{"id":12939,"date":"2026-06-22T19:51:46","date_gmt":"2026-06-22T23:51:46","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=12939"},"modified":"2026-06-28T11:40:38","modified_gmt":"2026-06-28T15:40:38","slug":"a-esquerda-e-a-conquista-da-fortaleza-digital-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2026\/06\/22\/a-esquerda-e-a-conquista-da-fortaleza-digital-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"A esquerda e a conquista da fortaleza digital do capitalismo"},"content":{"rendered":"<p>A batalha pela liberta\u00e7\u00e3o socialista no s\u00e9culo 21 n\u00e3o pode ser travada com as armas do s\u00e9culo passado. Em uma era em que os algoritmos predominam, em que a influ\u00eancia da intelig\u00eancia artificial sobre a m\u00eddia, a cultura, a educa\u00e7\u00e3o e o trabalho continua a se expandir, e em que pol\u00edticas e estrat\u00e9gias econ\u00f4micas s\u00e3o formuladas com base em <i>big data<\/i> e an\u00e1lise algor\u00edtmica, a esquerda se v\u00ea confrontada com uma quest\u00e3o existencial: como movimentos que ainda se organizam de acordo com a l\u00f3gica tradicional podem enfrentar um capitalismo digital que se tornou tecnologicamente avan\u00e7ado a um n\u00edvel sem precedentes?<\/p>\n<p>Este texto n\u00e3o \u00e9 meramente um apelo para desenvolver ferramentas; \u00e9 um apelo para transformar a consci\u00eancia organizacional e intelectual rumo a uma compreens\u00e3o profunda da natureza da batalha digital. A lacuna em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma lacuna no \u201cdom\u00ednio t\u00e9cnico\u201d; \u00e9 uma lacuna na compreens\u00e3o de que o espa\u00e7o digital se tornou um campo de batalha de classes no qual o capitalismo domina, programa e subjuga, enquanto a esquerda sofre com uma presen\u00e7a reduzida e a aus\u00eancia de uma vis\u00e3o digital clara. Preencher essa lacuna n\u00e3o \u00e9 mais um luxo; \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o para a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da esquerda, j\u00e1 que a batalha de hoje \u00e9 travada em algoritmos e redes tanto quanto \u00e9 travada no mundo real.<\/p>\n<p>A luta pela tecnologia n\u00e3o \u00e9 uma batalha contra a ci\u00eancia; \u00e9 uma batalha contra o monop\u00f3lio que as pot\u00eancias dominantes det\u00eam sobre ela para aumentar seus lucros. A intelig\u00eancia artificial n\u00e3o deve ser vista como uma amea\u00e7a em si mesma, mas sim como um campo de luta cujas caracter\u00edsticas s\u00e3o moldadas pelo equil\u00edbrio das for\u00e7as sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Nos \u00faltimos anos, assistimos a uma acelera\u00e7\u00e3o sem precedentes na concentra\u00e7\u00e3o do poder digital nas m\u00e3os de um n\u00famero limitado de corpora\u00e7\u00f5es gigantes que controlam a infraestrutura da intelig\u00eancia artificial, da computa\u00e7\u00e3o em nuvem e dos dados globais, o que lhes confere influ\u00eancia econ\u00f4mica, pol\u00edtica e cultural que, por vezes, supera a influ\u00eancia de in\u00fameros Estados.<\/p>\n<p><b>A tecnologia como meio do capitalismo para superar suas crises<\/b><\/p>\n<p>Quando confrontado com crises, o capitalismo recorre \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o de si mesmo por meio de ferramentas cient\u00edficas avan\u00e7adas que lhe permitem superar desafios sem tocar em seu cerne explorador. Na crise de 2008, a tecnologia e os m\u00e9todos cient\u00edficos foram utilizados para resgatar o sistema financeiro, enquanto o custo das perdas era repassado \u00e0s classes trabalhadoras. Durante a pandemia da COVID-19, em 2020, o capitalismo conseguiu superar a crise refor\u00e7ando a automa\u00e7\u00e3o, a intelig\u00eancia artificial e o trabalho remoto, o que garantiu a continuidade da produ\u00e7\u00e3o por meio de novos mecanismos que reduziram a depend\u00eancia da m\u00e3o de obra humana e aumentaram os lucros das empresas, \u00e0 custa de condi\u00e7\u00f5es de trabalho inst\u00e1veis para milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Com o amplo avan\u00e7o da intelig\u00eancia artificial desde 2023, o capitalismo entrou em uma nova fase de reestrutura\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho. A depend\u00eancia da automa\u00e7\u00e3o e dos sistemas inteligentes se expandiu por in\u00fameros setores, e surgiram preocupa\u00e7\u00f5es crescentes quanto ao futuro de milh\u00f5es de empregos, mesmo enquanto as empresas de tecnologia obt\u00eam lucros enormes como resultado de seu monop\u00f3lio sobre a nova infraestrutura digital e do conhecimento.<\/p>\n<p>Essas pol\u00edticas mostram como o capitalismo se beneficia da ci\u00eancia como ferramenta para estruturar o sistema e garantir sua continuidade. \u00c0s vezes, chega at\u00e9 a adotar certas no\u00e7\u00f5es socialistas, como a interven\u00e7\u00e3o estatal, como medidas tempor\u00e1rias para garantir a estabilidade, apenas para recuar dessas conquistas assim que a crise passar e reproduzir a explora\u00e7\u00e3o por meio de mecanismos mais avan\u00e7ados.<\/p>\n<p><b>Flexibilidade cient\u00edfica e a revolu\u00e7\u00e3o digital como uma luta de classes moderna<\/b><\/p>\n<p>\u00c0 luz desses desafios, a esquerda deve valer-se do progresso cient\u00edfico, reformulando seu discurso e suas ferramentas de maneira cient\u00edfica. Isso requer o uso de ferramentas modernas para analisar quest\u00f5es sociais e o desenvolvimento de um discurso realista, juntamente com mecanismos organizacionais flex\u00edveis, capazes de atrair jovens que cresceram em um mundo dominado pela tecnologia. Investir em ferramentas cient\u00edficas n\u00e3o significa identificar-se com valores capitalistas; \u00e9 uma estrat\u00e9gia para aproveit\u00e1-las a servi\u00e7o da justi\u00e7a social e da redu\u00e7\u00e3o da desigualdade de classe, como um passo rumo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um sistema socialista mais humano.<\/p>\n<p>Se as revolu\u00e7\u00f5es industriais anteriores transformaram as equa\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o por meio das m\u00e1quinas e do vapor, depois com a eletricidade e, posteriormente, com a computa\u00e7\u00e3o, a fase atual, baseada na intelig\u00eancia artificial, no <i>big data<\/i> e nas plataformas digitais, est\u00e1 remodelando a produ\u00e7\u00e3o, o trabalho, o conhecimento e a comunica\u00e7\u00e3o humana de uma maneira mais profunda e abrangente. Nesta era, dados, algoritmos e sistemas de intelig\u00eancia artificial tornaram-se ferramentas centrais para reproduzir a domina\u00e7\u00e3o de maneiras relativamente invis\u00edveis, por meio da influ\u00eancia sobre a opini\u00e3o p\u00fablica, da orienta\u00e7\u00e3o do comportamento individual e coletivo e do controle do acesso ao conhecimento e \u00e0 informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, a maioria das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda permanece digitalmente atrasada, o que as coloca em uma posi\u00e7\u00e3o de fraqueza. Esse atraso reflete uma incapacidade de compreender que o desenvolvimento digital se tornou uma condi\u00e7\u00e3o existencial para a luta socialista. A falta de ferramentas digitais e de conhecimento modernas por parte da esquerda a coloca em um confronto desigual com um sistema capitalista que det\u00e9m as plataformas globais, os dados e a infraestrutura de computa\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia artificial \u2014 ferramentas que lhe conferem uma capacidade sem precedentes de moldar a consci\u00eancia e influenciar o comportamento social e pol\u00edtico.<\/p>\n<p><b>Recuperando a iniciativa<\/b><\/p>\n<p>Embora a esquerda esteja atualmente perdendo uma das batalhas por tratar a tecnologia como uma ferramenta secund\u00e1ria, a guerra ainda n\u00e3o est\u00e1 decidida. A vit\u00f3ria exige traduzir vis\u00e3o em programas concretos de a\u00e7\u00e3o fundamentados no uso consciente da tecnologia. A esquerda n\u00e3o pode permanecer em posi\u00e7\u00e3o defensiva; deve tornar-se um participante ativo na reformula\u00e7\u00e3o do futuro da tecnologia, de modo a integr\u00e1-la ao seu projeto libertador.<\/p>\n<p>Mesmo assim, a tecnologia n\u00e3o substitui a organiza\u00e7\u00e3o humana consciente. O verdadeiro poder reside em seres humanos organizados, capazes de aproveitar esses meios a servi\u00e7o de seus objetivos. A intelig\u00eancia artificial \u00e9 uma ferramenta eficaz para mobiliza\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise, mas nunca substituir\u00e1 a solidariedade e o trabalho de base, que continuam sendo o principal motor da mudan\u00e7a.<\/p>\n<p><b>Rumo a alternativas digitais de esquerda: rompendo a fortaleza e libertando as ferramentas<\/b><\/p>\n<p>Como movimento de esquerda, historicamente conseguimos oferecer alternativas nos campos da economia, da justi\u00e7a e da pol\u00edtica; no entanto, hoje enfrentamos um desafio decisivo: ainda n\u00e3o desenvolvemos uma vis\u00e3o digital alternativa e abrangente capaz de romper o dom\u00ednio tecnol\u00f3gico do capitalismo. A li\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica mais importante que devemos assimilar \u00e9 que a tecnologia n\u00e3o \u00e9 uma \u201cferramenta neutra\u201d que cai do c\u00e9u; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 um campo de batalha de classes por excel\u00eancia. O problema fundamental n\u00e3o reside na ess\u00eancia da intelig\u00eancia artificial ou da automa\u00e7\u00e3o, mas nas \u201crela\u00e7\u00f5es de propriedade\u201d que as regem, ou seja, no monop\u00f3lio que as grandes corpora\u00e7\u00f5es det\u00eam sobre essas ferramentas com o objetivo de aprofundar o conflito de classes, vigiar as massas e padronizar a consci\u00eancia humana a servi\u00e7o da acumula\u00e7\u00e3o de lucro.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, j\u00e1 n\u00e3o basta que a esquerda assuma a posi\u00e7\u00e3o de \u201ccr\u00edtica\u201d ou \u201cespectadora: deve propor mecanismos novos e ousados para o uso da tecnologia dentro de estruturas democr\u00e1ticas, participativas e transparentes. Precisamos de uma \u201cintelig\u00eancia artificial popular\u201d que opere sob supervis\u00e3o social e seja desenvolvida por meio de cooperativas digitais, com o objetivo de distribuir riqueza e organizar a produ\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o das necessidades humanas genu\u00ednas, em vez dos caprichos do mercado e do fortalecimento da domina\u00e7\u00e3o e do militarismo. Precisamos tamb\u00e9m de modelos de c\u00f3digo aberto, plataformas digitais progressistas e iniciativas tecnol\u00f3gicas cooperativas que n\u00e3o estejam sujeitas \u00e0 l\u00f3gica do monop\u00f3lio comercial e que permitam \u00e0s comunidades e \u00e0s massas participar da gest\u00e3o do conhecimento e dos dados, bem como do desenvolvimento de novas tecnologias.<\/p>\n<p>Um confronto genu\u00edno exige que \u201crompamos a fortaleza digital\u201d do capitalismo, o que significa penetrar no cerne do processo t\u00e9cnico e compreender a l\u00f3gica dos algoritmos para desmantel\u00e1-los e reconstru\u00ed-los com uma orienta\u00e7\u00e3o libertadora. Limitar-se a ficar diante das muralhas dessa tecnologia e gritar em condena\u00e7\u00e3o \u00e0 sua explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o mudar\u00e1 nada na realidade e deixar\u00e1 a esquerda isolada em guetos intelectuais obsoletos.<\/p>\n<p>Somos chamados a nos apropriar das ferramentas de nossa \u00e9poca, pois, assim como Marx e Engels transformaram as ci\u00eancias econ\u00f4micas e filos\u00f3ficas de seu tempo \u2014 de ferramentas que justificavam a ordem existente \u2014 em uma arma te\u00f3rica e pr\u00e1tica nas m\u00e3os da classe trabalhadora, a esquerda hoje \u00e9 chamada a ser uma for\u00e7a ativa e program\u00e1tica nessa arena. Devemos passar da posi\u00e7\u00e3o do \u201cusu\u00e1rio passivo\u201d, sujeito aos termos das plataformas capitalistas, para a posi\u00e7\u00e3o do \u201cprodutor alternativo\u201d, que prop\u00f5e uma tecnologia comunit\u00e1ria, aberta e liberada.<\/p>\n<p>A luta em torno da intelig\u00eancia artificial n\u00e3o se resume mais apenas ao futuro da tecnologia; ela diz respeito ao futuro do trabalho, da democracia, da cultura e da justi\u00e7a social. Sem uma presen\u00e7a ativa da esquerda nesse campo, o capitalismo digital continuar\u00e1 a determinar a dire\u00e7\u00e3o do desenvolvimento tecnol\u00f3gico a servi\u00e7o de seus pr\u00f3prios interesses e continuar\u00e1 a controlar o desenvolvimento da mente humana e do futuro da humanidade.<\/p>\n<p>A verdadeira for\u00e7a da esquerda reside em sua capacidade de integrar a organiza\u00e7\u00e3o humana de base com o dom\u00ednio do digital, de modo que o espa\u00e7o digital se torne uma arena de apoio efetiva, n\u00e3o um substituto para a luta; antes, uma asa com a qual ela possa al\u00e7ar voo rumo a um futuro socialista mais humano e mais justo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A batalha pela liberta\u00e7\u00e3o socialista no s\u00e9culo 21 n\u00e3o pode ser travada com as armas do s\u00e9culo passado. 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