{"id":13361,"date":"2026-08-24T11:10:58","date_gmt":"2026-08-24T15:10:58","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=13361"},"modified":"2026-08-27T08:51:41","modified_gmt":"2026-08-27T12:51:41","slug":"o-ira-esta-sendo-levado-ao-limiar-nuclear","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2026\/08\/24\/o-ira-esta-sendo-levado-ao-limiar-nuclear\/","title":{"rendered":"O Ir\u00e3 est\u00e1 sendo levado ao limiar nuclear"},"content":{"rendered":"<p>O mais grave perigo na guerra atual n\u00e3o \u00e9 que o Ir\u00e3 j\u00e1 esteja decidido a fabricar uma arma nuclear. N\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias comprovadas de tal decis\u00e3o. O perigo \u00e9 que uma nova escalada significativa por parte dos EUA possa convencer Teer\u00e3 de que permanecer como um Estado n\u00e3o nuclear no \u00e2mbito do Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o (TNP) n\u00e3o oferece mais prote\u00e7\u00e3o, reconhecimento ou mesmo a seguran\u00e7a b\u00e1sica que o tratado deveria garantir. Washington pode, portanto, provocar exatamente o resultado que alega estar tentando evitar.<\/p>\n<p>O Ir\u00e3 est\u00e1 se aproximando de sua linha vermelha no TNP. A retirada do tratado n\u00e3o \u00e9 mais discutida meramente como uma repres\u00e1lia ret\u00f3rica. Institui\u00e7\u00f5es iranianas, incluindo o parlamento, t\u00eam analisado essa possibilidade como uma resposta pr\u00e1tica aos ataques contra instala\u00e7\u00f5es nucleares sob salvaguardas, \u00e0 falha da Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica (AIEA) em condenar tais ataques e \u00e0 suspeita de que informa\u00e7\u00f5es coletadas por meio de inspe\u00e7\u00f5es tenham sido utilizadas nos processos de sele\u00e7\u00e3o de alvos por parte dos EUA e de Israel. No final de mar\u00e7o de 2026, um projeto de lei de tripla urg\u00eancia propondo a retirada do Ir\u00e3 do TNP foi<a href=\"https:\/\/www.tasnimnews.ir\/fa\/news\/1405\/01\/10\/3552338\/%D8%B7%D8%B1%D8%AD-%D8%AE%D8%B1%D9%88%D8%AC-%D8%A7%D8%B2-npt-%D8%AF%D8%B1-%D9%85%D8%AC%D9%84%D8%B3-%D8%A8%D8%A7%D8%B2%D9%86%DA%AF%D8%B1%DB%8C-%D8%AF%D8%B1-%D8%AA%D8%B9%D9%87%D8%AF%D8%A7%D8%AA-%D8%A8%DB%8C%D9%86-%D8%A7%D9%84%D9%85%D9%84%D9%84%DB%8C\"> enviado<\/a> ao sistema legislativo do parlamento iraniano, embora ainda n\u00e3o tivesse sido debatido nem aprovado.<\/p>\n<p>O TNP permite a retirada quando um Estado<a href=\"https:\/\/treaties.un.org\/doc\/Publication\/UNTS\/Volume%20729\/v729.pdf\"> conclui<\/a> que \u201ceventos extraordin\u00e1rios\u201d comprometeram seus interesses supremos. O Ir\u00e3 pode argumentar, de forma plaus\u00edvel, que o bombardeio de suas instala\u00e7\u00f5es nucleares por Estados detentores de armas nucleares constitui exatamente esse tipo de evento. Autoridades iranianas que defendem a retirada t\u00eam enfatizado que tal medida n\u00e3o significaria necessariamente a decis\u00e3o de fabricar uma bomba. Alaeddin Boroujderdi, membro da Comiss\u00e3o de Seguran\u00e7a Nacional e Pol\u00edtica Externa do Parlamento do Ir\u00e3,<a href=\"https:\/\/www.irna.ir\/news\/86114094\/%D8%A8%D8%B1%D9%88%D8%AC%D8%B1%D8%AF%DB%8C-%D8%B2%D9%85%D8%A7%D9%86-%D8%AE%D8%B1%D9%88%D8%AC-%D8%A7%DB%8C%D8%B1%D8%A7%D9%86-%D8%A7%D8%B2-NPT-%D9%81%D8%B1%D8%A7-%D8%B1%D8%B3%DB%8C%D8%AF%D9%87-%D8%A7%D8%B3%D8%AA\"> argumentou<\/a> em mar\u00e7o de 2026 que o Ir\u00e3 deveria deixar o TNP, ao mesmo tempo em que insistia: \u201cN\u00e3o estamos buscando uma bomba nuclear\u201d. Tal medida, no entanto, encerraria ou reduziria radicalmente o sistema de inspe\u00e7\u00e3o por meio do qual a AIEA monitora o material nuclear do Ir\u00e3. Essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 juridicamente significativa, mas estrategicamente fr\u00e1gil. Uma vez que o Ir\u00e3 tenha sa\u00eddo do tratado, restringido o acesso dos inspetores e aumentado o enriquecimento, outros governos necessariamente presumir\u00e3o que o pa\u00eds est\u00e1 preparando uma arma.<\/p>\n<p>Uma reportagem do Transition Protocol <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@Transition_Protocol\">mostra<\/a> que o Ir\u00e3 decidiu elevar o enriquecimento de seu estoque de ur\u00e2nio para 90%. O Ir\u00e3 havia acumulado cerca de 440 kg de ur\u00e2nio enriquecido a 60% antes que os inspetores perdessem a capacidade de determinar a localiza\u00e7\u00e3o e as condi\u00e7\u00f5es de todo o estoque. O ur\u00e2nio enriquecido a 60% j\u00e1 est\u00e1 muito al\u00e9m do n\u00edvel normalmente exigido para a gera\u00e7\u00e3o de energia civil, embora n\u00e3o seja, por si s\u00f3, uma arma nuclear. Enriquecer esse material a aproximadamente 90% o colocaria na faixa convencionalmente descrita como de grau b\u00e9lico.<\/p>\n<p>Fontes no Ir\u00e3 afirmam que as autoridades iranianas instru\u00edram o complexo nuclear a se preparar para processar grande parte desse material at\u00e9 90% caso os Estados Unidos intensifiquem novamente as tens\u00f5es.<\/p>\n<p>O enriquecimento de ur\u00e2nio, sua convers\u00e3o para uma forma adequada, a constru\u00e7\u00e3o de um dispositivo explosivo e o desenvolvimento de uma arma utiliz\u00e1vel s\u00e3o etapas relacionadas, mas distintas. No entanto, se as informa\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia forem precisas, a dire\u00e7\u00e3o \u00e9 inequ\u00edvoca. Outro grande ataque dos EUA poderia levar o Ir\u00e3 a abandonar o TNP, enriquecer ur\u00e2nio at\u00e9 o grau b e avan\u00e7ar para a dissuas\u00e3o limite.<\/p>\n<p>Teer\u00e3 poderia ent\u00e3o montar um dispositivo sem test\u00e1-lo, ou realizar uma detona\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea ou demonstrativa para eliminar qualquer d\u00favida de que havia ultrapassado o limiar. Tal detona\u00e7\u00e3o constituiria uma etapa inteiramente nova na hist\u00f3ria da \u00c1sia Ocidental. Mas seria a consequ\u00eancia de uma guerra existencial, n\u00e3o uma evid\u00eancia de que o Ir\u00e3 sempre tivesse secretamente pretendido chegar a esse ponto.<\/p>\n<p><b>Coreia vs. L\u00edbia<\/b><\/p>\n<p>A escolha que os estrategistas iranianos enfrentam \u00e9 cada vez mais descrita por meio de dois precedentes: a Rep\u00fablica Popular Democr\u00e1tica da Coreia (RPDC) e a L\u00edbia.<\/p>\n<p>A L\u00edbia renunciou aos seus programas nucleares e de m\u00edsseis, ainda em fase embrion\u00e1ria, em 2003. Transferiu equipamentos e documentos para os Estados Unidos, aceitou inspe\u00e7\u00f5es intrusivas e buscou normalizar as rela\u00e7\u00f5es com o Ocidente. Washington e Londres apresentaram a decis\u00e3o de Muammar Gaddafi como prova de que o desarmamento traria seguran\u00e7a e reabilita\u00e7\u00e3o internacional. Oito anos depois, a OTAN utilizou uma resolu\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas ostensivamente destinada a proteger civis para conduzir uma guerra com o objetivo de mudar o regime. O Estado l\u00edbio foi destru\u00eddo, e Gaddafi foi capturado e morto.<\/p>\n<p>A RPDC seguiu o caminho oposto. Retirou-se do TNP em 2003, testou um dispositivo nuclear em 2006 e desenvolveu gradualmente uma capacidade nuclear e de m\u00edsseis capaz de resistir a ataques. A Coreia do Norte tem suportado san\u00e7\u00f5es, isolamento, exerc\u00edcios militares e amea\u00e7as repetidas. No entanto, nenhum governo dos EUA tentou uma invas\u00e3o em grande escala ou uma guerra para mudan\u00e7a de regime contra ela. Washington<a href=\"https:\/\/countercurrents.org\/2026\/08\/why-north-korea-rejected-trumps-peace-gesture\/\"> negocia<\/a> com Pyongyang em condi\u00e7\u00f5es fundamentalmente diferentes daquelas que imp\u00f4s a Bagd\u00e1, Tr\u00edpoli ou Teer\u00e3, porque as consequ\u00eancias de um ataque \u00e0 RPDC n\u00e3o podem ser controladas com seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o extra\u00edda em Teer\u00e3, Pyongyang e em outros lugares \u00e9 devastadoramente simples: Gaddafi abriu m\u00e3o de seu meio de dissuas\u00e3o, abriu seu pa\u00eds e n\u00e3o recebeu nenhuma garantia duradoura contra um ataque ocidental. Sua conformidade removeu um obst\u00e1culo \u00e0 mudan\u00e7a de regime, em vez de garantir a soberania da L\u00edbia. Isso n\u00e3o significa um endosso \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o nuclear. As armas nucleares s\u00e3o instrumentos de destrui\u00e7\u00e3o em massa, e sua aboli\u00e7\u00e3o continua sendo uma necessidade humana. \u00c9 uma explica\u00e7\u00e3o do c\u00e1lculo estrat\u00e9gico gerado pela conduta ocidental. As pot\u00eancias nucleares falharam em cumprir o acordo de desarmamento do TNP, protegeram o arsenal nuclear n\u00e3o declarado de Israel, atacaram Estados n\u00e3o nucleares e exigiram que advers\u00e1rios selecionados permanecessem permanentemente vulner\u00e1veis. Elas transformaram a posse de armas nucleares na ap\u00f3lice de seguro mais confi\u00e1vel contra uma derrubada for\u00e7ada.<\/p>\n<p>O Ir\u00e3 resistiu, at\u00e9 agora, a essa l\u00f3gica. Sua posi\u00e7\u00e3o oficial continua sendo a de que as armas nucleares s\u00e3o religiosamente proibidas, militarmente desnecess\u00e1rias e incompat\u00edveis com sua doutrina declarada. O ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Abbas Araghchi, reiterou, ap\u00f3s ataques anteriores, que o Ir\u00e3 n\u00e3o havia abandonado essa pol\u00edtica e continuava a considerar a produ\u00e7\u00e3o, o armazenamento e o uso de armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa como desumanos e anti-isl\u00e2micos. Ele tamb\u00e9m explicou que o Ir\u00e3 elevou o enriquecimento para 60% para demonstrar que amea\u00e7as e press\u00f5es n\u00e3o o levariam \u00e0 capitula\u00e7\u00e3o. No entanto, as doutrinas n\u00e3o est\u00e3o imunes a mudan\u00e7as nas circunst\u00e2ncias concretas. Se um Estado for repetidamente atacado enquanto respeita uma proibi\u00e7\u00e3o, e se seus agressores discutirem abertamente a<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=pHwZBFCuAxc\"> destrui\u00e7\u00e3o<\/a> de seu governo (mesmo com armas nucleares), seus l\u00edderes inevitavelmente considerar\u00e3o se a conten\u00e7\u00e3o moral se tornou uma vulnerabilidade estrat\u00e9gica. O debate no Ir\u00e3 j\u00e1 passou da quest\u00e3o de serem desej\u00e1veis ou n\u00e3o as armas nucleares para a discuss\u00e3o sobre se a capacidade nuclear latente pode se tornar indispens\u00e1vel para a sobreviv\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>Caso o Ir\u00e3 ultrapasse esse limiar, quase certamente apresentaria a decis\u00e3o como a constru\u00e7\u00e3o de um escudo, e n\u00e3o como prepara\u00e7\u00e3o para uma guerra ofensiva. O Ir\u00e3 tem afirmado repetidamente que n\u00e3o busca conquista territorial, coer\u00e7\u00e3o nuclear ou ataques contra povos vizinhos. Seu objetivo imediato seria convencer Washington e Tel Aviv de que nenhuma campanha para destruir o Estado iraniano poderia prosseguir sem consequ\u00eancias inaceit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Um meio de dissuas\u00e3o, no entanto, n\u00e3o pode ser tornado inteiramente seguro apenas por ser declarado defensivo. Outros governos n\u00e3o podem ter certeza das inten\u00e7\u00f5es futuras. Uma arma iraniana poderia estimular a ado\u00e7\u00e3o de medidas de prote\u00e7\u00e3o nuclear pela Ar\u00e1bia Saudita, pela Turquia, pelo Egito ou por outros pa\u00edses. Israel poderia tentar um ataque preventivo antes que o Ir\u00e3 conclua o processo de armamento. O per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o \u2014 entre o enriquecimento a 90% e o estabelecimento de um meio de dissuas\u00e3o confi\u00e1vel \u2014 seria particularmente perigoso. Um erro de c\u00e1lculo poderia gerar a cat\u00e1strofe \u00e0 qual todas as partes afirmam se opor.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a responsabilidade decisiva recai agora sobre os Estados que escolhem se querem escalar o conflito. Se os Estados Unidos atacarem novamente, intensificarem um cerco econ\u00f4mico destinado a derrubar o Estado iraniano ou tornarem as negocia\u00e7\u00f5es indiscern\u00edveis de um ultimato, fortalecer\u00e3o aqueles em Teer\u00e3 que argumentam que o caminho da L\u00edbia termina na morte e que apenas o caminho da Coreia do Norte garante a sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>O Ir\u00e3 parece estar se preparando para resistir, em vez de capitular. Est\u00e1 fortalecendo seus mecanismos de comando, preservando a sua reserva de m\u00edsseis e drones e se organizando para uma guerra econ\u00f4mica prolongada. A aposta de Teer\u00e3 \u00e9 que poder\u00e1 absorver uma press\u00e3o imensa enquanto a coaliz\u00e3o dos EUA tiver que enfrentar custos militares crescentes, perturba\u00e7\u00f5es comerciais e diverg\u00eancias pol\u00edticas (principalmente ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato nos EUA, em novembro). A quest\u00e3o nuclear agora se insere nessa estrat\u00e9gia mais ampla de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>A escolha \u00e9, portanto, clara. Washington pode aceitar um acordo verific\u00e1vel que reconhe\u00e7a o direito do Ir\u00e3 \u00e0 tecnologia nuclear para fins pac\u00edficos, garanta a n\u00e3o agress\u00e3o e restabele\u00e7a inspe\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis. Ou pode continuar uma guerra que destrua o que resta da base de apoio \u00e0 conten\u00e7\u00e3o dentro do Ir\u00e3. Se optar pela escalada, n\u00e3o deve fingir surpresa quando o Ir\u00e3 concluir que os tratados n\u00e3o oferecem prote\u00e7\u00e3o, que as inspe\u00e7\u00f5es n\u00e3o trazem seguran\u00e7a e que somente a posse da arma definitiva impede que se repita o que aconteceu na L\u00edbia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mais grave perigo na guerra atual n\u00e3o \u00e9 que o Ir\u00e3 j\u00e1 esteja decidido a fabricar uma arma nuclear. 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