{"id":7241,"date":"2023-02-21T22:58:13","date_gmt":"2023-02-22T03:58:13","guid":{"rendered":"https:\/\/gtmportal.wpenginepowered.com\/2023\/02\/21\/the-french-are-going-but-the-war-in-the-sahel-continues\/"},"modified":"2023-05-31T08:09:47","modified_gmt":"2023-05-31T12:09:47","slug":"os-franceses-deixam-o-sahel-mas-a-guerra-continua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2023\/02\/21\/os-franceses-deixam-o-sahel-mas-a-guerra-continua\/","title":{"rendered":"Os franceses deixam o Sahel, mas a guerra continua"},"content":{"rendered":"<p>No dia 9 de fevereiro deste ano, cerca de 100 homens armados <a href=\"https:\/\/www.lemonde.fr\/en\/international\/article\/2023\/02\/13\/19-killed-in-burkina-faso-attacks_6015595_4.html\">se dirigiram<\/a> a Dembo, em Burkina Faso, em cima de motocicletas e picapes. Eles abriram fogo contra uma mil\u00edcia chamada Volunt\u00e1rios para a Defesa da P\u00e1tria (VDP, na sigla em ingl\u00eas), que atua ao lado das For\u00e7as Armadas burquinesas na prote\u00e7\u00e3o de \u00e1reas no noroeste do pa\u00eds, nas proximidades de sua fronteira com o Mali. Esses homens <a href=\"https:\/\/www.lemonde.fr\/en\/international\/article\/2023\/02\/13\/19-killed-in-burkina-faso-attacks_6015595_4.html\">mataram<\/a> sete membros da VDP. Tr\u00eas dias depois, no 12 de fevereiro, do outro lado de Burkina Faso, pr\u00f3ximo \u00e0 fronteira com Gana e Togo, homens armados entraram no departamento de Yargatenga e <a href=\"https:\/\/www.lemonde.fr\/en\/international\/article\/2023\/02\/13\/19-killed-in-burkina-faso-attacks_6015595_4.html\">mataram doze pessoas<\/a>, incluindo dois combatentes da VDP. Enquanto isso, em outro incidente, ocorrido ao longo da madrugada do dia 9 de fevereiro, na fronteira com o Mali, no norte de Burkina Faso, homens em motocicletas <a href=\"https:\/\/www.lemonde.fr\/afrique\/article\/2023\/02\/12\/burkina-faso-au-moins-douze-civils-tues-par-des-djihadistes-presumes-pres-du-mali_6161560_3212.html\">chegaram<\/a> no vilarejo de Sanakadougou e mataram outras doze pessoas, queimando casas e saqueando \u201cos poucos bens e gado que os alde\u00f5es tinham\u201d, como <a href=\"https:\/\/www.lemonde.fr\/afrique\/article\/2023\/02\/12\/burkina-faso-au-moins-douze-civils-tues-par-des-djihadistes-presumes-pres-du-mali_6161560_3212.html\">relatou<\/a> um sobrevivente \u00e0 <em>AFP.<\/em> Esses incidentes n\u00e3o s\u00e3o isolados. Eles se tornaram comuns em Burkina Faso, onde <a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/world-report\/2023\/country-chapters\/burkina-faso\">cerca de 40%<\/a> do territ\u00f3rio \u00e9 atualmente controlado por uma mir\u00edade de grupos armados que, a partir de 2012, come\u00e7aram a ter a regi\u00e3o do Sahel como alvo.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o Ibrahim Traor\u00e9, que lidera o governo burquin\u00eas, chegou ao poder por meio de um <a href=\"https:\/\/thisisafrica.me\/politics-and-society\/burkina-faso-ejects-french-troops\/\">golpe de Estado<\/a> em setembro de 2022. Ele derrubou o tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, que tamb\u00e9m havia chegado ao poder por meio de um golpe, em janeiro de 2022. Nenhum desses golpes foi uma surpresa. Ambos ocorreram ap\u00f3s os dois golpes no vizinho Mali (em <a href=\"https:\/\/peoplesdispatch.org\/2022\/02\/25\/france-withdraws-from-mali-but-continues-to-devastate-africas-sahel\/\">2020<\/a> e <a href=\"https:\/\/peoplesdispatch.org\/2022\/05\/12\/malis-military-ejects-france-but-faces-serious-challenges\/\">2021<\/a>), quando os militares tomaram o poder em um clima de frustra\u00e7\u00e3o com as incapacidade do governo civil de resolver o problema da viol\u00eancia armada. As mesmas din\u00e2micas que levaram o presidente interino do Mali, coronel Assimi Go\u00efta, ao poder, tamb\u00e9m levaram aos golpes sucessivos de Damiba e Traor\u00e9. Tem havido um aumento na press\u00e3o sobre os estabelecimentos militares no Mali e em Burkina Faso, controlados por homens na faixa dos 30 e 40 anos, para que acabem com a viol\u00eancia armada que, h\u00e1 10 anos, assola a regi\u00e3o. Parte da motiva\u00e7\u00e3o para esses golpes foi o desejo de eliminar a presen\u00e7a do ex\u00e9rcito franc\u00eas, que interveio na regi\u00e3o do Sahel em 2013 para acabar com a viol\u00eancia, mas que \u2013 segundo a opini\u00e3o geral \u2013 teve uma participa\u00e7\u00e3o ativa em aument\u00e1-la ainda mais. Em maio de 2022, Go\u00efta <a href=\"https:\/\/peoplesdispatch.org\/2022\/05\/12\/malis-military-ejects-france-but-faces-serious-challenges\/\">ordenou que os franceses se retirassem<\/a> do Mali, medida que Traor\u00e9 <a href=\"https:\/\/peoplesdispatch.org\/2023\/01\/25\/burkina-faso-ejects-french-troops\/\">repetiu<\/a> em janeiro de 2023 em Burkina Faso.<\/p>\n<p><strong>Homens armados<\/strong><\/p>\n<p>Quando a guerra civil na Arg\u00e9lia (1991-2002) terminou, membros do Grupo Isl\u00e2mico Armado da Arg\u00e9lia (GIA) fugiram rumo ao sul e estabeleceram bases no Mali, N\u00edger e no sul da L\u00edbia. As tentativas do GIA de retomar a guerra falharam, uma vez que a popula\u00e7\u00e3o argelina estava exausta ap\u00f3s uma guerra civil de uma d\u00e9cada de dura\u00e7\u00e3o. Em 2007, alguns elementos radicalizados do GIA <a href=\"https:\/\/www.cfr.org\/backgrounder\/al-qaeda-islamic-maghreb\">formaram<\/a> a Al-Qaeda no Magrebe Isl\u00e2mico (AQIM) que \u2013 como eu vi em primeira m\u00e3o no norte do Sahel \u2013 se tornou uma parte integral das redes de contrabando ao longo do Saara. Os membros da AQIM come\u00e7aram a trabalhar com um grupo chamado Movimento pela a Unidade e a Jihad na \u00c1frica Ocidental (MOJWA), liderado por <a href=\"https:\/\/www.un.org\/securitycouncil\/sanctions\/1267\/aq_sanctions_list\/summaries\/individual\/hamada-ould-mohamed-el-khairy\">Hamada Ould Mohamed El Khairy<\/a>. O cen\u00e1rio mudou completamente para esses grupos com a guerra da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) contra a L\u00edbia em 2011, que <a href=\"https:\/\/www.akpress.org\/arabspringlibyanwinter.html\">destruiu o estado l\u00edbio<\/a> e deu r\u00e9dea solta a grupos alinhados \u00e0 Al-Qaeda na regi\u00e3o (muitos deles agora est\u00e3o sendo armados por aliados \u00e1rabes da OTAN no Golfo). Em 2012, a AQIM ofereceu apoio a muitos dos \u00e1rabes que foram trazidos para a L\u00edbia durante a guerra, <a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/features\/2013\/1\/17\/making-sense-of-malis-armed-groups\">bem como<\/a> a grupos tuaregues do norte do Sahel que vinham perseguindo seus <a href=\"https:\/\/www.newsclick.in\/habits-french-colonialism\">pr\u00f3prios objetivos territoriais<\/a> contra o governo do Mali.<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a, que liderou a guerra da OTAN contra a L\u00edbia, interveio militarmente no Mali para <a href=\"http:\/\/thisisafrica.me\/politics-and-society\/is-russia-really-the-reason-why-mali-continues-to-push-france-away\/\">bloquear<\/a> o r\u00e1pido movimento dessas for\u00e7as jihadistas para o sul, em dire\u00e7\u00e3o a Bamako, capital do Mali. A <a href=\"https:\/\/www.france24.com\/en\/20140111-france-mali-military-intervention-operation-serval-anniversary-timeline\">Opera\u00e7\u00e3o Serval<\/a>, nome da primeira miss\u00e3o francesa, empurrou essas for\u00e7as para fora das principais cidades do centro de Mali. O ent\u00e3o presidente franc\u00eas Fran\u00e7ois Hollande visitou Bamako para celebrar essas vit\u00f3rias em 2013, <a href=\"https:\/\/www.france24.com\/fr\/20130202-liveblogging-mali-visite-francois-hollande-direct-armee-islamistes-bamako-sevare-serval\">mas disse<\/a> que \u201ca luta n\u00e3o acabou\u201d. Assim, a Fran\u00e7a iniciou a <a href=\"https:\/\/www.economist.com\/the-economist-explains\/2022\/02\/14\/what-have-french-forces-achieved-in-the-sahel\">Opera\u00e7\u00e3o Barkhane<\/a>, que se expandiu ao longo da regi\u00e3o do Sahel e passou a operar junto \u00e0 maci\u00e7a presen\u00e7a militar estadunidense na regi\u00e3o (que <a href=\"https:\/\/www.thehindu.com\/life-and-style\/travel\/notes-from-the-desert\/article22259967.ece\">inclui<\/a> uma das maiores bases militares do mundo, em Agadez, no N\u00edger, n\u00e3o muito longe da guarni\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a na mina de ur\u00e2nio em Arlit, tamb\u00e9m no N\u00edger). A incapacidade da Fran\u00e7a de deter a investida desses grupos armados no cora\u00e7\u00e3o do Sahel levou, em grande parte, ao aumento do <a href=\"https:\/\/peoplesdispatch.org\/2022\/05\/19\/is-this-the-end-of-the-french-project-in-africas-sahel\/\">sentimento anti-franc\u00eas<\/a> na regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Enraizado no campo<\/strong><\/p>\n<p>Em <a href=\"https:\/\/ecfr.eu\/special\/sahel_mapping\/jnim\">mar\u00e7o de 2017<\/a>, muitos desses grupos isl\u00e2micos armados afiliados \u00e0 Al-Qaeda formaram o Grupo de Apoio ao Isl\u00e3 e Mu\u00e7ulmanos (JNIM), cujo l\u00edder, Iyad Ag Ghali, havia participado da luta tuaregue contra o estado malin\u00eas (em 1988, ele <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Iyad_Ag_Ghaly\">fundou<\/a> o Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Azauade). O JNIM se estabeleceu entre as lutas locais da regi\u00e3o, se aproveitando da sensibilidade separatista do povo tuaregue e dos <a href=\"https:\/\/malizine.com\/2017\/03\/24\/segou-djihadistes-de-kouffa-ont-tue-10-miliciens-dozo\/\">enfrentamentos<\/a> dos fulani com os bambara do centro do pa\u00eds. Um ano depois da funda\u00e7\u00e3o do JNIM, um de seus emires, Yahya Abu al-Hammam, divulgou uma <a href=\"https:\/\/jihadology.net\/2018\/03\/17\/new-video-message-from-jamaat-nu%e1%b9%a3rat-al-islam-wa-l-muslimins-ya%e1%b8%a5ya-abu-al-hamam-and-with-patience-you-win\/\">mensagem em v\u00eddeo<\/a> dizendo que a retirada da Fran\u00e7a para as cidades deixou o campo nas m\u00e3os do JNIM e suas for\u00e7as aliadas, que vencer\u00e3o \u201ccom paci\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Ao se enraizarem nas redes de contrabando e nos conflitos locais por terra e recursos, os diversos grupos armados afiliados \u00e0 Al-Qaeda se tornaram um alvo dif\u00edcil. Os novos governos no Mali e em Burkina Faso acusam os franceses tanto de terem levado estas guerras da L\u00edbia at\u00e9 seus territ\u00f3rios, como de exacerb\u00e1-las ao fazer acordos com grupos armados para evitar ataques contra bases militares francesas. Ao inv\u00e9s de acabar com a insurg\u00eancia, a guerra francesa na regi\u00e3o deu lugar \u00e0 <a href=\"https:\/\/acleddata.com\/2023\/01\/13\/actor-profile-the-islamic-state-sahel-province\/\">cria\u00e7\u00e3o da prov\u00edncia do Sahel do Estado Isl\u00e2mico<\/a>, em mar\u00e7o de 2022, com a extens\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es do grupo nas prov\u00edncias burquinesas de Oudalan e Seno, nas regi\u00f5es mainenses de Gao e M\u00e9naka, e nas zonas nigerianas de Tahoua e Tillaberi. Agora, a Fran\u00e7a parte, deixando para tr\u00e1s governos militares mal equipados para lidar com o que parece ser uma guerra sem fim.<\/p>\n<p><strong>R\u00fassia<\/strong><\/p>\n<p>Em dezembro de 2022, o primeiro-ministro de Burkina Faso, Apollinaire Ky\u00e9lem de Tamb\u00e8la, <a href=\"https:\/\/maliactu.net\/les-raisons-de-la-visite-privee-du-premier-ministre-burkinabe-a-moscou\/\">visitou<\/a> Moscou, <a href=\"https:\/\/allafrica.com\/stories\/202301120016.html\">aparentemente<\/a> em busca de assist\u00eancia da R\u00fassia na guerra contra a insurg\u00eancia da Al-Qaeda. Durante sua visita, ele <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/watch\/?v=2317685505067711\">disse<\/a> \u00e0 <em>RT<\/em> que havia visitado a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1988, e que lamentava que as rela\u00e7\u00f5es russo-burquinesas tenham se enfraquecido. \u00c9 prov\u00e1vel que mais apoio russo chegar\u00e1 a esses pa\u00edses, provocando uma rea\u00e7\u00e3o do Ocidente, embora seja improv\u00e1vel que esse apoio do Kremlin consiga ajudar o Sahel a superar o arraigado conjunto de conflitos que perturbam a regi\u00e3o, desencadeados sob a supervis\u00e3o colonial da Fran\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 9 de fevereiro deste ano, cerca de 100 homens armados se dirigiram a Dembo, em Burkina Faso, em cima de motocicletas e picapes. 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