{"id":12861,"date":"2026-05-19T13:35:51","date_gmt":"2026-05-19T17:35:51","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=12861"},"modified":"2026-06-13T10:40:54","modified_gmt":"2026-06-13T14:40:54","slug":"a-soberania-tambem-esta-em-nossa-alimentacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2026\/05\/19\/a-soberania-tambem-esta-em-nossa-alimentacao\/","title":{"rendered":"A soberania tamb\u00e9m est\u00e1 em nossa alimenta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e de escolher o que plantamos, como plantamos, como colhemos, como distribu\u00edmos e at\u00e9 mesmo como cozinhamos \u00e9 o que se conhece como soberania alimentar: um conceito central quando se discute a soberania dos povos, introduzido pelo movimento campon\u00eas internacional conhecido como Via Campesina durante a<a href=\"https:\/\/www.fao.org\/4\/w3548s\/w3548s00.htm\"> C\u00fapula Mundial da Alimenta\u00e7\u00e3o de 1996<\/a>.<\/p>\n<p>A soberania alimentar \u00e9 definida como \u201co direito dos povos, de seus pa\u00edses ou de uni\u00f5es de Estados de definir suas pol\u00edticas agr\u00edcolas e alimentares sem a interfer\u00eancia de pa\u00edses terceiros\u201d. Ela difere da seguran\u00e7a alimentar, um termo usado por organiza\u00e7\u00f5es multilaterais como a FAO, que se concentra exclusivamente na garantia de ter alimentos, independentemente de sua origem, de como foram produzidos ou das consequ\u00eancias dessa produ\u00e7\u00e3o. Esse conceito n\u00e3o inclui elementos de vital import\u00e2ncia, como a propriedade da terra, os direitos dos agricultores ou o uso de t\u00e9cnicas agr\u00edcolas que prejudicam a natureza, entre outros.<\/p>\n<p>De acordo com um<a href=\"https:\/\/openknowledge.fao.org\/server\/api\/core\/bitstreams\/9a0fca06-5c5b-4bd5-89eb-5dbec0f27274\/content\"> relat\u00f3rio da FAO de 2020<\/a>, 690 milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo sofriam de desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica. Esse n\u00famero subiu para<a href=\"https:\/\/www.fao.org\/venezuela\/noticias\/detail-events\/fr\/c\/1713066\/\"> 733 milh\u00f5es em 2024<\/a> e estima-se que chegue a 840 milh\u00f5es at\u00e9 2030. Se incluirmos aqueles com desnutri\u00e7\u00e3o moderada, o n\u00famero sobe para mais de 2,5 bilh\u00f5es de pessoas. Em 2020, esperava-se que entre 83 e 132 milh\u00f5es de pessoas fossem adicionadas \u00e0 lista daqueles que sofrem de desnutri\u00e7\u00e3o exclusivamente como resultado da pandemia.<\/p>\n<p>Falar de soberania alimentar \u00e9 falar da viabilidade da humanidade. Em tempos de crise clim\u00e1tica, as contradi\u00e7\u00f5es desse modelo civilizacional tornaram-se evidentes. Indicadores da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO) revelam que \u00e9 produzida comida suficiente globalmente para alimentar toda a popula\u00e7\u00e3o. O problema, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 produzir mais. O problema reside no tipo de alimento que est\u00e1 sendo produzido, nas tecnologias utilizadas e na forma como os alimentos s\u00e3o distribu\u00eddos. No contexto de um modelo socioecon\u00f4mico letal como o capitalismo, a produ\u00e7\u00e3o de alimentos n\u00e3o visa alimentar seres humanos, mas gerar capital para um punhado de corpora\u00e7\u00f5es. Essas corpora\u00e7\u00f5es, assim como as ind\u00fastrias de armas e farmac\u00eautica, est\u00e3o entre as mais poderosas do mundo. Essas empresas promovem a Revolu\u00e7\u00e3o Verde, que inclui agricultura intensiva, patentes de sementes, o uso de OGMs (Organismos geneticamente modificados) e, com isso, o mercado de fertilizantes e pesticidas, bem como o controle sobre as decis\u00f5es relativas ao que e quanto plantar, como distribuir as safras, a quem financiar e assim por diante. Sob o capitalismo, a comida \u00e9 uma mercadoria. Ela n\u00e3o \u00e9 valorizada por seu valor de uso. \u00c9 valorizada porque pode ser trocada. Tem valor porque gera capital.<\/p>\n<p>A coloniza\u00e7\u00e3o desmantelou os sistemas agr\u00edcolas locais, as redes de troca e o pr\u00f3prio conceito de terra como bem comum. A fome est\u00e1 ligada \u00e0 pobreza. Os pobres s\u00e3o os mais afetados pela fome e, dentro desse grupo, mulheres, crian\u00e7as e idosos s\u00e3o os que mais sofrem. A fome n\u00e3o \u00e9 democr\u00e1tica. Um exemplo claro \u00e9 o que foi observado no Sahel, onde os colonizadores europeus reorganizaram a terra e as identidades, causando divis\u00f5es e rivalidades entre aqueles que praticavam a transum\u00e2ncia (pastores) e aqueles cuja atividade tradicional se centrava na agricultura. A concess\u00e3o de privil\u00e9gios a um grupo criou classes sociais e um conflito que foi intensificado pela perda de terras, restri\u00e7\u00f5es h\u00eddricas e desertifica\u00e7\u00e3o causadas pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Um caso descrito em um estudo recente do<a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/es\/dossier-lucha-clases-clima-sahel\/\"> Instituto Tricontinental de Pesquisa Social<\/a> nos mostra que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o s\u00e3o a causa prim\u00e1ria do problema, mas sim um acelerador. S\u00e3o a civiliza\u00e7\u00e3o moderna, os processos de coloniza\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento do capitalismo que produziram as opress\u00f5es de classe, ra\u00e7a e g\u00eanero \u2014 opress\u00f5es que se manifestam, dentre outras formas, como a fome de vastos setores da popula\u00e7\u00e3o mundial. Um sistema baseado na expropria\u00e7\u00e3o de terras e na depend\u00eancia tecnol\u00f3gica de sistemas agr\u00edcolas predat\u00f3rios que negam aos camponeses seus direitos e desferem um golpe fatal a qualquer semblante de soberania alimentar.<\/p>\n<p>Em 28 de fevereiro deste ano, acordamos com (mais uma) not\u00edcia terr\u00edvel: a alian\u00e7a criminosa entre os EUA e Israel atacou a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica do Ir\u00e3. Essa agress\u00e3o ilegal e implac\u00e1vel est\u00e1 produzindo consequ\u00eancias aparentemente n\u00e3o calculadas pelos agressores: o fechamento do Estreito de Ormuz. O que isso tem a ver com alimentos? Os pa\u00edses do Golfo P\u00e9rsico s\u00e3o grandes produtores de fertilizantes nitrogenados e fosfatados, e cerca de 16 milh\u00f5es de toneladas de fertilizantes (entre 20% e 30% do total global) passam pelo Estreito de Ormuz anualmente. N\u00e3o s\u00e3o apenas g\u00e1s e petr\u00f3leo que s\u00e3o transportados por esse corredor.<\/p>\n<p>Conforme revelado pela FAO em seu<a href=\"https:\/\/openknowledge.fao.org\/server\/api\/core\/bitstreams\/6e175882-a53f-49e3-a1cb-219daaddb865\/content\"> relat\u00f3rio CL 180\/3<\/a>, datado de 28 de abril, o fechamento do Estreito de Ormuz afeta o centro nevr\u00e1lgico das cadeias de abastecimento energ\u00e9tico e amea\u00e7a um ponto de estrangulamento estrat\u00e9gico com consequ\u00eancias que impactar\u00e3o a cadeia global de produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Uma diminui\u00e7\u00e3o no abastecimento de fertilizantes levar\u00e1 a uma redu\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas cultivadas, o que afetar\u00e1 significativamente os pre\u00e7os dos alimentos. \u00cdndia e China, por exemplo, importam 20% de seus fertilizantes do Golfo. Bangladesh \u00e9 ainda mais vulner\u00e1vel, dependendo do Golfo para 53% de seus fertilizantes. Na Am\u00e9rica Latina, os efeitos n\u00e3o passar\u00e3o despercebidos. O Brasil obt\u00e9m um quinto de seus fertilizantes do Golfo. Como tamb\u00e9m \u00e9 um grande exportador de milho, soja e a\u00e7\u00facar, o decl\u00ednio concomitante em sua produ\u00e7\u00e3o afetar\u00e1 pa\u00edses terceiros que dependem das importa\u00e7\u00f5es do Brasil. O relat\u00f3rio estima um decl\u00ednio na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola at\u00e9 o final deste ano, com consequ\u00eancias de longo prazo, se o fechamento do Estreito durar mais de tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>Temos visto que um sistema que transformou a produ\u00e7\u00e3o de alimentos em uma cadeia comercial dependente de insumos industriais, rotas de transporte de longa dist\u00e2ncia e crescentes necessidades energ\u00e9ticas fica preso em um ciclo vicioso quando esse mesmo sistema, por meio de suas guerras, perturba toda a sua base funcional.<\/p>\n<p>Felizmente, muitas comunidades t\u00eam respondido a essa armadilha construindo redes e revivendo ou adaptando conhecimentos e t\u00e9cnicas ancestrais para a produ\u00e7\u00e3o soberana de alimentos. Exemplos podem ser encontrados entre os agricultores da Tanz\u00e2nia, organizados na Associa\u00e7\u00e3o Mviwata, as mulheres da Associa\u00e7\u00e3o Watinoma em Burkina Faso, ou os milhares de militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil que recuperaram terras que s\u00e3o trabalhadas coletivamente e t\u00eam como vis\u00e3o a agroecologia, o que os liberta da depend\u00eancia de agroqu\u00edmicos e das redes predat\u00f3rias do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Na Venezuela, a Alian\u00e7a Cientista-Agricultor \u00e9 um testemunho vivo de como as capacidades produtivas das comunidades se combinam com as capacidades das universidades para enfrentar situa\u00e7\u00f5es extremamente graves por meio de bancos de sementes. Esses esfor\u00e7os geram ganhos em conhecimento e no fortalecimento de metodologias para a agricultura agroecol\u00f3gica e a preserva\u00e7\u00e3o de sementes. A organiza\u00e7\u00e3o em redes permite conectar produtores e consumidores e tomar decis\u00f5es de maneira verdadeiramente soberana. Vale ressaltar que foram essas redes que fizeram a diferen\u00e7a, produzindo alimentos em um momento em que as mais de mil medidas coercitivas unilaterais impostas \u00e0 Venezuela buscavam impedir o acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o para a maioria do povo venezuelano.<\/p>\n<p>A defesa da soberania alimentar \u00e9 uma luta pela liberta\u00e7\u00e3o dos povos contra um sistema de morte \u2014 o capitalismo \u2014 que, em tempos de decl\u00ednio, tenta se impor por meio de guerras e formas cada vez mais violentas de domina\u00e7\u00e3o. Contra esse sistema, os povos do mundo dizem sim \u00e0 vida e a uma reconex\u00e3o com suas ra\u00edzes e com a M\u00e3e Terra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e de escolher o que plantamos, como plantamos, como colhemos, como distribu\u00edmos e at\u00e9 mesmo como cozinhamos \u00e9 o que se conhece como soberania alimentar: um conceito central quando se discute a soberania dos povos, introduzido pelo movimento campon\u00eas internacional conhecido como Via Campesina durante a C\u00fapula Mundial da Alimenta\u00e7\u00e3o de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":417,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[348],"tags":[675,1353,890,799,620,1062,893,613,1044],"article-type":[624,625],"class_list":["post-12861","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-globetrotter-pt-br","tag-africa-tanzania-pt-br","tag-alimentacao","tag-america-do-sul-brasil","tag-comunidade","tag-guerra-pt-br","tag-meio-ambiente","tag-mudancas-climaticas","tag-opiniao","tag-oriente-medio-ira","article-type-news-pt-br","article-type-opinion-analysis-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12861","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/417"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12861"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12861\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12861"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12861"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12861"},{"taxonomy":"article-type","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/article-type?post=12861"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}