{"id":11437,"date":"2025-10-13T10:28:51","date_gmt":"2025-10-13T14:28:51","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=11437"},"modified":"2025-10-15T09:38:27","modified_gmt":"2025-10-15T13:38:27","slug":"o-trumpismo-e-a-paz-por-meio-da-forca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2025\/10\/13\/o-trumpismo-e-a-paz-por-meio-da-forca\/","title":{"rendered":"O trumpismo e a paz por meio da for\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><b>De Monroe a Trump, o unilateralismo<\/b><\/p>\n<p>A famosa<a href=\"https:\/\/www.nuso.org\/articulo\/308-doctrina-monroe-200-anos-despues\/\"> Doutrina Monroe<\/a> (DM) de 1823,<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/playlist?list=PLvJ21hPabpwPU6LJQ_gVmOTzyeuGK6324\"> que os povos do Sul conhecem muito bem<\/a>, \u00e9 a primeira grande declara\u00e7\u00e3o unilateral dos Estados Unidos: \u201cAm\u00e9rica para os americanos\u201d. Sob sua hegemonia, estabeleceu-se a esfera de influ\u00eancia e o direito de intervir nesta vasta regi\u00e3o que vai do M\u00e9xico \u00e0 Argentina. A Doutrina \u00e9 a antecessora da doutrina Trump em sua pretens\u00e3o de sobrepor a soberania deste pa\u00eds \u00e0 soberania regional.<\/p>\n<p>O<a href=\"https:\/\/www.revistas.unam.mx\/index.php\/rri\/article\/view\/76203\"> Corol\u00e1rio Roosevelt<\/a>, de 1904: o presidente Theodore Roosevelt (1901-1909) amplia a Doutrina Monroe, justificando as interven\u00e7\u00f5es militares preventivas na regi\u00e3o com a finalidade de evitar a instabilidade. \u00c9 a express\u00e3o mais clara do intervencionismo americano. Por meio dessa tese, os EUA invadiram o Panam\u00e1 e o Haiti em nossa regi\u00e3o, e as Filipinas, na \u00c1sia. Pode-se dizer que \u00e9 a linhagem mais direta da \u201cpaz pela for\u00e7a\u201d antes de Trump.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/history-state-gov.translate.goog\/milestones\/1945-1952\/truman-doctrine?_x_tr_sl=en&amp;_x_tr_tl=es&amp;_x_tr_hl=es&amp;_x_tr_pto=tc\">Doutrina Truman<\/a>, de 1947, e a conten\u00e7\u00e3o: aqui, pela primeira vez, o unilateralismo d\u00e1 lugar a um multilateralismo liderado pelos Estados Unidos. Constr\u00f3i-se um sistema de alian\u00e7as (OTAN) e age-se sob a \u00e9gide de institui\u00e7\u00f5es internacionais (ONU) para conter um rival. \u00c9 o oposto da abordagem de Trump.<\/p>\n<p>Doutrina Bush (p\u00f3s-11 de setembro):<a href=\"https:\/\/georgewbush-whitehouse.archives.gov\/infocus\/bushrecord\/factsheets\/freedomagenda.html\"> a guerra preventiva e a promo\u00e7\u00e3o da democracia<\/a> pela for\u00e7a, especialmente ap\u00f3s a queda das Torres G\u00eameas em 11 de setembro de 2001. Semelhante a Trump no uso da for\u00e7a, mas diferente em seu objetivo; Bush buscava transformar regi\u00f5es, com na\u00e7\u00f5es mais ao seu gosto (<i>nation-building<\/i>); Trump n\u00e3o tem interesse em fingir que se importa com outros pa\u00edses.<\/p>\n<p><b>A \u201cPaz pela For\u00e7a\u201d vs. os Mecanismos Multilaterais de Constru\u00e7\u00e3o da Paz<\/b><\/p>\n<p>De acordo com o que era idealmente o Modelo Multilateral da ONU,<a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/es\/newsletterissue\/boletin-organizacion-de-las-naciones-unidas-80-anos\/\"> que este ano completa 80 anos<\/a>, a paz \u00e9 constru\u00edda por meio da diplomacia, do direito internacional, da coopera\u00e7\u00e3o e da ajuda ao desenvolvimento; o uso da for\u00e7a \u00e9 sempre o \u00faltimo recurso e \u00e9 exercido sob mandato do Conselho de Seguran\u00e7a. A Carta da ONU se baseia na soberania igualit\u00e1ria dos Estados e na proibi\u00e7\u00e3o do uso da for\u00e7a, exceto em leg\u00edtima defesa ou sob autoriza\u00e7\u00e3o expressa.<\/p>\n<p>O Modelo Trump (\u201cPaz pela For\u00e7a\u201d) surgiu para tentar p\u00f4r um fim definitivo \u00e0 ONU. Em 29 de janeiro de 2014, em Havana, Cuba,<a href=\"https:\/\/www.gob.mx\/sre\/documentos\/proclama-de-america-latina-y-el-caribe-como-zona-de-paz-comunidad-de-estados-latinoamericanos-y-caribenos-celac\"> a II C\u00fapula da (CELAC)<\/a> reafirma o seu compromisso com a paz e a estabilidade ao declarar a Am\u00e9rica Latina e o Caribe como uma Zona de Paz, para consolidar uma \u00e1rea livre de conflitos e tens\u00f5es, promovendo o di\u00e1logo e a coopera\u00e7\u00e3o como ferramentas fundamentais para resolver qualquer disputa. A \u00faltima viagem de Marco Rubio pelo Caribe e outras na\u00e7\u00f5es da Am\u00e9rica Latina teve como objetivo romper esse consenso. Em 15 de setembro de 2025, o presidente Nicol\u00e1s Maduro solicitou a convoca\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria da CELAC, em uma tentativa de recuperar esse esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Nos primeiros meses de seu segundo mandato, Trump nos deu ind\u00edcios de que, para ele, a paz \u00e9 um subproduto do poder militar avassalador (\u201c<a href=\"https:\/\/www.whitehouse.gov\/articles\/2025\/03\/president-trump-is-leading-with-peace-through-strength\/\"><i>Peace through Strength<\/i><\/a>\u201d), fazendo assim uma refer\u00eancia ao governo de Ronald Reagan. A dissuas\u00e3o pela amea\u00e7a do uso da for\u00e7a militar substitui a diplomacia e \u00e9 uma ferramenta de primeira op\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o o \u00faltimo recurso \u2014, e exercida de forma unilateral frente a qualquer amea\u00e7a percebida aos interesses nacionais dos EUA.<\/p>\n<p><b>A<\/b><a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/es\/argentina\/adictos2-geopolitica\/\"> <b>Guerra contra as Drogas<\/b><\/a><b> no Caribe como Express\u00e3o da Doutrina Trump<\/b><\/p>\n<p>O Caribe como \u201c<a href=\"https:\/\/www.state.gov\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/U.S.-Strategy-for-Engagement-in-the-Caribbean-Spanish.pdf\">terceira fronteira<\/a>\u201d e zona de tr\u00e2nsito de narc\u00f3ticos. Tradicionalmente, a abordagem dos EUA para esta regi\u00e3o tem sido mista (coopera\u00e7\u00e3o em seguran\u00e7a + ajuda ao desenvolvimento). Sob a nova doutrina Trump, as<a href=\"https:\/\/peoplesdispatch.org\/2025\/09\/02\/the-united-states-uses-a-fabricated-drug-charge-for-a-potential-strike-on-venezuela\/\"> opera\u00e7\u00f5es militares<\/a> s\u00e3o intensificadas a uma dimens\u00e3o nunca antes vista; a interdi\u00e7\u00e3o \u00e9 priorizada em detrimento dos programas de coopera\u00e7\u00e3o para o combate ou tratamento de depend\u00eancias qu\u00edmicas e os pa\u00edses s\u00e3o pressionados com a amea\u00e7a de san\u00e7\u00f5es caso n\u00e3o cooperem plenamente com as agendas de seguran\u00e7a dos Estados Unidos (uma reminisc\u00eancia da pol\u00edtica do <i>big stick<\/i>).<\/p>\n<p>\u00c9 nesse \u00e2mbito que se inscrevem as atuais opera\u00e7\u00f5es na Bacia do Caribe sob um comando puramente militar e securit\u00e1rio, com menos \u00eanfase na coordena\u00e7\u00e3o com ag\u00eancias civis ou governos locais com fins de coopera\u00e7\u00e3o e com o interesse de avan\u00e7ar em sua estrat\u00e9gia de mudan\u00e7a de regime, uma vez tendo identificado a<a href=\"https:\/\/www.nodal.am\/2025\/09\/piratas-y-corsarios-del-siglo-xxi-acechan-a-venezuela-y-el-gran-caribe-por-irene-leon\/\"> Venezuela como seu principal inimigo<\/a> nessa zona. A regi\u00e3o \u00e9 tratada como um cen\u00e1rio onde se deve aplicar a for\u00e7a para proteger a fronteira sul, quintal ou zona vital dos EUA, e n\u00e3o como uma comunidade de na\u00e7\u00f5es parceiras com as quais se constr\u00f3i paz e estabilidade a longo prazo. \u00c9 a \u201cpaz\u201d imposta pela for\u00e7a.<\/p>\n<p><b>O simbolismo do poder: Departamento de \u201cGuerra\u201d e a fus\u00e3o entre seguran\u00e7a e diplomacia<\/b><\/p>\n<p>A ideia de renomear o Departamento de Defesa (DD) para o hist\u00f3rico<a href=\"https:\/\/www.telesurtv.net\/trump-departamento-de-guerra-pentagono\/\"> Departamento de Guerra<\/a> (DG) n\u00e3o \u00e9 apenas aned\u00f3tica; o governo Trump tenta configurar um s\u00edmbolo de seu poder: o DG implica uma postura abertamente ofensiva, agressiva e ativa, que expressa sem d\u00favida o desejo de retomar o esp\u00edrito dos Estados Unidos, a maior pot\u00eancia militar do mundo, e novamente p\u00f4r um fim definitivo ao modelo p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, incluindo a ONU e o direito internacional.<\/p>\n<p>Marco Rubio simboliza, sem d\u00favida, o enfraquecimento deliberado da diplomacia dos Estados Unidos; seu duplo papel como Secret\u00e1rio de Estado e principal assessor de Seguran\u00e7a Nacional o coloca na mesmo<a href=\"https:\/\/www-npr-org.translate.goog\/2025\/05\/05\/nx-s1-5384963\/marco-rubio-state-department-national-security-trump?_x_tr_sl=en&amp;_x_tr_tl=es&amp;_x_tr_hl=es&amp;_x_tr_pto=tc\"> posi\u00e7\u00e3o sombria de Henry Kissinger<\/a> na d\u00e9cada de 1970, e isso n\u00e3o significa nada de bom, como mostra o passado, para pa\u00edses como Cuba, Venezuela e Nicar\u00e1gua, mas tamb\u00e9m para os<a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/es\/boletin-na-paz-guerra-otros-demonios\/\"> movimentos populares do Sul Global<\/a>, que j\u00e1 vislumbraram o que essas decis\u00f5es acarretar\u00e3o.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o externa dos Estados Unidos baseia-se cada vez mais em crit\u00e9rios de seguran\u00e7a (migra\u00e7\u00e3o, narcotr\u00e1fico, terrorismo,<a href=\"https:\/\/cnnespanol.cnn.com\/2025\/09\/15\/eeuu\/trump-sugiere-acuerdo-china-tiktok-trax\"> comunica\u00e7\u00e3o<\/a>), e a diplomacia limita-se a pressionar em favor de interesses e a agrega pa\u00edses aliados.<\/p>\n<p>Por fim, essas mudan\u00e7as sugerem uma transforma\u00e7\u00e3o profunda e duradoura na mentalidade da pol\u00edtica externa dos Estados Unidos, que provavelmente continuar\u00e1 influindo no futuro, independentemente do governo, pelo que estar\u00edamos diante de uma nova doutrina: o trumpismo. Donald Trump est\u00e1 se empenhando em deixar esse legado como um princ\u00edpio orientador para o mundo, caracterizado pela tentativa de reposicionar os EUA como detentores do poder militar absoluto, da soberania nacional e do desprezo pelo multilateralismo. Essa mudan\u00e7a obedece ao fato de que j\u00e1 n\u00e3o estamos diante da primeira pot\u00eancia econ\u00f4mica do mundo, e isso afeta proporcionalmente sua capacidade militar e outras capacidades, pelo que Trump tamb\u00e9m se encontra em uma corrida que s\u00f3 ele parece querer protagonizar, em v\u00e1rias frentes ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>A incipiente doutrina Trump, exposta em seu<a href=\"https:\/\/uy.usembassy.gov\/es\/discur\"> discurso<\/a> perante a 80\u00aa Assembleia Geral da ONU, seria ent\u00e3o um h\u00edbrido que, por um lado, recupera o unilateralismo isolacionista de Monroe e o <i>big stick<\/i> de Roosevelt, rejeita a responsabilidade da <i>nation-building<\/i> de Bush, enquanto enterra o arcabou\u00e7o multilateral de Truman como forma de conten\u00e7\u00e3o de rivais ou advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De Monroe a Trump, o unilateralismo A famosa Doutrina Monroe (DM) de 1823, que os povos do Sul conhecem muito bem, \u00e9 a primeira grande declara\u00e7\u00e3o unilateral dos Estados Unidos: \u201cAm\u00e9rica para os americanos\u201d. 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