{"id":12751,"date":"2026-05-20T07:43:32","date_gmt":"2026-05-20T11:43:32","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=12751"},"modified":"2026-05-22T09:04:31","modified_gmt":"2026-05-22T13:04:31","slug":"donald-trump-foi-a-pequim-de-chapeu-na-mao-e-partiu-com-um-aperto-de-mao-de-xi-jinping","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2026\/05\/20\/donald-trump-foi-a-pequim-de-chapeu-na-mao-e-partiu-com-um-aperto-de-mao-de-xi-jinping\/","title":{"rendered":"Donald Trump foi a Pequim de chap\u00e9u na m\u00e3o e partiu com um aperto de m\u00e3o de Xi Jinping\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>As cenas que se desenrolaram em Pequim foram cuidadosamente coreografadas, mas a pol\u00edtica nunca pode ser reduzida a mero espet\u00e1culo. Quando o presidente dos EUA, Donald Trump, viajou \u00e0 China para sua reuni\u00e3o de alto n\u00edvel com Xi Jinping, a m\u00eddia ocidental, como costuma fazer, fixou-se no espet\u00e1culo: banquetes luxuosos, guardas de honra, gestos teatrais concebidos para bajular o presidente dos EUA. No entanto, por tr\u00e1s de todo esse ritual, havia outra realidade, mais dura e com consequ\u00eancias mais graves. Os Estados Unidos n\u00e3o chegaram a Pequim em uma posi\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a; chegaram em um estado de vulnerabilidade. Washington chegou sobrecarregada por v\u00e1rias crises de sua pr\u00f3pria autoria: um confronto perigoso e ilegal com o Ir\u00e3 que Washington havia arquitetado ao lado de Tel Aviv, instabilidade econ\u00f4mica global, isolamento diplom\u00e1tico cada vez mais profundo em grande parte do Sul Global e ansiedade crescente diante da eros\u00e3o da supremacia industrial e tecnol\u00f3gica dos EUA. Enquanto isso, a China entrou nas negocia\u00e7\u00f5es com serenidade. Pequim n\u00e3o precisava de gestos dram\u00e1ticos, apenas demonstrar que a mar\u00e9 da hist\u00f3ria havia mudado.<\/p>\n<p>A c\u00fapula revelou uma verdade que muitos pa\u00edses da \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica Latina j\u00e1 compreendem instintivamente: os Estados Unidos continuam sendo militarmente perigosos, mas n\u00e3o possuem mais autoridade pol\u00edtica inquestion\u00e1vel. A postura da China na c\u00fapula refletiu esse novo equil\u00edbrio global. At\u00e9 mesmo analistas ocidentais do <i>establishment<\/i> perceberam a mudan\u00e7a. O Council on Foreign Relations <a href=\"https:\/\/us.list-manage.com\/15BFETszcwH?e=ad573e7db3&amp;c2id=44eab90516a71ee29cf7af868ccd7a2c\">reconheceu<\/a> antes da reuni\u00e3o que \u201ca China ter\u00e1 a m\u00e3o mais forte&#8221;. Durante d\u00e9cadas, os Estados Unidos insistiram que a China permanecesse subordinada a uma ordem mundial projetada por eles. Em Pequim, no entanto, a realidade se inverteu. Trump n\u00e3o chegou para ditar condi\u00e7\u00f5es; ele chegou em busca de ajuda.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do Ir\u00e3 exp\u00f4s essa din\u00e2mica com maior clareza. Os Estados Unidos encontram-se presos em um ciclo de militarismo sem fim na \u00c1sia Ocidental. As guerras ilegais lan\u00e7adas ao longo do \u00faltimo quarto de s\u00e9culo \u2014 do Iraque \u00e0 S\u00edria, passando pelo confronto em curso com o Ir\u00e3 \u2014 enfraqueceram os Estados Unidos estrategicamente, ao mesmo tempo em que trouxeram imenso sofrimento \u00e0 regi\u00e3o. Washington agora compreende que n\u00e3o pode estabilizar a situa\u00e7\u00e3o por conta pr\u00f3pria. A China, devido aos seus la\u00e7os econ\u00f4micos com o Ir\u00e3 e \u00e0 sua crescente estatura diplom\u00e1tica, possui a influ\u00eancia que falta aos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Analistas descreveram explicitamente a depend\u00eancia de Washington. A <i>Al Jazeera<\/i> <a href=\"https:\/\/us.list-manage.com\/12V2c0HyGqI?e=ad573e7db3&amp;c2id=44eab90516a71ee29cf7af868ccd7a2c\">noticiou<\/a> que autoridades americanas esperavam que a China \u201cdesempenhasse um papel maior para pressionar o Ir\u00e3\u201d no sentido de uma distens\u00e3o. Uma an\u00e1lise da Northeastern University <a href=\"https:\/\/us.list-manage.com\/6cc7U7gXYoY?e=ad573e7db3&amp;c2id=44eab90516a71ee29cf7af868ccd7a2c\">observou<\/a> que os observadores estavam acompanhando de perto para ver \u201cse os EUA pedir\u00e3o ajuda \u00e0 China para o conflito em curso no Ir\u00e3\u201d. At\u00e9 mesmo a pr\u00f3pria agenda da c\u00fapula de Trump refletiu essa depend\u00eancia, com discuss\u00f5es fortemente centradas no Estreito de Ormuz, no programa nuclear do Ir\u00e3 e na estabilidade regional. Este \u00e9 o ponto crucial: os Estados Unidos, que passaram d\u00e9cadas proclamando-se indispens\u00e1veis, agora precisam da coopera\u00e7\u00e3o chinesa para gerenciar crises que, em grande parte, eles mesmos criaram.<\/p>\n<p><b>A serenidade da China<\/b><\/p>\n<p>A China reconheceu essa realidade e agiu de acordo com ela. O presidente chin\u00eas Xi Jinping n\u00e3o assumiu posturas exageradas. Ele n\u00e3o fez amea\u00e7as teatrais. Ele n\u00e3o se envolveu na volatilidade emocional que agora caracteriza grande parte da cultura pol\u00edtica dos EUA. Em vez disso, ele projetou estabilidade.<\/p>\n<p>Sobre Taiwan, Xi foi firme, sem histeria. De acordo com relatos da c\u00fapula, ele alertou que o manejo inadequado da quest\u00e3o poderia levar a \u201cconflitos\u201d. N\u00e3o se tratou da linguagem do p\u00e2nico; era a linguagem da clareza estrat\u00e9gica. Pequim entende que o maior perigo na pol\u00edtica mundial hoje n\u00e3o vem de pot\u00eancias emergentes que exigem respeito, mas de uma pot\u00eancia mundial em decl\u00ednio (os Estados Unidos) que se recusa a aceitar limites. Essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 profundamente importante para o Sul Global. Muitos pa\u00edses do Sul t\u00eam longa experi\u00eancia em lidar com a instabilidade imperial. Eles sabem que imp\u00e9rios em decl\u00ednio tornam-se imprevis\u00edveis (\u00e9 por isso que Xi <a href=\"https:\/\/us.list-manage.com\/BCtF22dJb5h?e=ad573e7db3&amp;c2id=44eab90516a71ee29cf7af868ccd7a2c\">levantou<\/a> a quest\u00e3o da Armadilha de Tuc\u00eddides \u2014 a ideia de que uma pot\u00eancia em decl\u00ednio se torna agressiva contra pot\u00eancias emergentes \u2014 e insistiu para que isso fosse deixado de lado em favor do desenvolvimento pac\u00edfico para todos). O decl\u00ednio econ\u00f4mico frequentemente gera militarismo; a fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica gera agress\u00e3o externa. Os Estados Unidos hoje exibe precisamente essas caracter\u00edsticas. Sua elite fala constantemente de \u201ccompeti\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cconten\u00e7\u00e3o\u201d, enquanto suas institui\u00e7\u00f5es internas sofrem profundas crises de legitimidade.<\/p>\n<p>A conduta da China na c\u00fapula, portanto, ofereceu uma li\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que se estende muito al\u00e9m do Leste Asi\u00e1tico. Xi demonstrou que \u00e9 poss\u00edvel resistir \u00e0 press\u00e3o dos EUA sem capitular ou recorrer a teatralidades. N\u00e3o houve necessidade de den\u00fancias emocionais ou grandiosidade simb\u00f3lica. A China abordou os Estados Unidos como um interlocutor soberano e igual e insistiu nessa igualdade com calma. Essa postura \u00e9 de enorme import\u00e2ncia para os pa\u00edses do Sul Global, muitos dos quais est\u00e3o tentando construir projetos de desenvolvimento soberano sob imensa press\u00e3o. O antigo modelo, de submiss\u00e3o a Washington em troca de estabilidade tempor\u00e1ria, est\u00e1 cada vez mais desacreditado. Em toda a \u00c1frica, Am\u00e9rica Latina e \u00c1sia, os governos agora buscam alternativas: integra\u00e7\u00e3o regional, coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul, rela\u00e7\u00f5es comerciais diversificadas e autonomia estrat\u00e9gica. A c\u00fapula ilustrou que tal autonomia n\u00e3o \u00e9 mais meramente uma aspira\u00e7\u00e3o; ela \u00e9 materialmente poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A delega\u00e7\u00e3o de Trump revelou a mudan\u00e7a na hierarquia da economia mundial. O presidente dos EUA chegou acompanhado por importantes executivos de grandes corpora\u00e7\u00f5es ansiosos por acesso ao mercado chin\u00eas. As discuss\u00f5es em torno de compras agr\u00edcolas, vendas da Boeing, terras raras e tecnologia refletiram uma verdade mais profunda: os Estados Unidos precisam da China economicamente de maneiras e num grau que a China j\u00e1 n\u00e3o precisa dos Estados Unidos. A China concordou em expandir as importa\u00e7\u00f5es de produtos agr\u00edcolas dos EUA, uma medida destinada, em parte, a aliviar a press\u00e3o sobre os agricultores americanos prejudicados pela pr\u00f3pria guerra comercial de Trump. Isso \u00e9 revelador: a guerra comercial, originalmente enquadrada por Washington como uma demonstra\u00e7\u00e3o da for\u00e7a dos EUA, tornou-se agora uma situa\u00e7\u00e3o da qual Washington busca al\u00edvio.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a China continua a construir pacientemente capacidades industriais de longo prazo, avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e redes diplom\u00e1ticas pela Eur\u00e1sia, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina. A estrat\u00e9gia de Pequim n\u00e3o se baseia principalmente em alian\u00e7as militares, mas em infraestrutura, com\u00e9rcio, finan\u00e7as e desenvolvimento. Pode-se criticar aspectos dessa estrat\u00e9gia, mas ela representa uma abordagem do poder global fundamentalmente diferente da doutrina da guerra permanente que tem dominado a pol\u00edtica externa dos EUA desde o fim da Guerra Fria.<\/p>\n<p>Nada disso significa que a China esteja isenta de contradi\u00e7\u00f5es ou que a pol\u00edtica global tenha se tornado benigna. N\u00e3o se tornou. Mas a c\u00fapula esclareceu um desdobramento hist\u00f3rico essencial: a era da supremacia incontestada dos EUA chegou ao fim. Os Estados Unidos ainda possuem um enorme poder militar. Podem infligir viol\u00eancia catastr\u00f3fica. Essa capacidade perigosa permanece real. Mas a confian\u00e7a pol\u00edtica que outrora acompanhava o poder dos EUA se desgastou. Washington oscila cada vez mais entre amea\u00e7as e apelos, coer\u00e7\u00e3o e pedidos de assist\u00eancia. As contradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o vis\u00edveis para todos.<\/p>\n<p>A resposta da China na c\u00fapula n\u00e3o foi, portanto, meramente diplom\u00e1tica; foi pedag\u00f3gica. Para o Sul Global, a calma de Xi ofereceu um exemplo de como lidar com uma pot\u00eancia imperialista inst\u00e1vel: evitar o p\u00e2nico, manter a soberania, recusar a humilha\u00e7\u00e3o, construir capacidade de longo prazo e reconhecer que a hist\u00f3ria est\u00e1 em movimento. A c\u00fapula em Pequim n\u00e3o marcou a chegada de um s\u00e9culo chin\u00eas \u2014 a hist\u00f3ria \u00e9 mais complicada do que esses slogans \u2014, mas revelou uma consci\u00eancia mundial em transforma\u00e7\u00e3o. Mais pa\u00edses reconhecem agora que o futuro n\u00e3o pode ser organizado em torno das ansiedades de um imp\u00e9rio em decl\u00ednio.<\/p>\n<p>O \u201cnovo clima\u201d em todo o Sul Global surge precisamente desse reconhecimento. Na\u00e7\u00f5es que antes eram tratadas meramente como objetos da pol\u00edtica ocidental agora atuam cada vez mais como sujeitos da hist\u00f3ria. Elas buscam parceria em vez de domina\u00e7\u00e3o, desenvolvimento em vez de militariza\u00e7\u00e3o, dignidade em vez de depend\u00eancia. Em Pequim, Xi Jinping encarnou esse clima com not\u00e1vel disciplina. Os Estados Unidos vieram pedir ajuda; a China permaneceu serena. Grande parte do Sul Global observou atentamente, na esperan\u00e7a de que um dia tamb\u00e9m eles sejam capazes de lidar em p\u00e9 de igualdade com pot\u00eancias que continuam a trat\u00e1-los como inferiores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As cenas que se desenrolaram em Pequim foram cuidadosamente coreografadas, mas a pol\u00edtica nunca pode ser reduzida a mero espet\u00e1culo. 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