{"id":13251,"date":"2026-08-13T14:39:48","date_gmt":"2026-08-13T18:39:48","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=13251"},"modified":"2026-08-16T10:09:30","modified_gmt":"2026-08-16T14:09:30","slug":"cuba-apos-seis-meses-de-bloqueio-petrolifero-a-crise-e-o-caminho-para-a-recuperacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2026\/08\/13\/cuba-apos-seis-meses-de-bloqueio-petrolifero-a-crise-e-o-caminho-para-a-recuperacao\/","title":{"rendered":"Cuba ap\u00f3s seis meses de bloqueio petrol\u00edfero: a crise e o caminho para a recupera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 mais de seis d\u00e9cadas, os Estados Unidos tentam fazer com que o povo cubano pague por sua decis\u00e3o de seguir um caminho independente e socialista. A \u00faltima fase dessa guerra econ\u00f4mica mirou na art\u00e9ria mais vulner\u00e1vel da ilha: seu abastecimento energ\u00e9tico. Seis meses depois que Washington intensificou a press\u00e3o sobre os pa\u00edses e as empresas que fornecem petr\u00f3leo a Cuba, a pol\u00edtica n\u00e3o trouxe \u201cdemocracia\u201d nem melhorou a vida dos cubanos comuns. Ela resultou em casas mais escuras, \u00f4nibus paralisados, interrup\u00e7\u00f5es em hospitais e maior dificuldade para transportar alimentos do campo para as cidades.<\/p>\n<p>A tarefa imediata \u00e9 evitar um desastre humanit\u00e1rio. A tarefa mais ampla consiste em substituir a coer\u00e7\u00e3o pela coopera\u00e7\u00e3o soberana e ajudar Cuba a construir um sistema energ\u00e9tico que n\u00e3o possa mais ser estrangulado por uma pot\u00eancia estrangeira.<\/p>\n<p><b>Seis meses de uma crise cada vez mais profunda<\/b><\/p>\n<p>Em 29 de janeiro de 2026, o presidente dos EUA, Donald Trump, emitiu uma ordem executiva que estabelecia um mecanismo para impor tarifas adicionais aos produtos procedentes de qualquer pa\u00eds que fornecesse petr\u00f3leo a Cuba, direta ou indiretamente. Washington apresentou a medida como uma defesa da seguran\u00e7a nacional dos EUA. Seu objetivo pr\u00e1tico era claro: for\u00e7ar outros pa\u00edses a escolher entre uma pequena na\u00e7\u00e3o caribenha em dificuldades econ\u00f4micas e o acesso ao enorme mercado estadunidense.<\/p>\n<p>As medidas tarif\u00e1rias autorizadas por essa e outras ordens de emerg\u00eancia expiraram em 20 de fevereiro. No entanto, a emerg\u00eancia declarada continuou em vigor, assim como o sistema mais amplo de san\u00e7\u00f5es, as amea\u00e7as contra os fornecedores e a incerteza em torno dos navios com destino a Cuba. O resultado foi descrito como um bloqueio petrol\u00edfero efetivo: n\u00e3o necessariamente uma linha permanente de navios de guerra norte-americanos, mas um sistema de press\u00e3o indireta capaz de dissuadir governos, bancos, seguradoras, empresas de navega\u00e7\u00e3o e comerciantes de realizar com\u00e9rcio leg\u00edtimo com Cuba. O golpe recaiu sobre uma economia que j\u00e1 se encontrava sob press\u00e3o extrema. Cuba dependia h\u00e1 muito tempo do petr\u00f3leo importado, particularmente da Venezuela, enquanto produzia apenas uma fra\u00e7\u00e3o de suas necessidades. Os embarques venezuelanos diminu\u00edram ap\u00f3s o ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela em 3 de janeiro de 2026; os suprimentos mexicanos foram submetidos \u00e0 press\u00e3o norte-americana, e Cuba carecia das divisas necess\u00e1rias para adquirir combust\u00edvel suficiente em outros lugares. As usinas termoel\u00e9tricas obsoletas, a manuten\u00e7\u00e3o atrasada, os furac\u00f5es, a infla\u00e7\u00e3o e a perda de receitas do turismo agravaram os danos.<\/p>\n<p>A escassez de combust\u00edvel se estendeu a todas as esferas da vida social. Falhas t\u00e9cnicas na fr\u00e1gil rede el\u00e9trica provocaram repetidos apag\u00f5es em toda a ilha. Os cortes de energia paralisaram as bombas de \u00e1gua, enquanto os refrigeradores deixaram de funcionar, estragando os escassos alimentos e medicamentos. As fam\u00edlias foram obrigadas a cozinhar, estudar e dormir sob calor extremo, sem um fornecimento est\u00e1vel de energia el\u00e9trica.<\/p>\n<p>O transporte tamb\u00e9m ficou paralisado. Havia menos \u00f4nibus p\u00fablicos circulando, os postos de combust\u00edvel fecharam ou racionaram o abastecimento, e os trabalhadores enfrentaram mais dificuldades para chegar aos seus locais de trabalho. Quando n\u00e3o h\u00e1 diesel dispon\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil colher as safras, e os alimentos n\u00e3o podem ser transportados dos produtores rurais at\u00e9 os consumidores urbanos. A coleta de lixo e o saneamento est\u00e3o se deteriorando. As ambul\u00e2ncias, os hospitais e as cl\u00ednicas precisam racionar o combust\u00edvel dos geradores, mesmo enquanto cresce a escassez de medicamentos e suprimentos b\u00e1sicos. Voos foram cancelados ou redirecionados porque os aeroportos cubanos n\u00e3o podiam garantir o combust\u00edvel de avia\u00e7\u00e3o, o que prejudicou ainda mais o turismo \u2013 uma das principais fontes de divisas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O fardo \u00e9 desigual. As fam\u00edlias com d\u00f3lares \u00e0s vezes conseguem obter alimentos, transporte, baterias ou equipamentos solares; os trabalhadores e aposentados que dependem do peso cubano t\u00eam muito menos op\u00e7\u00f5es. As mulheres assumem grande parte do trabalho adicional n\u00e3o remunerado de conseguir alimentos e \u00e1gua, bem como o de cuidar de seus familiares. As comunidades rurais, as pessoas com defici\u00eancia e os pacientes que necessitam de medicamentos refrigerados enfrentam riscos espec\u00edficos. As principais v\u00edtimas da pol\u00edtica dos Estados Unidos s\u00e3o todo o povo cubano.<\/p>\n<p><b>Uma sa\u00edda baseada na paz, na soberania e na reconstru\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>A sa\u00edda deve come\u00e7ar com um acordo humanit\u00e1rio imediato na \u00e1rea de energia. Cuba precisa de entregas previs\u00edveis, n\u00e3o de carregamentos ocasionais que dependam de autoriza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. As Na\u00e7\u00f5es Unidas, juntamente com os governos da Am\u00e9rica Latina e do Caribe dispostos a colaborar, deveriam estabelecer um corredor de combust\u00edvel monitorado. Os envios poderiam ser destinados \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de energia, hospitais, \u00e1gua e saneamento, produ\u00e7\u00e3o de alimentos, transporte p\u00fablico e prepara\u00e7\u00e3o para desastres.<\/p>\n<p>Uma isen\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz sentido se os bancos n\u00e3o processarem os pagamentos, as seguradoras n\u00e3o garantirem os navios e as empresas de navega\u00e7\u00e3o temerem ser sancionadas. Os governos participantes devem fornecer garantias de pagamento, seguros e prote\u00e7\u00e3o jur\u00eddica aos fornecedores humanit\u00e1rios. Os Estados Unidos devem emitir licen\u00e7as gerais e duradouras, em vez de isen\u00e7\u00f5es ocasionais.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a ajuda de emerg\u00eancia deve abrir caminho para uma redu\u00e7\u00e3o gradual das tens\u00f5es por meio de negocia\u00e7\u00f5es. Washington e Havana devem iniciar conversa\u00e7\u00f5es estruturadas, com o apoio, quando for pertinente, da CARICOM, da CELAC, do M\u00e9xico e de outros intermedi\u00e1rios de confian\u00e7a. O princ\u00edpio deve ser a reciprocidade sem coer\u00e7\u00e3o. Os Estados Unidos deveriam suspender as medidas que penalizam o com\u00e9rcio com outros pa\u00edses e estabelecer um cronograma confi\u00e1vel para o levantamento das san\u00e7\u00f5es. A negocia\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode significar exigir uma mudan\u00e7a de regime como o pre\u00e7o a pagar para permitir que uma popula\u00e7\u00e3o satisfa\u00e7a suas necessidades b\u00e1sicas. Tampouco as necessidades humanit\u00e1rias devem ficar ref\u00e9ns de cada disputa n\u00e3o resolvida entre os dois governos.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, Cuba j\u00e1 come\u00e7ou a diversificar seus fornecedores e seu sistema energ\u00e9tico. Contratos com diversos produtores, compras conjuntas com parceiros caribenhos e reservas regionais de armazenamento poderiam reduzir os custos e amenizar interrup\u00e7\u00f5es repentinas. A coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica poderia ajudar a estabilizar os equipamentos e geradores antigos enquanto se constr\u00f3i uma nova capacidade energ\u00e9tica. A m\u00e9dio prazo, a solu\u00e7\u00e3o mais duradoura reside na energia renov\u00e1vel e descentralizada. Cuba conta com luz solar abundante e um potencial significativo para energia solar, biomassa e gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica cuidadosamente localizada. Assim, sistemas solares instalados nos telhados de cl\u00ednicas, escolas, fazendas e edif\u00edcios residenciais, juntamente com baterias, reduziriam a demanda sobre a rede el\u00e9trica nacional. As micro redes comunit\u00e1rias poderiam manter em funcionamento as bombas de \u00e1gua, a refrigera\u00e7\u00e3o e as comunica\u00e7\u00f5es quando uma usina importante falhar. O subproduto da ind\u00fastria a\u00e7ucareira e os res\u00edduos agr\u00edcolas podem contribuir para a gera\u00e7\u00e3o de energia se os projetos forem gerenciados de forma sustent\u00e1vel. E para isso, as energias renov\u00e1veis n\u00e3o devem tornar-se um slogan que ignore as limita\u00e7\u00f5es materiais: os projetos precisam de financiamento, pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o, t\u00e9cnicos capacitados, baterias e sistemas de reciclagem.<\/p>\n<p>Para os pa\u00edses do Sul Global, a dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o de Cuba n\u00e3o \u00e9 uma disputa bilateral distante. As san\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias e as amea\u00e7as tarif\u00e1rias estabelecem o perigoso princ\u00edpio de que um Estado poderoso pode ditar quais s\u00e3o os parceiros comerciais leg\u00edtimos de qualquer outra na\u00e7\u00e3o. Defender o direito de Cuba de adquirir energia faz, portanto, parte da defesa de uma ordem internacional democr\u00e1tica. O Sul Global deve se opor \u00e0 coa\u00e7\u00e3o extraterritorial, apoiar os suprimentos humanit\u00e1rios e a coopera\u00e7\u00e3o em mat\u00e9ria de energia renov\u00e1vel, e colaborar com outros Estados para proteger o com\u00e9rcio leg\u00edtimo das san\u00e7\u00f5es unilaterais.<\/p>\n<p>O povo cubano sobreviveu a seis d\u00e9cadas de press\u00e3o gra\u00e7as \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o social, \u00e0 solidariedade internacional e a uma resist\u00eancia extraordin\u00e1ria. No entanto, essa resist\u00eancia n\u00e3o deve ser idealizada. Nenhum povo deveria ser obrigado a viver indefinidamente sem eletricidade, transporte, alimentos ou medicamentos confi\u00e1veis para demonstrar seu compromisso com a soberania. A sa\u00edda justa n\u00e3o \u00e9 nem a capitula\u00e7\u00e3o nem o isolamento. \u00c9 o fim do castigo coletivo e a coopera\u00e7\u00e3o internacional baseada na igualdade. Esse caminho pode devolver a luz a Cuba, ao mesmo tempo em que preserva seu direito de determinar seu pr\u00f3prio futuro.<\/p>\n<p><i>(*) Tradu\u00e7\u00e3o de Millena Moreno M.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 mais de seis d\u00e9cadas, os Estados Unidos tentam fazer com que o povo cubano pague por sua decis\u00e3o de seguir um caminho independente e socialista. A \u00faltima fase dessa guerra econ\u00f4mica mirou na art\u00e9ria mais vulner\u00e1vel da ilha: seu abastecimento energ\u00e9tico. 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