{"id":13298,"date":"2026-08-17T12:15:15","date_gmt":"2026-08-17T16:15:15","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=13298"},"modified":"2026-08-21T09:22:03","modified_gmt":"2026-08-21T13:22:03","slug":"centenario-de-fidel-castro-o-ultimo-heroi-homerico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2026\/08\/17\/centenario-de-fidel-castro-o-ultimo-heroi-homerico\/","title":{"rendered":"Centen\u00e1rio de Fidel Castro: o \u00faltimo her\u00f3i hom\u00e9rico"},"content":{"rendered":"<p>No m\u00eas em que completou 50 anos, meu pai, Mervyn de Silva, e minha m\u00e3e, Lakshmi, estavam em Havana assistindo Fidel Castro assumir a presid\u00eancia do Movimento dos Pa\u00edses N\u00e3o Alinhados em sua 6\u00aa C\u00fapula. Depois que meu pai faleceu, descobri em sua pasta o convite em relevo, impresso em papel pergaminho r\u00edgido. Ele o guardou com carinho por duas d\u00e9cadas. Eu ainda o guardo.<\/p>\n<p>Ao me aproximar dos meus 70 anos neste dezembro, tendo nascido quase na mesma data em que Fidel Castro, Che Guevara, Ra\u00fal Castro e outros desembarcaram nas praias de Cuba no iate com vazamentos <i>Granma<\/i>, em 1956, fico impressionado com a sorte de ter vivido conscientemente em um per\u00edodo da Hist\u00f3ria repleto de gigantes: Mao Zedong, Zhou Enlai, Ho Chi Minh, o general V\u00f5 Nguy\u00ean Gi\u00e1p, Josip Broz Tito, Fidel Castro, Che Guevara, Am\u00edlcar Cabral, Samora Machel, Agostinho Neto, o aiatol\u00e1 Khomeini e Nelson Mandela. Do Sul e do Oriente globais, esses foram grandes e her\u00f3icos l\u00edderes da Era da Liberta\u00e7\u00e3o e da Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fidel viveu mais do que os outros e nos marcou mais porque falava e escrevia \u2014 articulava suas opini\u00f5es, dirigindo-se ao seu povo e ao mundo \u2014 muito mais do que os demais. Embora Ronald Reagan fosse chamado de \u201cO Grande Comunicador\u201d, Fidel Castro foi, de longe, o maior comunicador global.<\/p>\n<p><b>O Tribuno da Humanidade<\/b><\/p>\n<p>Por meio de discursos e entrevistas, confer\u00eancias internacionais e profissionais de sa\u00fade volunt\u00e1rios, treinamento e a\u00e7\u00e3o militar, Fidel tamb\u00e9m tomou mais iniciativas em apoio a causas e povos por todo o planeta do que qualquer outro l\u00edder mundial de nosso tempo. Embora fosse patriota, ele tamb\u00e9m era o mais internacionalista. Vindo de um pa\u00eds com uma popula\u00e7\u00e3o menor do que a do Sri Lanka, ele deu voz aos povos de todos os lugares e ajudou a moldar o mundo em que viv\u00edamos. Ele foi um incans\u00e1vel \u201ctribuno\u201d do povo contra a injusti\u00e7a, e isso acabou por torn\u00e1-lo o estadista global mais prof\u00e9tico.<\/p>\n<p>Na comemora\u00e7\u00e3o do 70\u00ba anivers\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, em Moscou, em 1987, Fidel alertou que \u201cpodemos acordar um dia e descobrir que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica desapareceu\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o 11 de setembro, ele condenou o terrorismo, expressou solidariedade a Nova York (uma cidade que ele amava), ofereceu assist\u00eancia m\u00e9dica \u00e0s v\u00edtimas em Cuba e sinalizou disposi\u00e7\u00e3o para cooperar contra a Al-Qaeda, principalmente na \u00e1rea de intelig\u00eancia. Mas, como ex-l\u00edder guerrilheiro, ele fez uma advert\u00eancia: dado o terreno, os EUA enfrentariam um fracasso se lan\u00e7assem a guerra total planejada, incluindo tropas terrestres, contra o Afeganist\u00e3o. Ele se mostrou prof\u00e9tico quando os EUA se retiraram em meio ao fracasso duas d\u00e9cadas depois.<\/p>\n<p>Netanyahu, de Israel, trabalhou incansavelmente para envolver sucessivos presidentes dos EUA em uma guerra contra o Ir\u00e3. Em 2010, Fidel convidou Jeff Goldberg, da revista <i>The Atlantic<\/i>, para ir a Havana \u2013 porque Goldberg havia escrito sobre Israel e o Ir\u00e3, e Obama lia atentamente seus artigos. Na entrevista, Fidel argumentou de forma convincente que uma guerra dos EUA e de Israel contra o Ir\u00e3 seria desastrosa regionalmente, globalmente e para os interesses dos EUA. Netanyahu n\u00e3o conseguiu convencer Obama, e os EUA passaram a se dedicar seriamente \u00e0 via da negocia\u00e7\u00e3o, que culminou no Acordo Nuclear (JCPOA).<\/p>\n<p>Presos em uma armadilha da d\u00edvida como o Sri Lanka, devemos saudar Fidel Castro como o l\u00edder mundial que mais cedo fez campanha contra a d\u00edvida externa \u2013 mesmo que seu pr\u00f3prio pa\u00eds n\u00e3o estivesse endividado. A partir de meados da d\u00e9cada de 1980, ele falou exaustivamente sobre o fardo da d\u00edvida, suas ra\u00edzes e consequ\u00eancias, organizando confer\u00eancias internacionais nas quais o professor Joseph Stiglitz era convidado de honra e palestrante de destaque.<\/p>\n<p>Durante o pior per\u00edodo da Guerra do Vietn\u00e3, Fidel assumiu o enorme risco pessoal de visitar uma zona libertada em Quang Tri, em setembro de 1973, e hastear a bandeira do Vietcongue. Tendo libertado seu pr\u00f3prio pa\u00eds, ele passou a ajudar muitos outros direta e pessoalmente, da Am\u00e9rica Latina \u00e0 \u00c1frica e \u00e0 \u00c1sia. Anos ap\u00f3s sua morte, um contingente de m\u00e9dicos cubanos voou para a It\u00e1lia, devastada pela Covid, para combater a doen\u00e7a na linha de frente.<\/p>\n<p><b>Fidel e Che<\/b><\/p>\n<p>O her\u00f3i ic\u00f4nico mais brilhante e universalmente aclamado de nosso tempo foi e continua sendo Che Guevara. O jovem Dr. Ernesto Guevara era um marxista excepcionalmente brilhante, ousadamente aventureiro e culto, quase um santo em seu trabalho entre os leprosos. Mas o Ernesto Guevara de Di\u00e1rios de Motocicleta nunca teria se tornado o imortal Che Guevara se n\u00e3o fosse por um encontro e uma conversa, certa noite, em torno de uma mesa de jantar no M\u00e9xico, com um homem que havia sa\u00eddo da pris\u00e3o ap\u00f3s liderar o ataque ao quartel de Moncada, em Cuba, em 1953, e que planejava retornar de barco para iniciar uma guerra revolucion\u00e1ria de liberta\u00e7\u00e3o contra o ditador Batista. Esse homem era Fidel Castro. Sem Fidel, n\u00e3o haveria Che.<\/p>\n<p>Quando Che Guevara foi capturado e executado na Bol\u00edvia, isso poderia ter sido visto como uma derrota, um fracasso e um fim. Mas Fidel estava presente para inverter dialeticamente tal interpreta\u00e7\u00e3o, assim como em \u201cA Hist\u00f3ria Me Absolver\u00e1\u201d, em seu julgamento ap\u00f3s o Moncada, quando ele havia transformado uma derrota militar em uma vit\u00f3ria moral. Em um longo discurso, tarde da noite em Havana, diante de uma gigantesca multid\u00e3o de cubanos enlutados, ele transformou o Che em um santo e m\u00e1rtir da revolu\u00e7\u00e3o de estatura imponente; o her\u00f3i arquet\u00edpico de nosso tempo, projetado na consci\u00eancia de gera\u00e7\u00f5es desde ent\u00e3o at\u00e9 hoje e amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Naquela noite, Fidel Castro ressuscitou o Che e o imortalizou na Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><b>Poder brando, poder duro<\/b><\/p>\n<p>Sob o comando de Fidel, seu pa\u00eds era t\u00e3o prestigiado e influente na arena mundial que ganhou o apelido de \u201ca superpot\u00eancia de bolso\u201d. Ele demonstrou como um pa\u00eds do Sul Global, com uma popula\u00e7\u00e3o pequena, localizado nas proximidades de um gigante hostil \u2013 a \u00fanica superpot\u00eancia \u2013 e com um acampamento militar dessa superpot\u00eancia em seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio (Guant\u00e1namo), ainda assim poderia manter sua dignidade e conquistar respeito e honra no mundo sem abrir m\u00e3o de sua soberania.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de Fidel tinha em sua ess\u00eancia a dualidade que Maquiavel capturou na imagem do centauro, \u00e0 qual Antonio Gramsci voltou s\u00e9culos mais tarde, denotando a combina\u00e7\u00e3o de coer\u00e7\u00e3o e consentimento. Em termos contempor\u00e2neos, trata-se da combina\u00e7\u00e3o de poder duro e poder brando.<\/p>\n<p>A imagem de Fidel de uniforme saltando de um tanque de guerra, ap\u00f3s ter corrido para a Ba\u00eda dos Porcos, onde infligiu uma derrota aos Estados Unidos e aos contrarrevolucion\u00e1rios cubanos em 1961, resume sua maestria no \u201cpoder duro\u201d. O mesmo ocorre com a hist\u00f3rica batalha de Cuito Cuanavale, em 1987-1988, em Angola \u2014 a maior batalha militar na \u00c1frica desde o fim da Segunda Guerra Mundial \u2014, na qual Fidel comandou, a partir de Havana, as for\u00e7as cubanas que derrotaram as tropas invasoras da \u00c1frica do Sul do apartheid, um pa\u00eds industrializado, equipado pela OTAN e dotado de armas nucleares.<\/p>\n<p>Sua amizade com Ernest Hemingway; suas entrevistas \u00e0 <i>Playboy<\/i> (1967, 1985); suas longas entrevistas com a famosa jornalista de televis\u00e3o Barbara Walters (1977, 2002) e seu discurso de quatro horas para a congrega\u00e7\u00e3o na Igreja Riverside, no Harlem, em Nova York (2000), s\u00e3o evid\u00eancias de seu dom\u00ednio do \u201csoft power\u201d.<\/p>\n<p><b>Patriota e internacionalista<\/b><\/p>\n<p>A pol\u00edtica de Fidel deu uma contribui\u00e7\u00e3o fundamental ao campo socialista por meio da uni\u00e3o do patriotismo com o internacionalismo. Ele afirmou explicitamente que n\u00e3o era um \u201cnacionalista\u201d, mas um patriota, ao mesmo tempo em que insistia que o internacionalismo era \u201cum imperativo\u201d.<\/p>\n<p>O patriotismo de Fidel abrangia seu pa\u00eds e todas as pessoas de todas as ra\u00e7as que nele viviam. Um fator que motivou sua decis\u00e3o de enviar tropas a Angola para resistir \u00e0 invas\u00e3o da \u00c1frica do Sul do apartheid foi o fato de que a ind\u00fastria a\u00e7ucareira de Cuba havia prosperado \u00e0s custas do trabalho escravo proveniente da \u00c1frica. Na luta pela independ\u00eancia de Cuba da Espanha, uma poderosa revolta havia sido liderada por uma mulher negra, uma escrava. Angola, explicou Fidel, era a chance de Cuba retribuir ao povo da \u00c1frica. A expedi\u00e7\u00e3o militar internacionalista cubana recebeu o nome da mulher negra escrava l\u00edder daquela rebeli\u00e3o anticolonial: Opera\u00e7\u00e3o Carlota.<\/p>\n<p>Seu patriotismo n\u00e3o era uma quest\u00e3o de \u201cinteresse nacional\u201d grosseiramente pragm\u00e1tico. Houve um descongelamento nas rela\u00e7\u00f5es de Cuba com os EUA durante o governo do presidente Gerald Ford, e, se Fidel acreditasse em um pragmatismo estreito, Cuba poderia ter se beneficiado materialmente. No entanto, naquele exato momento, as tropas da \u00c1frica do Sul do apartheid haviam penetrado em Angola (por sugest\u00e3o do Dr. Kissinger) e estavam a pouca dist\u00e2ncia de sua capital, Luanda. Fidel decidiu que o princ\u00edpio do internacionalismo era mais crucial do que o ganho material imediato e, portanto, atendeu ao apelo de Agostinho Neto, l\u00edder do MPLA \u2014 o principal movimento de liberta\u00e7\u00e3o angolano que detinha legitimamente o poder em Luanda \u2014, por apoio e assist\u00eancia urgentes. A escolha de Fidel foi existencial, originada de <i>uma forma superior de estar<\/i> no mundo.<\/p>\n<p>Isso mudou rapidamente o curso da hist\u00f3ria. Ao ser libertado da pris\u00e3o ap\u00f3s 27 anos, a primeira visita de Nelson Mandela fora da \u00c1frica foi a Cuba, para agradecer a Fidel por ter derrotado as for\u00e7as militares sul-africanas do apartheid, humilhado o Estado e o sistema do apartheid e aberto o caminho que levou \u00e0 sua liberdade. O presidente da \u00c1frica do Sul, De Klerk, encontrou-se com Mandela no ano seguinte \u00e0 batalha de Cuito Cuanavale, em 1989, e sua liberta\u00e7\u00e3o (1990) ocorreu apenas dois anos ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Cuba naquele local.<\/p>\n<p><b>Castro e o cristianismo<\/b><\/p>\n<p>Fidel Castro contribuiu para uma conflu\u00eancia na hist\u00f3ria das ideias que perdurar\u00e1 por s\u00e9culos ap\u00f3s sua morte. Ele a designou como a fus\u00e3o \u201cmais explosiva\u201d: cristianismo e marxismo. A Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, dentro do catolicismo em particular e do cristianismo em geral, foi a cristaliza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina das consequ\u00eancias do Conc\u00edlio Vaticano II, iniciado pelo Papa Jo\u00e3o 23, cruzando-se com o impacto da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana liderada por Fidel Castro.<\/p>\n<p>Batizado e criado como cat\u00f3lico, um produto de destaque das escolas particulares jesu\u00edtas de elite, Fidel usava ao redor do pesco\u00e7o a imagem de Nossa Senhora da Caridade de El Cobre durante seus anos como l\u00edder guerrilheiro na Sierra Maestra. Mais tarde, Fidel tornou-se secular, n\u00e3o acreditando no divino, mas continuou sendo um seguidor dos ensinamentos de Jesus Cristo. Em <i>Fidel e a Religi\u00e3o<\/i> (1985) e <i>Minha Vida<\/i> (2006\/7), ele revelou ter sido moldado por seus professores jesu\u00edtas espanh\u00f3is e pela leitura da B\u00edblia, principalmente dos Evangelhos.<\/p>\n<p>Em sua extensa \u201cautobiografia falada\u201d <i>Minha Vida<\/i> (2007), composta por longas conversas com Ignacio Ramonet, ele deixou isso bem claro:<\/p>\n<p>\u201cCom os ensinamentos de Cristo, voc\u00ea acaba chegando a um programa socialista radical, seja voc\u00ea crente ou n\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O mais marcante \u00e9 sua reveladora autodefini\u00e7\u00e3o aos 80 anos:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">N\u00e3o faz muito tempo, eu dizia a Ch\u00e1vez, o presidente da Venezuela \u2013 porque Hugo Ch\u00e1vez \u00e9 crist\u00e3o e fala muito sobre isso \u2013 \u2018se as pessoas me chamam de crist\u00e3o, n\u00e3o do ponto de vista da religi\u00e3o, mas do ponto de vista da vis\u00e3o social, eu declaro que sou crist\u00e3o\u2019. Com base nas minhas convic\u00e7\u00f5es e nos objetivos que busco.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas de sua vida, Fidel encontrou-se com tr\u00eas papas: Jo\u00e3o Paulo II, Bento XVI e Francisco. O Papa Jo\u00e3o Paulo II fez uma visita hist\u00f3rica a Cuba em 1998. Fidel expressou calorosa admira\u00e7\u00e3o por ele, apesar do \u00f3bvio paradoxo do papel deste \u00faltimo no desmantelamento do socialismo na Pol\u00f4nia \u2014 sobretudo porque o Papa foi um dos primeiros e principais cr\u00edticos da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal.<\/p>\n<p><b>\u00c9tica e o Her\u00f3i<\/b><\/p>\n<p>Meu pr\u00f3prio livro \u201c<i>A \u00c9tica da Viol\u00eancia de Fidel: A Dimens\u00e3o Moral do Pensamento Pol\u00edtico de Fidel Castro<\/i>\u201d (2007) concentrou-se na contribui\u00e7\u00e3o de Fidel para o problema pol\u00edtico, estrat\u00e9gico e filos\u00f3fico da \u00e9tica da viol\u00eancia. A \u00e9tica dele n\u00e3o era a ren\u00fancia gandhiana \u00e0 viol\u00eancia, nem o uso puramente t\u00e1tico da viol\u00eancia, como o de Mandela e do ANC. No entanto, ele rejeitava a pr\u00e1tica do terrorismo e a doutrina de que qualquer tipo de viol\u00eancia, incluindo ataques contra civis desarmados, fosse leg\u00edtima no curso de uma luta por uma causa considerada justa.<\/p>\n<p>Embora paralelas e talvez derivadas da doutrina crist\u00e3 da Guerra Justa, as ideias, a estrat\u00e9gia e a pr\u00e1tica de Fidel diferiam dela em um aspecto fundamental. A teoria crist\u00e3 da Guerra Justa destinava-se a Estados e pr\u00edncipes crist\u00e3os, principalmente em conflito entre si \u2013 uma Guerra Justa \u201cde cima\u201d, na qual o poder era entendido como \u201cautoridade leg\u00edtima\u201d. A teoria da Guerra Justa de Fidel dizia respeito \u00e0s lutas vindas de baixo: guerras de liberta\u00e7\u00e3o e emancipa\u00e7\u00e3o dos povos contra autoridades injustas e ileg\u00edtimas. Ele insistiu e praticou consistentemente a ideia de evitar a viol\u00eancia contra n\u00e3o combatentes e inimigos desarmados. Isso se estendeu desde sua pr\u00f3pria guerra de guerrilha, passando pela guerra de contraguerrilha contra emigrantes cubanos apoiados pela CIA, at\u00e9 a guerra em grande escala al\u00e9m-mar \u2013 doze anos em Angola, lutando contra as for\u00e7as armadas da \u00c1frica do Sul do apartheid.<\/p>\n<p>Em sua pr\u00e1tica do que Marx chamou de \u201ca cr\u00edtica das armas\u201d, Fidel superou o abismo entre os arqu\u00e9tipos do \u201cRebelde\u201d e do \u201cRevolucion\u00e1rio\u201d propostos por Albert Camus, o que alimentou seu debate com Jean-Paul Sartre. Camus elogiava o Rebelde por seus objetivos e viol\u00eancia limitados, em contraste com o Revolucion\u00e1rio, cuja busca por uma transforma\u00e7\u00e3o mais ampla levava inevitavelmente \u00e0 viol\u00eancia desenfreada. Fidel transcendeu a antinomia ao ser <i>a exce\u00e7\u00e3o<\/i>. Ele era ao mesmo tempo Rebelde e Revolucion\u00e1rio, mantendo uma seletividade escrupulosa na escolha de alvos enquanto travava e apoiava guerras por objetivos revolucion\u00e1rios profundos; praticando uma \u00e9tica da viol\u00eancia que lhe permitia, em todos os momentos, ocupar o terreno moral mais elevado <i>segundo padr\u00f5es universalistas-humanistas<\/i> <i>\u2013 <\/i>n\u00e3o normas autoproclamadas, nem auto-referenciais em termos nacionais e culturais.<\/p>\n<p>Os notici\u00e1rios de televis\u00e3o s\u00e3o um lembrete constante, ainda que inadvertido, de como o mundo era quando Fidel estava vivo e no que se tornou sem ele. Sem ele para desempenhar esse papel planet\u00e1rio de porta-voz, profeta e defensor, a humanidade est\u00e1 mais solit\u00e1ria e mais pobre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No m\u00eas em que completou 50 anos, meu pai, Mervyn de Silva, e minha m\u00e3e, Lakshmi, estavam em Havana assistindo Fidel Castro assumir a presid\u00eancia do Movimento dos Pa\u00edses N\u00e3o Alinhados em sua 6\u00aa C\u00fapula. Depois que meu pai faleceu, descobri em sua pasta o convite em relevo, impresso em papel pergaminho r\u00edgido. 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