{"id":7356,"date":"2022-09-28T18:12:10","date_gmt":"2022-09-28T22:12:10","guid":{"rendered":"https:\/\/gtmportal.wpenginepowered.com\/2022\/09\/28\/the-electricity-crisis-in-south-africa-continues-to-brew\/"},"modified":"2023-06-01T15:45:24","modified_gmt":"2023-06-01T19:45:24","slug":"a-crise-de-eletricidade-na-africa-do-sul-prossegue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2022\/09\/28\/a-crise-de-eletricidade-na-africa-do-sul-prossegue\/","title":{"rendered":"A crise de eletricidade na \u00c1frica do Sul prossegue"},"content":{"rendered":"<p>Ao final do regime do apartheid, em 1994, <a href=\"https:\/\/sustainabledevelopment.un.org\/content\/documents\/23402RSA_Voluntary_National_Review_Report___The_Final_24_July_2019.pdf\">somente 36% das casas<\/a> na \u00c1frica do Sul tinham luz el\u00e9trica, com quase todos os dom\u00edcilios brancos tendo acesso \u00e0 energia e a maior parte dos domic\u00edlios negros sem acesso \u00e0 eletricidade. Dez anos mais tarde, mais de <a href=\"https:\/\/theconversation.com\/south-africas-economic-growth-affected-by-mismatch-of-electricity-supply-and-demand-179129\">80% dos domic\u00edlios tinham acesso \u00e0 energia el\u00e9trica<\/a>. Foi uma realiza\u00e7\u00e3o importante, apesar de ter <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2005\/12\/25\/world\/africa\/shantytown-dwellers-in-south-africa-protest-sluggish-pace-of.html\">deixado para tr\u00e1s<\/a> os moradores das favelas, em r\u00e1pido crescimento em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas esse progresso chegou a um limite em 2007, quando a \u00c1frica do Sul <a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/south-africa\/the-crisis-in-south-africas-energy-sector-towards-a-just-transition\/\">come\u00e7ou a sofrer<\/a> com os \u201ccortes de carga\u201d, que \u00e9 o corte do fornecimento de energia para diferentes \u00e1reas de forma rotativa. O \u201ccorte de carga\u201d, implementado quando a companhia estatal de energia, a Eskom, \u00e9 incapaz de prover eletricidade para todo o pa\u00eds e a rede de energia precisa ser mantida estabilizada, parece ter chegado a um novo n\u00edvel nos \u00faltimos dias, com a maioria das regi\u00f5es ficando sem energia el\u00e9trica por <a href=\"https:\/\/www.lemonde.fr\/en\/le-monde-africa\/article\/2022\/09\/23\/south-africa-s-main-power-grid-is-on-the-verge-of-meltdown_5997976_124.html\">at\u00e9 12 horas por dia<\/a>. Houve avisos de que <a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2022\/7\/1\/power-cuts-in-south-africa-what-you-need-to-now\">blecautes totais<\/a> podem ser necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>A Eskom <a href=\"https:\/\/www.thegwpf.org\/content\/uploads\/2020\/06\/Decline-Fall-Eskom.pdf\">foi incapaz de manter um fornecimento<\/a> est\u00e1vel de energia por 15 anos por conta da falta de investimento na atualiza\u00e7\u00e3o da infraestrutura e pouca manuten\u00e7\u00e3o, um per\u00edodo de saque sob o regime cleptocr\u00e1tico do ex-presidente Jacob Zuma, e um longo programa de austeridade estatal que resultou no desinvestimento geral nas empresas estatais.<\/p>\n<p>A crise energ\u00e9tica tem sido bastante danosa para uma economia que <a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/news\/articles\/2022-09-19\/ramaphosa-races-home-as-south-african-energy-crisis-escalates\">tenta se recuperar<\/a> de uma desindustrializa\u00e7\u00e3o socialmente devastadora, da austeridade estatal e do crescente controle das <a href=\"https:\/\/www.latimes.com\/world\/africa\/la-fg-0320-south-africa-politics-20160321-story.html\">m\u00e1fias pol\u00edticas<\/a> sobre a vida econ\u00f4mica. H\u00e1 estimativas de que o \u201ccorte de carga\u201d tenha levado a uma perda de 500 bilh\u00f5es de randes (cerca de 28 bilh\u00f5es de d\u00f3lares) na economia sul-africana desde 2018, sendo respons\u00e1vel por uma perda de cerca de <a href=\"https:\/\/www.thesouthafrican.com\/news\/how-long-load-shedding-monday-9-december-when-eskom-floods\/\">1 bilh\u00e3o de randes por etapa<\/a>, isto \u00e9, por dia.<\/p>\n<p>A \u00c1frica do Sul tem taxas de conectividade energ\u00e9tica muito maiores que o resto da \u00c1frica subsaariana, <a href=\"https:\/\/sustainabledevelopment.un.org\/content\/documents\/1608Electricity%20and%20Education.pdf\">onde cerca de 90% das crian\u00e7as<\/a> que conseguem acessar a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica v\u00e3o para escolas sem energia el\u00e9trica. Mas com o corte de carga fazendo com que a energia fique desligada durante a maior parte do dia, muitas pessoas na \u00c1frica do Sul podem enfrentar condi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s que vivem no resto da \u00c1frica subsaariana. Dado que a \u00c1frica do Sul \u00e9 hoje o pa\u00eds <a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2022\/3\/10\/south-africa-most-unequal-country-in-the-world-report\">mais desigual do mundo<\/a>, o aprofundamento da crise energ\u00e9tica aumenta as diferen\u00e7as entre ricos e pobres, com os \u00faltimos sendo majoritariamente negros e, em grande parte, mulheres.<\/p>\n<p>De acordo com <a href=\"https:\/\/sustainabledevelopment.un.org\/content\/documents\/1608Electricity%20and%20Education.pdf\">relat\u00f3rios recentes<\/a>, mais de 30,4 milh\u00f5es de pessoas na \u00c1frica do Sul vivem abaixo da linha de pobreza, de uma popula\u00e7\u00e3o total de 60,6 milh\u00f5es. Cerca de 50% da popula\u00e7\u00e3o vive com 1.335 randes por m\u00eas, ou cerca de 75 d\u00f3lares. O custo b\u00e1sico da eletricidade para um domic\u00edlio pobre \u00e9 de algo entre <a href=\"https:\/\/briefly.co.za\/105425-prepaid-electricity-rates-south-africa-work.html\">1.100 e 1.500 randes<\/a>, o que j\u00e1 \u00e9 um custo maior do que a renda de metade da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Junto da ampla inseguran\u00e7a alimentar, \u00e9 prov\u00e1vel que a mesma popula\u00e7\u00e3o de mais de 30 milh\u00f5es de sul-africanos enfrente a \u201cpobreza energ\u00e9tica\u201d, um termo usado para descrever uma situa\u00e7\u00e3o na qual as contas de eletricidade, g\u00e1s e outras fontes de energia tomam uma larga parcela dos gastos do domic\u00edlio, dificultando que esses sul-africanos cubram os custos com comida, aluguel e roupas. Al\u00e9m disso, o uso reduzido de energia em domic\u00edlios e locais de trabalho tem um impacto negativo em sua sa\u00fade f\u00edsica e mental. Nas favelas, a falta de eletricidade tem se traduzido h\u00e1 muito tempo em pessoas usando velas e g\u00e1s para cozinhar e iluminar suas casas, vivendo em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias que frequentemente <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3SblOre\">resultam em inc\u00eandios devastadores<\/a>. Com cortes de carga frequentes, os inc\u00eandios tamb\u00e9m devem se tornar mais comuns nesses tipos de moradia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tudo isso, a \u00c1frica do Sul teve a <a href=\"https:\/\/data.worldbank.org\/indicator\/VC.IHR.PSRC.P5?most_recent_value_desc=false\">oitava taxa de homic\u00eddios mais alta do mundo<\/a> em 2020, e a <a href=\"https:\/\/www.weforum.org\/agenda\/2019\/09\/gender-based-violence-in-africa\/\">quarta maior taxa de viol\u00eancia de g\u00eanero no mundo<\/a>, de acordo com dados de 2016. As horas cada vez maiores de cortes de carga e a queda abrupta de eletrifica\u00e7\u00e3o tornar\u00e1 essa viol\u00eancia ainda maior. <a href=\"https:\/\/iopscience.iop.org\/article\/10.1088\/1748-9326\/aa7bdd\">Um estudo realizado em 2017 no Brasil<\/a> sobre o impacto socioecon\u00f4mico da eletrifica\u00e7\u00e3o concluiu que o acesso \u00e0 energia resulta em quedas significativas nas taxas de viol\u00eancia de g\u00eanero, por conta da melhor ilumina\u00e7\u00e3o em espa\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>O fardo da reprodu\u00e7\u00e3o social sempre foi carregado majoritariamente pelas mulheres. O acesso \u00e0 eletricidade pode reduzir esse peso. <a href=\"https:\/\/jpia.princeton.edu\/news\/powering-households-and-empowering-women-gendered-effects-electrification-sub-saharan-africa\">Um estudo de 2021<\/a> intitulado \u201cEnergizando domic\u00edlios e empoderando mulheres\u201d concluiu que, ao liberar o tempo das mulheres, a pobreza \u00e9 reduzida pela cria\u00e7\u00e3o de oportunidades para que mulheres e meninas desenvolvam meios de subsist\u00eancia, entrem na for\u00e7a de trabalho ou se concentrem na escola. Isso tamb\u00e9m pode reduzir a exposi\u00e7\u00e3o a poluentes nocivos dentro de casa, aumentar a sa\u00fade materna e diminuir a viol\u00eancia de g\u00eanero.<\/p>\n<p>A demanda pela resolu\u00e7\u00e3o da crise de eletricidade tem sido uma das poucas quest\u00f5es que ajudaram a unir os pobres, a classe trabalhadora e a classe m\u00e9dia. Mas, at\u00e9 agora, essas exig\u00eancias n\u00e3o est\u00e3o bem organizadas e foram atendidas com pouco mais do que <a href=\"https:\/\/www.ips-journal.eu\/topics\/economy-and-ecology\/energy-prices-are-driving-society-to-its-breaking-point-6197\/\">chav\u00f5es<\/a> pelas elites dominantes, incluindo o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa.<\/p>\n<p>O comprometimento do Congresso Nacional Africano (CNA) com a austeridade neoliberal tem se traduzido em investimentos insuficientes na companhia estatal de energia. Sua \u00fanica proposta tem sido substituir as esta\u00e7\u00f5es de energia estatais a carv\u00e3o, que s\u00e3o altamente poluentes, para <a href=\"https:\/\/www.climatechangenews.com\/2022\/07\/26\/south-africa-turns-to-renewables-gas-and-batteries-to-end-power-cuts\/\">formas privadas de energia renov\u00e1veis<\/a>. Atualmente, uma das pessoas mais bem colocadas para <a href=\"https:\/\/www.yahoo.com\/entertainment\/south-african-billionaire-motsepe-says-180215799.html\">se beneficiar disso<\/a> \u00e9 o cunhado do presidente, o bilion\u00e1rio Patrice Motsepe, levando em conta seus investimentos em energia renov\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os sindicatos na \u00c1frica do Sul t\u00eam insistido que, apesar de uma mudan\u00e7a para fontes renov\u00e1veis ser bem-vinda, realiz\u00e1-la por meio de privatiza\u00e7\u00f5es aumentar\u00e1 o custo da energia el\u00e9trica para os pobres e a classe trabalhadora, resultando em uma inclina\u00e7\u00e3o para atender aos interesses dos capitalistas e dos ricos. os sindicatos <a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Eng_working-document-SA-Electricity.pdf\">propuseram<\/a> que as fontes renov\u00e1veis sejam p\u00fablicas e geridas socialmente.<\/p>\n<p>As propostas dos sindicatos foram ignoradas, a austeridade prossegue, e houve pouco movimento para a privatiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o el\u00e9trica. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o de estagna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Especialistas acreditam que os cortes de carga, com seus efeitos econ\u00f4micos e sociais altamente prejudiciais, provavelmente continuar\u00e3o pelos pr\u00f3ximos tr\u00eas ou quatro anos. Muitos analistas argumentam que isso deve atingir a popularidade do Congresso Nacional Africano nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es presidenciais, previstas para 2024. Uma crise de energia poderia significar uma <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/africa\/safricas-ramaphosa-knife-edge-crises-spur-leadership-contest-2022-08-05\/\">perda de poder<\/a> pol\u00edtico. Com os partidos xenof\u00f3bicos e de direita avan\u00e7ando, o cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 de muito otimismo.<\/p>\n<p>A \u00c1frica do Sul n\u00e3o ver\u00e1 luz at\u00e9 que o valor social do acesso \u00e0 eletricidade seja tomado em conta. A proposta dos sindicatos por uma mudan\u00e7a para fontes renov\u00e1veis administradas e detidas socialmente \u00e9 <a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/south-africa\/the-crisis-in-south-africas-energy-sector-towards-a-just-transition\/\">a melhor op\u00e7\u00e3o<\/a> na mesa. N\u00f3s precisamos de uma solu\u00e7\u00e3o que vise a maioria, e n\u00e3o alguns poucos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao final do regime do apartheid, em 1994, somente 36% das casas na \u00c1frica do Sul tinham luz el\u00e9trica, com quase todos os dom\u00edcilios brancos tendo acesso \u00e0 energia e a maior parte dos domic\u00edlios negros sem acesso \u00e0 eletricidade. Dez anos mais tarde, mais de 80% dos domic\u00edlios tinham acesso \u00e0 energia el\u00e9trica. 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