{"id":13395,"date":"2026-08-29T08:08:38","date_gmt":"2026-08-29T12:08:38","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=13395"},"modified":"2026-08-31T12:44:50","modified_gmt":"2026-08-31T16:44:50","slug":"o-brasil-nao-deve-entregar-seus-minerais-criticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2026\/08\/29\/o-brasil-nao-deve-entregar-seus-minerais-criticos\/","title":{"rendered":"O Brasil n\u00e3o deve entregar seus minerais cr\u00edticos"},"content":{"rendered":"<p>Em Mina\u00e7u, na regi\u00e3o norte do estado brasileiro de Goi\u00e1s, a paisagem carrega as marcas de uma antiga corrida aos min\u00e9rios. Durante d\u00e9cadas, a cidade dependia da mina de amianto Cana Brava, cuja prosperidade era indissoci\u00e1vel do surgimento de doen\u00e7as letais e de um longo hist\u00f3rico de danos ambientais. Agora, Mina\u00e7u foi incorporada a outra promessa de futuro. Na mina Pela Ema, a empresa Serra Verde extrai elementos de terras raras necess\u00e1rios para motores el\u00e9tricos, turbinas e\u00f3licas, eletr\u00f4nicos avan\u00e7ados e sistemas de armamento. O mineral mudou, mas o perigo \u00e9 que a antiga estrutura de depend\u00eancia permane\u00e7a intacta.<\/p>\n<p>O Brasil possui aproximadamente 23% das reservas conhecidas de terras raras do mundo, ficando atr\u00e1s apenas da China. No entanto, \u00e9 respons\u00e1vel por apenas 1% da produ\u00e7\u00e3o e carece de uma cadeia industrial integrada capaz de separar elementos de terras raras, convert\u00ea-los em metais e ligas e fabricar \u00edm\u00e3s permanentes. O pa\u00eds det\u00e9m a riqueza geol\u00f3gica, enquanto outros buscam controlar a tecnologia, o financiamento, o processamento e os mercados.<\/p>\n<p>Essa contradi\u00e7\u00e3o est\u00e1 no cerne do debate brasileiro sobre minerais cr\u00edticos. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se os minerais devem ou n\u00e3o ser extra\u00eddos, embora toda mina proposta deva passar por um rigoroso escrut\u00ednio ambiental e social. A quest\u00e3o pol\u00edtica imediata \u00e9 se o Brasil utilizar\u00e1 esses recursos para construir capacidade tecnol\u00f3gica e industrial soberana ou se se tornar\u00e1, mais uma vez, um exportador de mat\u00e9rias-primas pouco processadas.<\/p>\n<p>A press\u00e3o est\u00e1 aumentando rapidamente. A empresa USA Rare Earth, apoiada pelos Estados Unidos, firmou um acordo definitivo para<a href=\"https:\/\/investors.usare.com\/news-releases\/news-release-details\/usa-rare-earth-announces-definitive-agreement-acquire-serra\"> adquirir<\/a> a Serra Verde por aproximadamente 2,8 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. O governo dos EUA disponibilizou 750 milh\u00f5es de d\u00f3lares para a transa\u00e7\u00e3o e se comprometeu a comprar centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares da produ\u00e7\u00e3o futura. A mina Pela Ema, da Serra Verde, \u00e9 especialmente atraente porque suas argilas i\u00f4nicas cont\u00eam dispr\u00f3sio e t\u00e9rbio, elementos de terras raras pesadas vitais para \u00edm\u00e3s de alto desempenho e equipamentos militares. Washington n\u00e3o considera isso um investimento comercial normal; ao contr\u00e1rio, v\u00ea a Serra Verde como parte de uma estrat\u00e9gia dirigida pelo Estado para construir uma cadeia de suprimentos fora da China.<\/p>\n<p>Enquanto isso, as empresas de minera\u00e7\u00e3o australianas acumularam extensos direitos minerais em Minas Gerais e na Bahia. A Viridis Mining and Minerals controla o projeto Colossus na regi\u00e3o de Po\u00e7os de Caldas, enquanto a Meteoric Resources det\u00e9m o enorme projeto Caldeira na mesma regi\u00e3o geol\u00f3gica. Na Bahia, a Brazilian Rare Earths \u2013 apesar do nome, uma empresa listada na bolsa australiana \u2013 est\u00e1 desenvolvendo o projeto Borborema. J\u00e1 est\u00e1 bem<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2026\/08\/lula-cobra-aprovacao-rapida-de-lei-de-minerais-criticos-apos-avanco-de-estrangeiros-em-4-projetos-de-terras-raras.shtml\"> documentado<\/a> que empresas estrangeiras est\u00e3o correndo para adquirir concess\u00f5es antes que o pa\u00eds estabele\u00e7a regras mais r\u00edgidas sobre minerais estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>A geografia dessa corrida n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3ria. Uma<a href=\"https:\/\/observatoriodamineracao.com.br\/terras-raras-ameacam-assentamentos-no-nordeste-e-em-goias-incluindo-area-que-conserva-o-mais-antigo-pau-brasil-do-pais\/\"> investiga\u00e7\u00e3o<\/a> do Observat\u00f3rio da Minera\u00e7\u00e3o identificou 187 processos de minera\u00e7\u00e3o de terras raras que se sobrep\u00f5em a 96 assentamentos da reforma agr\u00e1ria em cinco estados. Somente a Serra Verde possu\u00eda 37 processos ativos que afetavam oito assentamentos em Goi\u00e1s. Em Nova Roma, o projeto Carina da Aclara Resources, listada na bolsa canadense, inicialmente se sobrepunha ao territ\u00f3rio da comunidade quilombola Fam\u00edlia Magalh\u00e3es. Nas proximidades fica o territ\u00f3rio Kalunga, lar de cerca de 5 mil pessoas e reconhecido como o maior territ\u00f3rio quilombola do Brasil. Autoriza\u00e7\u00f5es de minera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se sobrepuseram \u00e0s terras Kalunga.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o de Pela Ema, fam\u00edlias rurais<a href=\"https:\/\/oeco.org.br\/reportagens\/maquiada-de-verde-mineracao-de-terras-raras-impacta-territorios-e-amplia-conflitos-pela-agua-em-goias\/\"> relataram<\/a> mudan\u00e7as na cor e no volume dos riachos, decl\u00ednio nas popula\u00e7\u00f5es de peixes e problemas reprodutivos entre o gado. Inspe\u00e7\u00f5es realizadas por \u00f3rg\u00e3os ambientais estaduais e federais confirmaram a polui\u00e7\u00e3o no C\u00f3rrego Areia e concentra\u00e7\u00f5es de subst\u00e2ncias, incluindo mangan\u00eas, acima dos padr\u00f5es para consumo humano. O c\u00f3rrego des\u00e1gua no sistema do Cana Brava, que abastece Mina\u00e7u e sustenta a pesca, a agricultura e o turismo.<\/p>\n<p>Esses custos devem ser comparados ao que o Brasil<a href=\"https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/redacao\/2026\/08\/28\/terras-raras.ghtm\"> ret\u00e9m<\/a>. A Serra Verde produz carbonato misto de terras raras, no qual os elementos valiosos permanecem combinados. As etapas tecnologicamente complexas \u2013 separar \u00f3xidos individuais, produzir metais e ligas e fabricar \u00edm\u00e3s \u2013 ocorrem no exterior. O Brasil recebe uma mina, escavadeiras, equipamentos de processamento, alguns empregos, impostos e as responsabilidades ambientais. As ind\u00fastrias de maior valor agregado, as patentes, os empregos t\u00e9cnicos qualificados e o controle estrat\u00e9gico migram para os Estados Unidos e a Europa.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas da falta de uma f\u00e1brica. A separa\u00e7\u00e3o \u00e9 o ponto-chave da ind\u00fastria de terras raras. Como os dezessete elementos de terras raras possuem propriedades qu\u00edmicas semelhantes, separ\u00e1-los requer sistemas hidrometal\u00fargicos complexos, etapas repetidas de extra\u00e7\u00e3o por solvente, conhecimento especializado e gest\u00e3o rigorosa da \u00e1gua e dos res\u00edduos qu\u00edmicos. A produ\u00e7\u00e3o de \u00edm\u00e3s acrescenta ainda mais barreiras metal\u00fargicas e de engenharia. Um pa\u00eds que exporta carbonato misto, mas importa \u00edm\u00e3s, n\u00e3o garantiu uma cadeia de suprimentos de terras raras. Ele garantiu apenas o segmento mais destrutivo para o meio ambiente e menos avan\u00e7ado tecnologicamente da cadeia.<\/p>\n<p>Empresas estrangeiras enfatizam que as argilas i\u00f4nicas brasileiras podem ser trabalhadas com maquin\u00e1rio relativamente barato. Dep\u00f3sitos pr\u00f3ximos \u00e0 superf\u00edcie podem ser extra\u00eddos sem a infraestrutura subterr\u00e2nea de alto custo exigida por outras minas. O min\u00e9rio \u00e9 extra\u00eddo, transportado, lavado, lixiviado e parcialmente concentrado. Tais projetos s\u00e3o atraentes justamente porque as empresas podem explorar terras e \u00e1gua em abund\u00e2ncia, enquanto transferem as etapas tecnologicamente sofisticadas para outros locais.<\/p>\n<p>O \u201cbaixo custo\u201d \u00e9, em parte, uma fic\u00e7\u00e3o cont\u00e1bil. As m\u00e1quinas s\u00e3o baratas porque a empresa n\u00e3o arca com o custo total de um aqu\u00edfero danificado, um c\u00f3rrego polu\u00eddo, uma encosta erodida, uma comunidade agr\u00edcola deslocada ou d\u00e9cadas de monitoramento da sa\u00fade p\u00fablica. Essas s\u00e3o externalidades: despesas retiradas do balan\u00e7o patrimonial da empresa e transferidas para fam\u00edlias, munic\u00edpios e gera\u00e7\u00f5es futuras. A \u00e1gua \u00e9 tratada como um insumo industrial, mesmo quando \u00e9 a base de toda uma ecologia social.<\/p>\n<p>Esse modelo tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 tecnologicamente inevit\u00e1vel. A ascens\u00e3o da China no setor de terras raras come\u00e7ou com pr\u00e1ticas de minera\u00e7\u00e3o altamente prejudiciais, incluindo a lixivia\u00e7\u00e3o extensiva com sal de am\u00f4nio. Desde ent\u00e3o, pesquisadores e institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas chinesas t\u00eam<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41893-022-00989-3\"> investido<\/a> na redu\u00e7\u00e3o desses danos. Uma equipe de cientistas chineses desenvolveu a minera\u00e7\u00e3o eletrocin\u00e9tica, que usa campos el\u00e9tricos controlados para mover \u00edons de terras raras atrav\u00e9s de argila intemperizada. Testes iniciais relataram uma recupera\u00e7\u00e3o 2,6 vezes maior, uma redu\u00e7\u00e3o de 80% nos agentes de lixivia\u00e7\u00e3o e 70% menos impurezas met\u00e1licas do que as t\u00e9cnicas convencionais.<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica j\u00e1 saiu do laborat\u00f3rio. Um teste chin\u00eas em escala industrial<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41893-024-01501-9\"> realizado<\/a> com 5 mil toneladas de min\u00e9rio alcan\u00e7ou 95% de recupera\u00e7\u00e3o de terras raras, ao mesmo tempo em que reduziu as emiss\u00f5es de am\u00f4nia em 95%. Seus desenvolvedores tamb\u00e9m constataram que o m\u00e9todo \u00e9 economicamente vi\u00e1vel em compara\u00e7\u00e3o com a extra\u00e7\u00e3o convencional.<\/p>\n<p>A extra\u00e7\u00e3o eletrocin\u00e9tica n\u00e3o \u00e9 isenta de impactos, nem substitui as ind\u00fastrias de separa\u00e7\u00e3o e de \u00edm\u00e3s. Mas ela demonstra um ponto importante: n\u00e3o h\u00e1 justificativa t\u00e9cnica para o Brasil aceitar os sistemas de extra\u00e7\u00e3o ultrapassados, que consomem muita \u00e1gua e desperdi\u00e7am produtos qu\u00edmicos, enquanto propriet\u00e1rios estrangeiros reservam para si mesmos a pesquisa avan\u00e7ada, o refino e a fabrica\u00e7\u00e3o. A tecnologia escolhida para uma mina \u00e9 uma decis\u00e3o pol\u00edtica sobre quem arca com os custos e quem adquire o conhecimento.<\/p>\n<p>O presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2026\/08\/lula-cobra-aprovacao-rapida-de-lei-de-minerais-criticos-apos-avanco-de-estrangeiros-em-4-projetos-de-terras-raras.shtml\"> instou<\/a> o Congresso a acelerar a legisla\u00e7\u00e3o que estabelece uma pol\u00edtica nacional para minerais cr\u00edticos e estrat\u00e9gicos. A estrutura proposta criaria um conselho nacional, ampliaria a autoridade do Estado para avaliar investimentos estrangeiros e incentivaria o processamento no pa\u00eds. Esses s\u00e3o passos iniciais necess\u00e1rios, mas o incentivo por si s\u00f3 n\u00e3o ser\u00e1 suficiente.<\/p>\n<p>O presidente Lula afirmou que o Brasil precisa de controle p\u00fablico sobre informa\u00e7\u00f5es minerais e dep\u00f3sitos estrat\u00e9gicos; restri\u00e7\u00f5es \u00e0s aquisi\u00e7\u00f5es estrangeiras; separa\u00e7\u00e3o e refino obrigat\u00f3rios no pa\u00eds; requisitos de transfer\u00eancia de tecnologia; investimento p\u00fablico por meio do BNDES, universidades, Petrobras, Servi\u00e7o Geol\u00f3gico Nacional e institutos de pesquisa especializados; e metas vinculativas para a produ\u00e7\u00e3o brasileira de \u00f3xidos, ligas, \u00edm\u00e3s, baterias e outros produtos acabados. O licenciamento ambiental deve incluir os impactos cumulativos nas bacias hidrogr\u00e1ficas, e n\u00e3o apenas a pegada de cada mina individualmente. As comunidades quilombolas, ind\u00edgenas e da reforma agr\u00e1ria devem ter o direito exig\u00edvel \u00e0 consulta pr\u00e9via, livre e informada. O Brasil pode construir sua pr\u00f3pria capacidade p\u00fablica de pesquisa, aprendizado tecnol\u00f3gico e industrial por meio da coopera\u00e7\u00e3o com institutos e empresas de lugares como a China.<\/p>\n<p>Os minerais cr\u00edticos s\u00e3o chamados assim porque est\u00e3o no centro do poder industrial contempor\u00e2neo. Se o Brasil permitir que empresas estrangeiras sejam propriet\u00e1rias dos dep\u00f3sitos, escolham tecnologias extrativas obsoletas, exportem concentrados mistos e mantenham as patentes e a fabrica\u00e7\u00e3o no exterior, ent\u00e3o nada de fundamental ter\u00e1 mudado desde a \u00e9poca colonial. A soberania come\u00e7a quando a riqueza sob o solo brasileiro \u00e9 convertida em conhecimento, ind\u00fastria e uma vida digna para as pessoas que vivem sobre ele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Mina\u00e7u, na regi\u00e3o norte do estado brasileiro de Goi\u00e1s, a paisagem carrega as marcas de uma antiga corrida aos min\u00e9rios. Durante d\u00e9cadas, a cidade dependia da mina de amianto Cana Brava, cuja prosperidade era indissoci\u00e1vel do surgimento de doen\u00e7as letais e de um longo hist\u00f3rico de danos ambientais. 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