{"id":11681,"date":"2025-11-26T16:44:09","date_gmt":"2025-11-26T21:44:09","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=11681"},"modified":"2025-12-01T08:08:49","modified_gmt":"2025-12-01T13:08:49","slug":"o-caribe-tem-duas-opcoes-juntar-se-a-tentativa-dos-eua-de-intimidar-a-venezuela-ou-construir-sua-propria-soberania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2025\/11\/26\/o-caribe-tem-duas-opcoes-juntar-se-a-tentativa-dos-eua-de-intimidar-a-venezuela-ou-construir-sua-propria-soberania\/","title":{"rendered":"O Caribe tem duas op\u00e7\u00f5es: juntar-se \u00e0 tentativa dos EUA de intimidar a Venezuela ou construir sua pr\u00f3pria soberania"},"content":{"rendered":"<p>O presidente dos EUA, Donald Trump, <a href=\"https:\/\/stories.theconversation.com\/tracking-the-us-military-in-the-caribbean\/\">autorizou<\/a> o porta-avi\u00f5es <i>USS Gerald R. Ford<\/i> a entrar no Caribe. O navio agora est\u00e1 ao norte de Porto Rico, juntando-se ao <i>USS Iwo Jima<\/i> e outros recursos da Marinha dos EUA para amea\u00e7ar a Venezuela com um ataque. As tens\u00f5es est\u00e3o altas no Caribe, com v\u00e1rias teorias circulando sobre a possibilidade do que parece ser um ataque inevit\u00e1vel dos EUA e sobre a cat\u00e1strofe social que tal ataque causaria. A CARICOM, \u00f3rg\u00e3o regional dos pa\u00edses do Caribe, divulgou uma <a href=\"https:\/\/caricom.org\/statement-from-the-caribbean-community-security-build-up-in-the-region\/\">declara\u00e7\u00e3o<\/a> afirmando sua vis\u00e3o de que a regi\u00e3o deve ser uma \u201czona de paz\u201d e que as disputas devem ser resolvidas pacificamente. Dez ex-chefes de governo de estados caribenhos publicaram uma <a href=\"https:\/\/www.stvincenttimes.com\/10-former-caricom-heads-warn-against-us-military-buildup-in-regional-waters\/\">carta<\/a> exigindo que \u201cnossa regi\u00e3o nunca se torne um pe\u00e3o nas rivalidades dos outros\u201d.<\/p>\n<p>O ex-primeiro-ministro de Trinidad e Tobago, Stuart Young, declarou no dia 21 de agosto: \u201cA CARICOM e nossa regi\u00e3o s\u00e3o uma zona de paz reconhecida, e \u00e9 fundamental que assim seja mantida\u201d. Trinidad e Tobago, <a href=\"https:\/\/newsday.co.tt\/2025\/08\/22\/young-on-us-venezuela-conflict-caricom-must-remain-a-zone-of-peace\/\">disse ele<\/a>, \u201crespeitou e defendeu os princ\u00edpios de n\u00e3o-interven\u00e7\u00e3o e n\u00e3o-interfer\u00eancia nos assuntos internos de outros pa\u00edses, e por um bom motivo\u201d. \u00c0 primeira vista, parece que ningu\u00e9m no Caribe quer que os Estados Unidos ataquem a Venezuela.<\/p>\n<p>No entanto, a atual primeira-ministra de Trinidad e Tobago, Kamla Persad-Bissessar (conhecida pelas iniciais KPB), disse abertamente que apoia as a\u00e7\u00f5es dos EUA no Caribe. Isso inclui o assassinato ilegal de 83 pessoas em 21 <a href=\"https:\/\/edition.cnn.com\/2025\/11\/02\/politics\/timeline-us-strikes-caribbean-pacific-vis\">ataques a\u00e9reos<\/a> desde o dia 2 de setembro de 2025. De fato, quando a CARICOM divulgou sua declara\u00e7\u00e3o sobre a regi\u00e3o ser uma zona de paz, Trinidad e Tobago se retirou da declara\u00e7\u00e3o. Por que a primeira-ministra de Trinidad e Tobago se op\u00f4s a toda a lideran\u00e7a da CARICOM e apoiou a aventura militar do governo Trump no Caribe?<\/p>\n<p><b>Quintal<\/b><\/p>\n<p>Desde a Doutrina Monroe (1823), os Estados Unidos tratam toda a Am\u00e9rica Latina e o Caribe como seu \u201cquintal\u201d. Os Estados Unidos intervieram em pelo menos 30 dos 33 pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e do Caribe (ou seja, 90% dos pa\u00edses) \u2013 desde o ataque dos EUA \u00e0s Ilhas Malvinas da Argentina (1831-32) at\u00e9 as atuais amea\u00e7as contra a Venezuela.<\/p>\n<p>A ideia da \u201czona de paz\u201d surgiu em 1971, quando a Assembleia Geral da ONU <a href=\"https:\/\/digitallibrary.un.org\/record\/192075?ln=en\">votou a<\/a> favor do Oceano \u00cdndico como \u201czona de paz\u201d. Nas duas d\u00e9cadas seguintes, quando a CARICOM debateu esse conceito para o Caribe, os Estados Unidos intervieram em, ao menos, Rep\u00fablica Dominicana (ap\u00f3s 1965), Jamaica (1972-1976), Guiana (1974-1976), Barbados (1976-1978), Granada (1979-1983), Nicar\u00e1gua (1981-1988), Suriname (1982-1988) e Haiti (1986).<\/p>\n<p>Em 1986, na c\u00fapula da CARICOM na Guiana, o primeiro-ministro de Barbados, Errol Barrow, <a href=\"https:\/\/www.pambazuka.org\/Caribbean-Peace\">disse:<\/a> \u201cminha posi\u00e7\u00e3o continua clara: o Caribe deve ser reconhecido e respeitado como uma zona de paz&#8230; Eu disse e repito que, enquanto for primeiro-ministro de Barbados, nosso territ\u00f3rio n\u00e3o ser\u00e1 usado para intimidar nenhum de nossos vizinhos, seja Cuba ou os EUA\u201d. Desde que Barrow fez esse coment\u00e1rio, os l\u00edderes caribenhos t\u00eam afirmado pontualmente, contra os Estados Unidos, que n\u00e3o s\u00e3o o quintal de ningu\u00e9m e que suas \u00e1guas s\u00e3o uma zona de paz. Em 2014, em Havana, todos os membros da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) aprovaram uma \u201cproclama\u00e7\u00e3o de zona de paz\u201d<a href=\"https:\/\/misiones.cubaminrex.cu\/sites\/default\/files\/archivos\/editorindonesia\/articulos\/doc_3_3_zona_de_paz_ingles_0.pdf\"> com o objetivo<\/a> de \u201cerradicar para sempre a amea\u00e7a ou o uso da for\u00e7a\u201d na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Persad-Bissessar, ou KPB, rejeitou esse importante consenso entre as tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do Caribe. Por que isso?<\/p>\n<p><b>Trai\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>Em 1989, o l\u00edder sindical Basdeo Panday formou o Congresso Nacional Unido (UNC), uma forma\u00e7\u00e3o de centro-esquerda (cujo nome anterior era Caucus pelo Amor, Unidade e Irmandade). KPB se juntou ao partido de Panday e permaneceu no UNC desde ent\u00e3o. Ao longo de sua carreira, at\u00e9 recentemente, KPB permaneceu no centro do UNC, defendendo pol\u00edticas social-democratas e pr\u00f3-bem-estar social, seja como l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o ou em seu primeiro mandato como primeira-ministra (2010-2015). Entretanto, mesmo em seu primeiro mandato, KPB demonstrou que n\u00e3o permaneceria dentro dos limites da centro-esquerda, mas que se alinharia \u00e0 extrema-direita em uma quest\u00e3o: a criminalidade.<\/p>\n<p>Em 2011, KPB declarou estado de emerg\u00eancia para uma \u201cguerra contra o crime\u201d. De sua casa em San Fernando, KPB<a href=\"https:\/\/archives.newsday.co.tt\/2011\/08\/28\/strong-action-a-necessity\/\"> disse \u00e0<\/a> imprensa: \u201cA na\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser ref\u00e9m de grupos de bandidos empenhados em causar estragos em nossa sociedade [&#8230;] Temos que tomar medidas muito fortes\u201d, disse ela, \u201cmedidas muito decisivas\u201d. O governo prendeu sete mil pessoas, a maioria delas libertada por falta de provas, e a Lei Antigangues do governo n\u00e3o p\u00f4de ser aprovada: essa era uma pol\u00edtica que<a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/pdf\/10.1080\/00086495.2016.1203171\"> imitava as<\/a> campanhas antipobres do Norte Global. J\u00e1 nesse estado de emerg\u00eancia, KPB traiu o legado da UNC, que ela arrastou ainda mais para a direita.<\/p>\n<p>Quando KPB voltou ao poder em 2025, ela come\u00e7ou a imitar Trump com a ret\u00f3rica \u201cTrinidad e Tobago em primeiro lugar\u201d e com uma linguagem ainda mais dura contra suspeitos de tr\u00e1fico de drogas. Ap\u00f3s o primeiro ataque dos EUA a um pequeno barco, KPB fez uma forte<a href=\"https:\/\/newsday.co.tt\/2025\/09\/03\/kamla-says-kill-all-traffickers-as-trump-claims-lethal-strike-on-venezuelan-drug-boat-2\/\"> declara\u00e7\u00e3o<\/a> em apoio a ele: \u201cN\u00e3o tenho simpatia por traficantes, os militares dos EUA deveriam mat\u00e1-los todos violentamente\u201d. Pennelope Beckles, l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o em Trinidad e Tobago,<a href=\"https:\/\/newsday.co.tt\/2025\/09\/03\/beckles-pms-kill-traffickers-statement-reckless\/\"> disse que<\/a>, embora seu partido (o Movimento Nacional Popular) apoie a\u00e7\u00f5es en\u00e9rgicas contra o tr\u00e1fico de drogas, tais a\u00e7\u00f5es devem ser \u201clegais\u201d e que a \u201cdeclara\u00e7\u00e3o imprudente\u201d de KPB deve ser retratada. Em vez disso, KPB refor\u00e7ou seu apoio \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o do Caribe pelos EUA.<\/p>\n<p><b>Problemas<\/b><\/p>\n<p>Certamente, Trinidad e Tobago enfrenta um emaranhado de vulnerabilidades econ\u00f4micas (depend\u00eancia do petr\u00f3leo e do g\u00e1s, escassez de divisas, diversifica\u00e7\u00e3o lenta) e crises sociais (crime, desigualdade, migra\u00e7\u00e3o, exclus\u00e3o dos jovens). Tudo isso \u00e9 agravado pela fraqueza das institui\u00e7\u00f5es estatais para superar esses desafios. A fraqueza do regionalismo isola ainda mais os pa\u00edses pequenos, como Trinidad e Tobago, que s\u00e3o vulner\u00e1veis \u00e0 press\u00e3o dos pa\u00edses poderosos. Mas KPB n\u00e3o est\u00e1 agindo apenas por press\u00e3o de Trump; ela tomou uma decis\u00e3o pol\u00edtica de usar a for\u00e7a dos EUA para tentar resolver os problemas de seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Qual poderia ser sua estrat\u00e9gia? Primeiro, fazer com que os Estados Unidos bombardeiem pequenos barcos que talvez estejam envolvidos nas opera\u00e7\u00f5es de contrabando caribenhas que duram s\u00e9culos. Se os EUA bombardearem um n\u00famero suficiente desses pequenos barcos, os pequenos contrabandistas repensar\u00e3o o transporte de drogas, armas e <i>commodities<\/i> b\u00e1sicas de consumo. Segundo, usar a boa vontade gerada com Trump para incentivar investimentos na essencial, mas estagnada, ind\u00fastria petrol\u00edfera de Trinidad e Tobago. Pode haver ganhos de curto prazo para KPB. Trinidad e Tobago precisa de pelo menos 300 milh\u00f5es de d\u00f3lares, sen\u00e3o 700 milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano, para manuten\u00e7\u00e3o e moderniza\u00e7\u00e3o de suas f\u00e1bricas petroqu\u00edmicas e de g\u00e1s natural liquefeito (e, al\u00e9m disso, precisa de 5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para o desenvolvimento de campos <i>offshore<\/i> e a constru\u00e7\u00e3o de novas infraestruturas). O investimento maci\u00e7o da ExxonMobil na Guiana (que, segundo rumores, ultrapassa 10 bilh\u00f5es de d\u00f3lares) atraiu a aten\u00e7\u00e3o de todo o Caribe, onde outros pa\u00edses gostariam de receber esse tipo de investimento. Empresas como a ExxonMobil investiriam em Trinidad e Tobago? Se Trump quisesse recompensar a KPB por sua untuosidade, ele diria ao CEO da ExxonMobil, Darren Woods, para expandir o<a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/business\/energy\/trinidad-exxonmobil-agree-terms-deepwater-blocks-government-sources-say-2025-08-05\/\"> investimento em<\/a> blocos de \u00e1guas profundas que sua empresa j\u00e1 fez em Trinidad e Tobago. Talvez o c\u00e1lculo da KPB de deixar de lado as ideias de zona de paz lhe renda mais dinheiro das gigantes do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Mas o que essa trai\u00e7\u00e3o rompe? Certamente atrapalha ainda mais qualquer tentativa de construir a unidade caribenha e isola Trinidad e Tobago da sensibilidade mais ampla do Caribe contra o uso de suas \u00e1guas para confrontos militares dos EUA. Existem problemas reais em Trinidad e Tobago: aumento da viol\u00eancia relacionada a armas, tr\u00e1fico transnacional e migra\u00e7\u00e3o irregular atrav\u00e9s do Golfo de Paria. Esses problemas exigem solu\u00e7\u00f5es reais, n\u00e3o fantasias de interven\u00e7\u00e3o militar dos EUA. As interven\u00e7\u00f5es militares dos EUA n\u00e3o resolvem os problemas, mas aprofundam a depend\u00eancia, aumentam as tens\u00f5es e corroem a soberania de todos os pa\u00edses. Um ataque \u00e0 Venezuela n\u00e3o vai resolver os problemas de Trinidad e Tobago, mas pode de fato ampli\u00e1-los.<\/p>\n<p>O Caribe tem uma escolha entre dois futuros. Um caminho leva a uma militariza\u00e7\u00e3o mais profunda, depend\u00eancia e incorpora\u00e7\u00e3o ao aparato de seguran\u00e7a dos EUA. O outro leva \u00e0 revitaliza\u00e7\u00e3o da autonomia regional, \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul e \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es anti-imperialistas que h\u00e1 muito tempo sustentam a imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Caribe.<\/p>\n<p><i>(*) Tradu\u00e7\u00e3o de Raul Chiliani<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente dos EUA, Donald Trump, autorizou o porta-avi\u00f5es USS Gerald R. Ford a entrar no Caribe. O navio agora est\u00e1 ao norte de Porto Rico, juntando-se ao USS Iwo Jima e outros recursos da Marinha dos EUA para amea\u00e7ar a Venezuela com um ataque. 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