{"id":7278,"date":"2023-01-04T22:19:13","date_gmt":"2023-01-05T03:19:13","guid":{"rendered":"https:\/\/gtmportal.wpenginepowered.com\/2023\/01\/04\/they-shot-them-down-like-animals-massacre-at-perus-ayacucho\/"},"modified":"2023-05-31T08:51:37","modified_gmt":"2023-05-31T12:51:37","slug":"eles-atiraram-neles-como-se-fossem-animais-o-massacre-de-ayacucho-no-peru","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2023\/01\/04\/eles-atiraram-neles-como-se-fossem-animais-o-massacre-de-ayacucho-no-peru\/","title":{"rendered":"\u201cEles atiraram neles como se fossem animais\u201d: o massacre de Ayacucho, no Peru"},"content":{"rendered":"<p>No dia 15 de dezembro de 2022, com helic\u00f3pteros voando sobre suas cabe\u00e7as, membros do Ex\u00e9rcito nacional do Peru <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/americas\/caught-crossfire-peru-protest-deaths-keep-anger-burning-2022-12-27\/\">mataram civis<\/a> com balas reais na periferia da cidade de Ayacucho. Este ato foi uma resposta \u00e0 greve nacional e \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/peoplesdispatch.org\/2022\/12\/20\/we-are-here-to-support-our-president-peruvians-resist-the-coup\/\">contra o golpe de estado<\/a> que dep\u00f4s o presidente Pedro Castillo em 7 de dezembro.<\/p>\n<p>No dia 15, centenas de estudantes universit\u00e1rios, comerciantes, vendedores ambulantes, trabalhadores agr\u00edcolas e ativistas se reuniram no centro de Ayacucho para expressar seu descontentamento com a remo\u00e7\u00e3o de Castillo, e prosseguiram com sua mobiliza\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao aeroporto da cidade. A\u00e7\u00f5es similares foram vistas em v\u00e1rias outras cidades da regi\u00e3o andina ao sul do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quando os manifestantes se aproximavam do aeroporto, membros das For\u00e7as Armadas abriram fogo e atiraram g\u00e1s lacrimog\u00eaneo diretamente contra eles. Os disparos do Ex\u00e9rcito realizados a partir dos helic\u00f3pteros foram os mais letais. Enquanto centenas de pessoas desarmadas corriam por suas vidas, o tiroteio prosseguia.<\/p>\n<p>Dez pessoas foram mortas em decorr\u00eancia da viol\u00eancia do Ex\u00e9rcito, e outras dezenas ficaram feridas, de acordo com os <a href=\"https:\/\/twitter.com\/Defensoria_Peru\/status\/1606035946356342785\">n\u00fameros oficiais<\/a> da Defensoria do Povo do Peru. Ao menos <a href=\"https:\/\/twitter.com\/Minsa_Peru\/status\/1605651525799448580?s=20&amp;t=SAE1UlNF8K7BZYaT26C3sA\">seis pessoas<\/a> seguem lutando por suas vidas em hospitais na capital peruana, <a href=\"https:\/\/rpp.pe\/peru\/ayacucho\/ayacucho-se-elevo-a-ocho-la-cifra-de-muertos-tras-enfrentamientos-entre-manifestantes-y-fuerzas-del-orden-noticia-1454010\">Lima<\/a>, e em Ayacucho. As aut\u00f3psias realizadas nos dez mortos em Ayacucho <a href=\"https:\/\/ojo-publico.com\/4045\/un-memorial-los-adolescentes-y-jovenes-muertos-las-protestas\">mostram<\/a> que seis das v\u00edtimas morreram em decorr\u00eancia de disparos que atingiram seus peitos. O mais jovem deles tinha somente 15 anos de idade.<\/p>\n<p>No dia 27 de dezembro, a ag\u00eancia <em>Reuters<\/em> reportou como uma dessas v\u00edtimas de Ayacucho, Edgar Prado, de 51 anos, foi atingido e morto enquanto tentava ajudar outra pessoa baleada durante os protestos.<\/p>\n<p>A resposta excessivamente violenta das for\u00e7as de seguran\u00e7a frente os protestos contra o golpe no Peru foi amplamente condenada. Uma <a href=\"https:\/\/twitter.com\/CIDH\/status\/1605183772483530752\">delega\u00e7\u00e3o<\/a> da Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) esteve no pa\u00eds entre os dias 20 e 22 de dezembro para colher testemunhos de v\u00edtimas e organiza\u00e7\u00f5es locais de direitos humanos sobre a repress\u00e3o violenta sofrida pelos manifestantes, e conversou com as fam\u00edlias das <a href=\"https:\/\/larepublica.pe\/sociedad\/2022\/12\/31\/protestas-en-peru-un-pais-sin-rumbo-28-muertos-y-mas-de-709-victimas-en-el-gobierno-de-boluarte-crisis-en-peru-estado-de-emergencia\/\">28 v\u00edtimas fatais<\/a>. A delega\u00e7\u00e3o esteve em Ayacucho no dia 22.<\/p>\n<p>Dezenas de familiares, habitantes de Ayacucho, organizadores e um punhado de jornalistas independentes, incluindo eu, esperavam na cal\u00e7ada de uma das estreitas e coloridas ruas da cidade enquanto o encontro era realizado. \u00c0 medida que as pessoas entravam e sa\u00edam, muitos dos eventos e trag\u00e9dias do dia 15 de dezembro foram recontados.<\/p>\n<p><strong>O massacre<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEles n\u00e3o v\u00e3o mostrar isso nos jornais daqui\u201d, me disse <em>Carmen<\/em> (nome alterado) enquanto me mostrava um v\u00eddeo em seu celular de um garoto com a camisa coberta de sangue, sendo arrastado para um lugar seguro por manifestantes. \u201cEsse \u00e9 o sobrinho dela\u201d, me disse <em>Carmen<\/em>, apontando para uma mulher sentada no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Pedro Huamani, um homem de 70 anos que \u00e9 membro da Frente de Defesa do Povo de Ayacucho (FREDEPA), estava acompanhando algumas v\u00edtimas que esperavam do lado de fora da reuni\u00e3o do CIDH. \u201cN\u00f3s tivemos uma perda terr\u00edvel\u201d, ele me disse. \u201cEu estava presente naquele dia em uma marcha pac\u00edfica at\u00e9 o aeroporto\u201d.<\/p>\n<p>\u201cQuando eles come\u00e7aram a lan\u00e7ar granadas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo e a disparar contra n\u00f3s, eu comecei a sufocar, quase morri l\u00e1\u201d, disse Huamani. \u201cEu consegui escapar e corri para o cemit\u00e9rio, mas l\u00e1 estava igual, n\u00f3s tent\u00e1vamos entrar e eles come\u00e7aram a atirar contra n\u00f3s pelas costas. Helic\u00f3pteros voavam, e a partir deles atiravam granadas de g\u00e1s contra n\u00f3s, tentando nos matar\u201d.<\/p>\n<p><em>Carmen<\/em> trouxe com ela alguns amigos, e um deles, que vestia um moletom cinza, me disse: \u201cN\u00f3s vivemos todos perto do aeroporto, e vimos tudo acontecer. Voc\u00ea devia ter visto como eles atiraram neles como animais. N\u00f3s tentamos ajudar alguns dos feridos, mas era dif\u00edcil\u201d.<\/p>\n<p>O massacre em Ayacucho, bem como a violenta repress\u00e3o por todo o pa\u00eds, s\u00f3 intensificou a <a href=\"https:\/\/peoplesdispatch.org\/2022\/12\/20\/we-are-here-to-support-our-president-peruvians-resist-the-coup\/\">exig\u00eancia do povo<\/a> de que a presidente Dina Boluarte renuncie. Boluarte foi empossada no dia 7 de dezembro, imediatamente ap\u00f3s o golpe contra Castillo. Em entrevistas e pronunciamentos, ela justificou o uso da for\u00e7a pela pol\u00edcia contra os manifestantes, classificando suas a\u00e7\u00f5es como \u201c<a href=\"https:\/\/www.expreso.com.pe\/politica\/dina-boluarte-sobre-actos-vandalicos-esto-ya-no-es-protesta-es-terrorismo\/\">terrorismo<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/larepublica.pe\/politica\/gobierno\/2023\/01\/02\/dina-boluarte-no-podemos-estar-poniendole-toda-la-responsabilidad-al-ejecutivo-sobre-muertes-en-protestas\/\">vandalismo<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>Huamani, tremendo e tentando segurar as l\u00e1grimas, me disse: \u201cEla \u00e9 uma presidente assassina e em Huamanga [prov\u00edncia em que se localiza Ayacucho] n\u00f3s n\u00e3o queremos ela, nem a reconhecemos como presidente, porque essa mulher ordenou que a pol\u00edcia e o ex\u00e9rcito atirasse contra n\u00f3s, peruanos. E essas balas, essas armas, foram de fato compradas por n\u00f3s, n\u00e3o pelo Ex\u00e9rcito, nem pelos soldados, mas pelo povo. \u00c9 realmente horr\u00edvel que eles nos matem\u201d.<\/p>\n<p>A ira sentida pelos habitantes de Ayacucho tamb\u00e9m est\u00e1 conectada ao hist\u00f3rico enfraquecimento da democracia peruana e \u00e0 exclus\u00e3o econ\u00f4mica sofrida pelas regi\u00f5es fora de Lima. Huamani explicou: \u201cEles tiraram nosso presidente [Castillo], ent\u00e3o isso n\u00e3o \u00e9 uma democracia. N\u00f3s n\u00e3o estamos numa democracia, estamos em [estado de] guerra, n\u00e3o s\u00f3 em Ayacucho e Huamanga, mas tamb\u00e9m em Arequipa, Apur\u00edmac e Cusco. Nessas regi\u00f5es estamos sofrendo com a pobreza, n\u00e3o podemos mais sobreviver, estamos morrendo de fome\u2026 E esses direitistas querem nos tornar escravos, mas n\u00e3o permitiremos, estamos respondendo e resistindo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Velhas chagas abertas<\/strong><\/p>\n<p>O dia 15 de dezembro n\u00e3o marca a primeira vez que civis em Ayacucho foram massacrados pelas For\u00e7as Armadas peruanas. Muitos daqueles presentes no dia 15 disseram que o tratamento de guerra recebido pelos pac\u00edficos manifestantes \u00e9 um reminiscente das <a href=\"https:\/\/www.amnesty.org\/en\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/amr460032004en.pdf\">duas d\u00e9cadas de conflito interno<\/a> que os peruanos enfrentaram h\u00e1 mais de 20 anos.<\/p>\n<p>\u201cEles ainda nos tratam como se fossemos todos terroristas\u201d, disse o familiar de uma das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Como parte da <a href=\"https:\/\/www.amnesty.org\/en\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/amr460032004en.pdf\">campanha<\/a> do Estado contra a guerrilha no Peru, dezenas de milhares de camponeses e ind\u00edgenas foram torturados, detidos, desaparecidos e assassinados, acusados de apoiarem ou de fazerem parte da insurg\u00eancia.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o de Ayacucho foi uma das mais afetadas. De acordo com <a href=\"https:\/\/www.cverdad.org.pe\/ifinal\/\">relat\u00f3rios<\/a> da Comiss\u00e3o de Verdade e Reconcilia\u00e7\u00e3o, que foi criada para investigar as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, das 69.280 v\u00edtimas estimadas do conflito interno peruano, de 1980 a 2000, 26 mil foram mortas ou desaparecidas por atores estatais ou grupos insurgentes em Ayacucho. Milhares de pessoas que fugiram de suas cidades para Ayacucho durante o conflito continuam a demandar justi\u00e7a e procurar por seus entes queridos.<\/p>\n<p>Uma destas pessoas \u00e9 <a href=\"https:\/\/ojo-publico.com\/4099\/el-violento-retorno-del-duelo-las-heridas-se-reabren-ayacucho\">Paula Aguilar Yucra<\/a>, com quem encontrei do lado de fora da reuni\u00e3o do CIDH. Como \u00e9 o caso com <a href=\"https:\/\/www.inei.gob.pe\/media\/MenuRecursivo\/publicaciones_digitales\/Est\/Lib1568\/05TOMO_01.pdf\">mais de 60% da popula\u00e7\u00e3o<\/a> de Ayacucho, o qu\u00e9chua \u00e9 sua primeira l\u00edngua. Aos 63 anos, ela \u00e9 membro da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Familiares de Sequestrados, Detidos e Desaparecidos do Peru (ANFASEP). Ela fugiu da comunidade rural de Usmay rumo a Ayacucho em 1984, ap\u00f3s sua m\u00e3e ser assassinada e seu irm\u00e3o ter sido levado por soldados e nunca mais encontrado.<\/p>\n<p>Quase 40 anos depois, ela mais uma vez est\u00e1 de luto. Seu neto, Jos\u00e9 Luis Aguilar Yucra, de 20 anos, pai de um menino de dois anos, foi morto no dia 15 de dezembro por um disparo na cabe\u00e7a enquanto tentava voltar do trabalho para casa.<\/p>\n<p>Em uma vig\u00edlia na tarde do dia 22 de dezembro, Paula se mantinha firme e de p\u00e9, ao lado de outros membros da ANFASEP, segurando um cartaz que lia \u201cLutar hoje n\u00e3o significa morrer amanh\u00e3\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 15 de dezembro de 2022, com helic\u00f3pteros voando sobre suas cabe\u00e7as, membros do Ex\u00e9rcito nacional do Peru mataram civis com balas reais na periferia da cidade de Ayacucho. 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