{"id":13266,"date":"2026-08-12T16:15:47","date_gmt":"2026-08-12T20:15:47","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=13266"},"modified":"2026-08-17T16:50:31","modified_gmt":"2026-08-17T20:50:31","slug":"argentina-as-ruas-puseram-um-freio-aos-saques-de-milei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2026\/08\/12\/argentina-as-ruas-puseram-um-freio-aos-saques-de-milei\/","title":{"rendered":"Argentina: as ruas puseram um freio aos saques de Milei"},"content":{"rendered":"<p>O governo de Javier Milei sofreu recentemente uma derrota dupla. A primeira ocorreu nas ruas, com a mobiliza\u00e7\u00e3o massiva em protesto contra seu projeto de liberar a compra de terras por estrangeiros. A segunda, nos corredores do Congresso argentino, onde ele n\u00e3o conseguiu reunir votos suficientes para aprovar a lei tal como foi apresentada. Ambas apontam para o mesmo sentido: um projeto de poder que come\u00e7a a mostrar os limites de sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>A lei que o governo buscava impor, sob o nome de \u201cLei da Inviolabilidade da Propriedade Privada\u201d, n\u00e3o era uma iniciativa isolada nem um simples ajuste normativo. Fazia parte de uma s\u00e9rie mais ampla de ataques \u00e0 soberania nacional: habilitar mecanismos para aprofundar a estrangeiriza\u00e7\u00e3o da terra, facilitar o controle externo sobre recursos estrat\u00e9gicos e abrir caminho para que o territ\u00f3rio argentino, seus bens comuns e a capacidade de decis\u00e3o sobre eles fiquem cada vez mais subordinados a interesses alheios ao pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nas ruas, milhares de pessoas se mobilizaram contra essa ofensiva. O governo respondeu como sempre responde quando o povo se organiza: com g\u00e1s lacrimog\u00eaneo e balas de borracha, com feridos e detidos. A repress\u00e3o n\u00e3o foi um excesso isolado. \u00c9 um m\u00e9todo. Sempre que o ataque encontra resist\u00eancia, o Estado mostra sua face mais violenta para tentar disciplinar aqueles que n\u00e3o consegue convencer.<\/p>\n<p>Porque \u00e9 isso que come\u00e7a a se desintegrar: a hegemonia, a capacidade de convencer. Nas ruas, percebe-se o cansa\u00e7o diante de um ajuste econ\u00f4mico que castiga as maiorias populares enquanto beneficia um punhado de setores concentrados. Essa austeridade n\u00e3o \u00e9 um capricho t\u00e9cnico nem um desvio de um plano bem-intencionado. \u00c9 a forma que assume, na Argentina, uma estrat\u00e9gia mais ampla da nova direita internacional para subjugar os povos do Sul Global: reduzir sal\u00e1rios, entregar recursos naturais, desmantelar direitos e chamar a pilhagem de \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d. Milei n\u00e3o administra essa estrat\u00e9gia a partir de uma posi\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma; ele a executa como aliado incondicional de um hiperimperialismo que hoje atravessa uma fase decadente e, por isso mesmo, mais perigosa: precisa se apropriar do que resta ao Sul Global para sustentar uma ordem que j\u00e1 n\u00e3o consegue garantir o bem-estar nem mesmo em seus pr\u00f3prios centros.<\/p>\n<p>No Congresso, a outra frente, o governo tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiu o que buscava. As tentativas de comprar votos parlamentares, de formar maiorias \u00e0 base de cargos, promessas e press\u00f5es, n\u00e3o deram certo. Ele teve que recuar. Primeiro, em rela\u00e7\u00e3o ao cerne da mal chamada \u201cLei da Inviolabilidade da Propriedade Privada\u201d. Depois, com a reforma da Lei de Combate a Inc\u00eandios, resignando-se a uma vers\u00e3o reduzida. Dois recuos que revelam a fragilidade de um projeto que se acreditava imbat\u00edvel.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o contra a estrangeiriza\u00e7\u00e3o da terra revelou algo mais profundo do que a rejei\u00e7\u00e3o a uma lei espec\u00edfica. Mostrou um ponto de ruptura na capacidade da classe dominante de organizar o consenso em torno de uma ordem social que beneficia apenas a ela mesma. Esse consenso, que durante meses pareceu s\u00f3lido, come\u00e7ou a se romper. Resta saber qual ser\u00e1 o caminho de organiza\u00e7\u00e3o dessa raiva que se tornou vis\u00edvel sob a chuva, ao redor do Congresso.<\/p>\n<p>Vijay Prashad vem apontando, a partir do <i>Instituto Tricontinental<\/i>, que o ciclo atual do capitalismo global n\u00e3o oferece sa\u00eddas dentro de suas pr\u00f3prias regras: a crise \u00e9 administrada transferindo seus custos para o Sul Global, enquanto as burguesias locais, transformadas em parceiras secund\u00e1rias dessa ordem, aplicam internamente as receitas que o capital financeiro internacional elabora externamente. Prashad insiste que nenhum ajuste desse tipo se sustenta sem uma batalha cultural paralela, destinada a apresentar como inevit\u00e1vel o que \u00e9, na realidade, uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a servi\u00e7o de interesses concretos. Quando essa batalha cultural come\u00e7a a perder terreno, como ocorreu na Argentina, abre-se uma fresta que nenhuma repress\u00e3o consegue fechar por completo.<\/p>\n<p>Algo disso ficou evidente na bandeira que circulou repetidamente entre milhares de pessoas na multid\u00e3o, a mesma que os jogadores da Sele\u00e7\u00e3o desfraldaram ap\u00f3s a vit\u00f3ria contra a Inglaterra na \u00faltima Copa do Mundo, com o slogan \u201cAs Malvinas s\u00e3o argentinas\u201d. Desde a Guerra das Malvinas, em 1982, essa partida n\u00e3o \u00e9 mais apenas mais um jogo. O de 1986, poucos anos ap\u00f3s a guerra, foi inesquec\u00edvel: \u00e9 a partida da \u201cM\u00e3o de Deus\u201d e do melhor gol da hist\u00f3ria, ambos assinados por Diego Maradona. O futebol carrega consigo a reivindica\u00e7\u00e3o das Ilhas Malvinas, hoje transformadas em base da OTAN sob dom\u00ednio brit\u00e2nico e em plataforma para a pilhagem de petr\u00f3leo e outros bens comuns do Atl\u00e2ntico Sul. Essa bandeira tocou uma fibra sens\u00edvel do povo argentino, a de uma soberania cuja reivindica\u00e7\u00e3o nunca foi totalmente abandonada, nem mesmo quando o poder vigente insiste em negoci\u00e1-la.<\/p>\n<p>Mas nenhuma fibra sens\u00edvel, por si s\u00f3, \u00e9 suficiente para mudar o rumo de um pa\u00eds. A revolta que se viu nas ruas precisa se organizar, encontrar um canal, transformar-se em projeto. Caso contr\u00e1rio, corre o risco de se esgotar na pr\u00f3pria intensidade do momento, de se dissipar em frustra\u00e7\u00e3o assim que a onda da mobiliza\u00e7\u00e3o baixar. A tarefa que se coloca, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 apenas resistir ao pr\u00f3ximo ataque. \u00c9 construir a for\u00e7a pol\u00edtica capaz de sustentar ao longo do tempo o que as ruas mostraram em meio \u00e0 tempestade: que h\u00e1 um limite, que esse limite deve ser defendido e que a P\u00e1tria n\u00e3o se vende.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo de Javier Milei sofreu recentemente uma derrota dupla. A primeira ocorreu nas ruas, com a mobiliza\u00e7\u00e3o massiva em protesto contra seu projeto de liberar a compra de terras por estrangeiros. A segunda, nos corredores do Congresso argentino, onde ele n\u00e3o conseguiu reunir votos suficientes para aprovar a lei tal como foi apresentada. 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