{"id":11700,"date":"2025-11-17T21:32:30","date_gmt":"2025-11-18T02:32:30","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=11700"},"modified":"2025-12-09T08:58:40","modified_gmt":"2025-12-09T13:58:40","slug":"crises-convergentes-capitalismo-pobreza-e-o-fracasso-do-capitalismo-verde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2025\/11\/17\/crises-convergentes-capitalismo-pobreza-e-o-fracasso-do-capitalismo-verde\/","title":{"rendered":"Crises convergentes: capitalismo, pobreza e o fracasso do capitalismo verde"},"content":{"rendered":"<p>No dia 17 de outubro de 2025, o Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) divulgou a edi\u00e7\u00e3o de 2025 do seu <a href=\"https:\/\/hdr.undp.org\/system\/files\/documents\/hdp-document\/2022mpireporten.pdf\">Relat\u00f3rio<\/a> sobre o \u00cdndice de Pobreza Multidimensional. Pela primeira vez, o relat\u00f3rio avalia diretamente os dados de pobreza multidimensional em confronto com os riscos clim\u00e1ticos, expondo at\u00e9 que ponto os pobres do mundo est\u00e3o amea\u00e7ados pela crise ambiental. De acordo com o PNUD, aproximadamente 887 milh\u00f5es dos 1,1 bilh\u00e3o de pessoas que vivem em pobreza multidimensional est\u00e3o expostas a riscos clim\u00e1ticos, como calor extremo, inunda\u00e7\u00f5es, secas e polui\u00e7\u00e3o do ar.<\/p>\n<p>Do total, 651 milh\u00f5es enfrentam dois ou mais riscos, e 309 milh\u00f5es enfrentam o \u201cfardo triplo ou qu\u00e1druplo\u201d de tr\u00eas ou quatro riscos sobrepostos. O relat\u00f3rio afirma que \u201cresponder a riscos sobrepostos [pobreza e riscos clim\u00e1ticos] requer priorizar tanto as pessoas quanto o planeta\u201d; no entanto, ele n\u00e3o especifica o que deve ser priorizado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas e ao planeta. O relat\u00f3rio carece de um diagn\u00f3stico claro.<\/p>\n<p><b>Novo dossi\u00ea da Tricontinental exp\u00f5e a crise clim\u00e1tica como uma crise capitalista<\/b><\/p>\n<p>Um novo dossi\u00ea da <i>Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social<\/i>, intitulado<a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/dossier-environmental-crisis\/\"> <i>A crise ambiental \u00e9 uma crise capitalista<\/i><\/a>, fornece esse diagn\u00f3stico que faltava. Ele explora o car\u00e1ter de classe da crise ambiental, observando que, durante d\u00e9cadas, os principais \u00f3rg\u00e3os e organiza\u00e7\u00f5es internacionais buscaram solu\u00e7\u00f5es apenas dentro da perspectiva do capitalismo. Juntos, o relat\u00f3rio do PNUD e o novo dossi\u00ea indicam que a crise clim\u00e1tica e a pobreza n\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es separadas, mas totalmente conectadas.<\/p>\n<p><b>Solu\u00e7\u00f5es fracassadas ao c\u00famulo do rid\u00edculo<\/b><\/p>\n<p>A Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (COP30), em Bel\u00e9m, Brasil, colocou a Amaz\u00f4nia no centro do discurso ambiental em 2025. O dossi\u00ea usa essa regi\u00e3o para expor como as abordagens capitalistas, promovidas em tais f\u00f3runs, t\u00eam falhado consistentemente em abordar as ra\u00edzes do colapso ambiental.<\/p>\n<p>O dossi\u00ea observa que a primeira tentativa s\u00e9ria de estabelecer metas quantitativas para a redu\u00e7\u00e3o dos gases de efeito estufa (GEE) surgiu na COP 3, em 1997. As metas de emiss\u00e3o do Protocolo de Kyoto tinham como objetivo reduzir a polui\u00e7\u00e3o do ar, mas se tornaram a base de uma nova forma de acumula\u00e7\u00e3o de capital por meio dos chamados cr\u00e9ditos de carbono. Esses cr\u00e9ditos, negociados em bolsas de valores, funcionam como uma \u201clicen\u00e7a para poluir\u201d, permitindo que as empresas compensem suas emiss\u00f5es investindo em projetos em outros lugares, muitas vezes no Sul Global.<\/p>\n<p>O fracasso dos esquemas de cr\u00e9ditos de carbono e do \u201ccapitalismo verde\u201d \u00e9 demonstrado pelo fato ineg\u00e1vel de que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas se intensificam e aceleram ano ap\u00f3s ano. No Brasil, o capitalismo verde permitiu que o agroneg\u00f3cio \u2014a maior fonte de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa (GEE) do pa\u00eds\u2014 se apresentasse como protagonista da sustentabilidade. Ao mesmo tempo, seu modelo de produ\u00e7\u00e3o, baseado em \u201cmonoculturas em grande escala e pesticidas, continua sendo um dos mais prejudiciais ao meio ambiente\u201d. O setor adota um discurso de sustentabilidade, embora tenha registrado um aumento de 130% nas emiss\u00f5es nos \u00faltimos 20 anos.<\/p>\n<p>Como observa o dossi\u00ea, \u201cempresas brasileiras como a Suzano Papel e Celulose, a multinacional de alimentos JBS e a mineradora Vale desempenham um papel importante em projetos de \u2018sustentabilidade\u2019 e no mercado de carbono. Para elas, os esquemas de compensa\u00e7\u00e3o se tornaram uma forma lucrativa de acumula\u00e7\u00e3o de capital\u201d.<\/p>\n<p>Um exemplo importante do fracasso dessa abordagem de compensa\u00e7\u00e3o de carbono \u00e9 o projeto Ma\u00edsa, no Par\u00e1. Administrado pela Verra, l\u00edder em certifica\u00e7\u00e3o de carbono, o projeto foi criado para preservar uma \u00e1rea de 26 mil hectares da floresta amaz\u00f4nica. Em vez disso, a \u00e1rea se tornou um local de minera\u00e7\u00e3o e, no in\u00edcio de 2024, dezesseis trabalhadores rurais foram resgatados de condi\u00e7\u00f5es compar\u00e1veis \u00e0 escravid\u00e3o. Esses s\u00e3o exatamente os tipos de projetos usados por gigantes transnacionais como iFood, Uber e Google para reivindicar credenciais ecol\u00f3gicas.<\/p>\n<p><b>A l\u00f3gica central: classe, capital e uma crise de desigualdade<\/b><\/p>\n<p>O dossi\u00ea desafia diretamente a no\u00e7\u00e3o despolitizada da crise ambiental como \u201cum problema para toda a humanidade \u2014sem distin\u00e7\u00f5es de classe\u201d. Essa narrativa obscurece a realidade de quem impulsiona a crise e quem sofre suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Os dados s\u00e3o inequ\u00edvocos. O dossi\u00ea observa que \u201cos 10% mais ricos s\u00e3o respons\u00e1veis por quase vinte vezes mais emiss\u00f5es do que os 50% mais pobres\u201d e que \u201cos 23 pa\u00edses mais desenvolvidos s\u00e3o respons\u00e1veis por metade de todas as emiss\u00f5es de CO2 desde 1850\u201d.<\/p>\n<p>Os riscos clim\u00e1ticos enfrentados pelos pobres globais, cuidadosamente descritos no relat\u00f3rio do PNUD, n\u00e3o s\u00e3o uma injusti\u00e7a casual. Eles s\u00e3o o resultado direto da l\u00f3gica central da acumula\u00e7\u00e3o de capital perseguida pelas classes dominantes do Norte e do Sul globais. O relat\u00f3rio do PNUD descreve o sul da \u00c1sia e a \u00c1frica Subsaariana como as regi\u00f5es mais expostas aos riscos clim\u00e1ticos. Essa concentra\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica reflete diretamente a hist\u00f3ria da pilhagem imperialista. As consequ\u00eancias das emiss\u00f5es hist\u00f3ricas no Norte Global s\u00e3o jogadas sobre as massas do Sul Global.<\/p>\n<p><b>Solu\u00e7\u00f5es verdadeiras vindas de baixo<\/b><\/p>\n<p>O dossi\u00ea discute as limita\u00e7\u00f5es das Confer\u00eancias das Partes (COPs) e n\u00e3o espera nenhum progresso substancial da 30\u00aa confer\u00eancia. No entanto, reconhece que os movimentos populares est\u00e3o usando-a para pressionar seus governos a \u201cgarantir uma agenda m\u00ednima que responsabilize as classes sociais e os pa\u00edses mais respons\u00e1veis pela polui\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O dossi\u00ea demonstra que os interesses do capital est\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o direta com os interesses do meio ambiente e dos seres humanos que o habitam. Uma agenda capaz de resolver a crise ambiental deve \u201cdesafiar a l\u00f3gica do capital \u2014baseada na explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra da classe trabalhadora e na pilhagem do Sul Global\u201d.<\/p>\n<p>O dossi\u00ea destaca que o fracasso at\u00e9 agora em lidar adequadamente com a crise se deve ao car\u00e1ter de classe das institui\u00e7\u00f5es e \u00f3rg\u00e3os no poder. Lidar com ela \u201c\u00e9 tarefa das classes trabalhadoras rurais e urbanas\u201d. O dossi\u00ea proclama que \u201cdevemos criar outra forma de produzir e reproduzir a vida, baseada em rela\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis entre os seres humanos e o meio ambiente e constru\u00edda por meio da organiza\u00e7\u00e3o popular\u201d. Esse caminho a seguir deve expor os verdadeiros culpados da crise e apresentar propostas que priorizem todas as formas de vida em detrimento do lucro.\u201d<\/p>\n<p>Para esse fim, a Tricontinental, em colabora\u00e7\u00e3o com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Brasil, produziu uma \u201cAgenda M\u00ednima para Enfrentar a Crise Ambiental\u201d. Essa agenda abrangente foi lida e debatida por organiza\u00e7\u00f5es em todo o mundo na prepara\u00e7\u00e3o para a COP30. O que iniciativas como essas demonstram \u00e9 que os quase um bilh\u00e3o de pessoas no Sul Global que enfrentam os riscos clim\u00e1ticos n\u00e3o v\u00e3o esperar por solu\u00e7\u00f5es do Norte Global. Elas est\u00e3o, neste momento, impulsionando a agenda para a mudan\u00e7a que as pessoas e o planeta precisam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 17 de outubro de 2025, o Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) divulgou a edi\u00e7\u00e3o de 2025 do seu Relat\u00f3rio sobre o \u00cdndice de Pobreza Multidimensional. Pela primeira vez, o relat\u00f3rio avalia diretamente os dados de pobreza multidimensional em confronto com os riscos clim\u00e1ticos, expondo at\u00e9 que ponto os pobres do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":444,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[348],"tags":[890,862,1062,893,616,618],"article-type":[624,625],"class_list":["post-11700","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-globetrotter-pt-br","tag-america-do-sul-brasil","tag-direitos-humanos","tag-meio-ambiente","tag-mudancas-climaticas","tag-noticias-pt-br","tag-politica-pt-br","article-type-news-pt-br","article-type-opinion-analysis-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11700","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/444"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11700"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11700\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11700"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11700"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11700"},{"taxonomy":"article-type","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/article-type?post=11700"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}