\/race.usa\"><em>The Guardian<\/em><\/a> em 2004. <a href=\"https:\/\/historyofeugenics.truman.edu\/exchanging-ideas\/international-discourse\/nazi-connection\/\">A Universidade de Heidelberg, enquanto isso, deu a Laughlin um t\u00edtulo honor\u00e1rio<\/a> por seu trabalho na <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2014\/10\/14\/science\/haunted-files-the-eugenics-record-office-recreates-a-dark-time-in-a-laboratorys-past.html#:~:text\">\u201cci\u00eancia da limpeza racial\u201d<\/a>.<\/p>\n<p>Com a queda da Alemanha nazista, a eugenia foi desacreditada. Isso resultou na renomea\u00e7\u00e3o de institutos, departamentos e publica\u00e7\u00f5es que tinham afilia\u00e7\u00f5es com a eugenia, mas eles continuaram a fazer o mesmo trabalho. A gen\u00e9tica humana e a biologia social se tornaram os novos nomes para a eugenia. <em>The Bell Curve<\/em> foi publicado em 1990 como uma justifica\u00e7\u00e3o do racismo, e <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2014\/05\/16\/books\/nicholas-wades-a-troublesome-inheritance.html\">um recente <\/a><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2014\/05\/16\/books\/nicholas-wades-a-troublesome-inheritance.html\"><em>bestseller<\/em><\/a><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2014\/05\/16\/books\/nicholas-wades-a-troublesome-inheritance.html\"> escrito por Nicholas Wade<\/a>, ex-correspondente de ci\u00eancias do jornal <em>The New York Times<\/em>, tamb\u00e9m apresenta teorias que h\u00e1 muito foram descartadas cientificamente. Cinquenta anos atr\u00e1s, <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/science.abl5430\">Richard Lewontin demonstrou<\/a> que uma por\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/2021\/08\/remembering-the-great-scientific-crusader-who-showed-that-no-biological-basis-for-race-exists-richard-lewontin\/\">apenas 6% a 7%<\/a> das <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC20754\/\">varia\u00e7\u00f5es<\/a> gen\u00e9ticas humanas existem <em>entre<\/em> os chamados \u201cgrupos raciais\u201d. \u00c0 \u00e9poca, a gen\u00e9tica ainda estava no seu nascedouro. Mais tarde, os dados s\u00f3 fortaleceram a pesquisa de Lewontin.<\/p>\n<p>Por que, enquanto criticamos as pesquisas cient\u00edficas da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e os pecados de Lysenko h\u00e1 80 anos, esquecemos da ci\u00eancia racial e seu uso da gen\u00e9tica?<\/p>\n<p>A resposta \u00e9 simples: atacar os princ\u00edpios cient\u00edficos e as teorias desenvolvidas pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica como um exemplo de ideologia posta acima da ci\u00eancia \u00e9 f\u00e1cil. Isso torna Lysenko a norma para a ci\u00eancia sovi\u00e9tica; a ideologia superando a ci\u00eancia pura. Mas por que a eugenia, com seu passado destrutivo e sua presen\u00e7a cont\u00ednua na Europa e nos EUA, n\u00e3o \u00e9 reconhecida como uma ideologia \u2013 uma que persistiu por mais de 100 anos e que continua a prosperar sob a roupagem moderna de debates sobre QI ou <a href=\"https:\/\/undark.org\/2022\/02\/16\/new-evidence-revives-old-questions-about-e-o-wilson-and-race\/\">sociobiologia<\/a>?<\/p>\n<p>A resposta \u00e9 que ela oferece ao racismo um lugar <em>dentro<\/em> da ci\u00eancia: mudar o nome de eugenia para sociobiologia a faz parecer uma ci\u00eancia respeit\u00e1vel. O poder da ideologia n\u00e3o est\u00e1 nas ideias, mas na estrutura de nossas sociedades, nas quais os ricos e poderosos precisam de uma justifica\u00e7\u00e3o para suas posi\u00e7\u00f5es. \u00c9 por isso que a \u201cci\u00eancia\u201d racial como ideologia \u00e9 um corol\u00e1rio natural do capitalismo e de grupos como o G7, o clube dos pa\u00edses ricos que busca criar uma \u201c<a href=\"https:\/\/peoplesdispatch.org\/2021\/09\/25\/quad-aukus-and-the-new-rules-based-international-order\/\">ordem internacional baseada em regras<\/a>\u201d. A \u201cci\u00eancia\u201d racial da sociobiologia \u00e9 uma justificativa mais gentil do que a eugenia para o dom\u00ednio do capital em casa e em estados ex-coloniais e sob ocupa\u00e7\u00e3o no exterior. A luta pela ci\u00eancia na gen\u00e9tica deve ser travada dentro e fora da ci\u00eancia, pois as duas dimens\u00f5es est\u00e3o intimamente conectadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em julho, o mundo celebrou os 200 anos do nascimento de Gregor Mendel, amplamente considerado como o \u201cpai da gen\u00e9tica moderna\u201d por sua descoberta das leis da hereditariedade. Seus experimentos com ervilhas, publicados em 1866 sob o t\u00edtulo \u201cExperimentos na hibridiza\u00e7\u00e3o de plantas\u201d, identificaram tra\u00e7os dominantes e recessivos, como estes tra\u00e7os recessivos reaparecem em gera\u00e7\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":40,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[348],"tags":[358,384,439,440,385,496,513,361,461,560,430,389,363,365,519,367,368,369],"article-type":[625],"class_list":["post-7401","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-globetrotter-pt-br","tag-activism-pt-br","tag-africa-pt-br","tag-asia-china-pt-br","tag-asia-india-pt-br","tag-europe-pt-br","tag-europe-germany-pt-br","tag-europe-united-kingdom-pt-br","tag-history-pt-br","tag-identity-politics-pt-br","tag-immigration-pt-br","tag-law-pt-br","tag-north-america-united-states-of-america-pt-br","tag-opinion-pt-br","tag-portuguese-pt-br","tag-science-pt-br","tag-social-justice-pt-br","tag-spanish-pt-br","tag-time-sensitive-pt-br","article-type-opinion-analysis-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7401","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/40"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7401"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7401\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7401"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7401"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7401"},{"taxonomy":"article-type","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/article-type?post=7401"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}