{"id":11239,"date":"2025-09-04T13:31:28","date_gmt":"2025-09-04T17:31:28","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=11239"},"modified":"2025-09-17T08:54:49","modified_gmt":"2025-09-17T12:54:49","slug":"a-economia-de-libertacao-nacional-de-fidel-castro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2025\/09\/04\/a-economia-de-libertacao-nacional-de-fidel-castro\/","title":{"rendered":"A economia de liberta\u00e7\u00e3o nacional de Fidel Castro"},"content":{"rendered":"<p>Em 13 de agosto de 2025, completariam-se 99 anos do nascimento do revolucion\u00e1rio cubano Fidel Castro. Essa data tamb\u00e9m marca o in\u00edcio de um ano de comemora\u00e7\u00f5es pelo seu centen\u00e1rio. Castro \u00e9 conhecido por muitas coisas: revolucion\u00e1rio inveterado, orador carism\u00e1tico, diplomata habilidoso e b\u00fassola moral do projeto do Terceiro Mundo.<\/p>\n<p>Mas Castro tamb\u00e9m foi um te\u00f3rico marxista imerso na luta pr\u00e1tica da revolu\u00e7\u00e3o e da constru\u00e7\u00e3o socialista. Ele assumiu a lideran\u00e7a de uma economia agr\u00edcola que era produto de 400 anos de coloniza\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que enfrentava restri\u00e7\u00f5es externas sem precedentes na forma de um embargo econ\u00f4mico de mais de seis d\u00e9cadas por parte dos Estados Unidos. Isso significava que Castro provavelmente tinha que pensar na economia e no desenvolvimento mais do que a maioria dos l\u00edderes. Ela era uma quest\u00e3o fundamental para a sobreviv\u00eancia de Cuba.<\/p>\n<p>No contexto atual, em que o aumento do protecionismo, do militarismo e do unilateralismo do Norte Global amea\u00e7am as perspectivas de paz e desenvolvimento da maioria mundial, vale a pena revisar alguns elementos do pensamento econ\u00f4mico de Castro.<\/p>\n<p><b>A industrializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode esperar eternamente<\/b><\/p>\n<p>Em outubro de 1953, ap\u00f3s o heroico assalto ao quartel Moncada, Castro foi preso e julgado, e proferiu seu emblem\u00e1tico<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/history\/cuba\/archive\/castro\/1953\/10\/16.htm\"> discurso intitulado<\/a> \u201c<i>A hist\u00f3ria me absolver\u00e1\u201d<\/i>.<\/p>\n<p>Este discurso oferece algumas das primeiras ideias sobre a frustra\u00e7\u00e3o de Castro com o subdesenvolvimento de Cuba, sua an\u00e1lise sobre suas causas fundamentais e seu desejo de desencadear uma transforma\u00e7\u00e3o social:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;Com exce\u00e7\u00e3o de algumas ind\u00fastrias aliment\u00edcias, madeireiras e t\u00eaxteis, Cuba continua sendo principalmente um produtor de mat\u00e9rias-primas. Exportamos a\u00e7\u00facar para importar doces, exportamos peles para importar sapatos, exportamos ferro para importar arados\u2026<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Todos concordam com a necessidade urgente de industrializar a na\u00e7\u00e3o, que precisamos de ind\u00fastrias sider\u00fargicas, papeleiras e qu\u00edmicas, que devemos melhorar nossa produ\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria e cereal\u00edfera, a tecnologia e a transforma\u00e7\u00e3o de nossa ind\u00fastria aliment\u00edcia para nos defendermos da concorr\u00eancia ruinosa da Europa em produtos l\u00e1cteos, leite condensado, licores e \u00f3leos comest\u00edveis, e dos Estados Unidos em conservas; que precisamos de navios de carga; que o turismo deve ser uma enorme fonte de renda. Mas os capitalistas insistem em manter os trabalhadores sob o jugo. O Estado fica de bra\u00e7os cruzados e a industrializa\u00e7\u00e3o pode esperar eternamente.&#8221;<\/p>\n<p>Desta passagem podem-se extrair alguns pontos-chave. Em primeiro lugar, a consci\u00eancia de Castro sobre a divis\u00e3o internacional do trabalho que havia relegado Cuba a ser um produtor de mat\u00e9rias-primas. Em segundo lugar, sua compreens\u00e3o da necessidade tanto da industrializa\u00e7\u00e3o pesada quanto da moderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola para desenvolver o pa\u00eds. Em terceiro lugar, que a classe capitalista local, contrariamente \u00e0 an\u00e1lise cl\u00e1ssica, preferia frear o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas para impedir um maior desenvolvimento da classe trabalhadora. Em quarto lugar, que as estruturas estatais existentes e os interesses de classe nacionais que as governavam eram um obst\u00e1culo ao desenvolvimento do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Esta breve passagem demonstra que Castro, ent\u00e3o com 27 anos, j\u00e1 tinha uma compreens\u00e3o muito aguda dos problemas do subdesenvolvimento. Talvez tivesse lido o texto cl\u00e1ssico de Ra\u00fal Prebisch sobre o subdesenvolvimento, &#8220;O desenvolvimento econ\u00f4mico da Am\u00e9rica Latina e alguns de seus principais problemas&#8221;, publicado tr\u00eas anos antes, em 1950. Ou talvez tenha chegado a essa an\u00e1lise por meio de suas pr\u00f3prias experi\u00eancias na revolu\u00e7\u00e3o e em discuss\u00f5es com seus companheiros.<\/p>\n<p><b>Da liberta\u00e7\u00e3o de Cuba \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o do Sul Global<\/b><\/p>\n<p>Castro pode ter iniciado sua carreira revolucion\u00e1ria como porta-voz da liberta\u00e7\u00e3o de Cuba, mas \u00e0 medida que seu prest\u00edgio internacional crescia, ele logo se tornou um \u00edcone da emancipa\u00e7\u00e3o de todo o Sul Global. Em 1983, na VII C\u00fapula da Confer\u00eancia dos Pa\u00edses N\u00e3o Alinhados em Nova D\u00e9lhi, Castro apresentou o <a href=\"https:\/\/bannedthought.net\/Cuba-Che\/Castro\/Castro-1983-WorldEconomicAndSocialCrisis-ReportToNAM.pdf\">relat\u00f3rio<\/a> de um livro intitulado &#8220;<i>A crise econ\u00f4mica e social mundial: seu impacto nos pa\u00edses subdesenvolvidos, suas perspectivas sombrias e a necessidade de lutar se quisermos sobreviver&#8221;<\/i>. Embora impresso sob o nome de Castro, a introdu\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio reconhece que se tratava de um esfor\u00e7o coletivo: um produto da coopera\u00e7\u00e3o entre economistas do Centro de Investiga\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica Mundial de Cuba e do Centro de Investiga\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica Internacional da Faculdade de Economia da Universidade de Havana.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio argumentava que as crises de 1979-1982 tiveram origem em uma crise de superprodu\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses industrializados. A resposta monetarista a essa crise (ou seja, o aumento das taxas de juros) contribuiu para externaliz\u00e1-la e transmiti-la aos pa\u00edses n\u00e3o industrializados, provocando a desvaloriza\u00e7\u00e3o das moedas, o aumento dos d\u00e9ficits comerciais, uma infla\u00e7\u00e3o elevada, pobreza e um aumento geral da diferen\u00e7a entre os pa\u00edses industrializados e os n\u00e3o industrializados. A an\u00e1lise de Castro n\u00e3o era uma explica\u00e7\u00e3o linear da crise, mas uma an\u00e1lise conjuntural que levava em conta uma s\u00e9rie de fatores, entre eles a corrida armamentista e as crises alimentar e energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio termina com uma agenda de a\u00e7\u00e3o abrangente, na qual se destaca a necessidade de unidade dentro do Sul Global, ao mesmo tempo em que se defende que a solu\u00e7\u00e3o para as pr\u00f3prias crises do Norte Global seria p\u00f4r fim \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do Sul:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;O atraso econ\u00f4mico, a falta de recursos financeiros, a grave contra\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio exterior, a fome, o desemprego e a aus\u00eancia das condi\u00e7\u00f5es de vida mais b\u00e1sicas no Terceiro Mundo n\u00e3o podem, a longo prazo, ser ben\u00e9ficos para nenhum dos pa\u00edses capitalistas desenvolvidos. Pelo contr\u00e1rio, o resultado positivo de nossa situa\u00e7\u00e3o teria uma influ\u00eancia favor\u00e1vel no crescimento do com\u00e9rcio mundial e aliviaria o desemprego, a subutiliza\u00e7\u00e3o das capacidades instaladas e o estagna\u00e7\u00e3o de suas economias. \u00c9 uma verdade \u00f3bvia que, se nossas economias se expandissem, isso ajudaria a reduzir a tensa situa\u00e7\u00e3o de crise que se gerou nesses pa\u00edses. A continua\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o que est\u00e1 arruinando o Terceiro Mundo terminaria inexoravelmente na ru\u00edna para todos.&#8221;<\/p>\n<p>Essas tr\u00eas \u00faltimas palavras, \u201cru\u00edna para todos\u201d, ecoam a advert\u00eancia de Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto Comunista de que as lutas de classes podem culminar \u201cou em uma reconstitui\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade como um todo, ou na <i>ru\u00edna comum<\/i> das classes em conflito\u201d. Castro pega essa previs\u00e3o e a adapta \u00e0 era do imperialismo. Ele defendia a reconstitui\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade.<\/p>\n<p>Quase duas d\u00e9cadas depois, Castro apresentou-se como uma figura solit\u00e1ria na C\u00fapula do Mil\u00eanio da ONU em Genebra. Este foi o \u00faltimo <a href=\"https:\/\/www.iatp.org\/news\/address-by-fidel-castro-to-the-millennium-summit\">discurso<\/a> de Castro na ONU e foi proferido no auge da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal e do Consenso de Washington. Foi muito mais breve do que seu famoso discurso de 1960 na ONU, mas n\u00e3o menos significativo. Ele come\u00e7ou com uma cr\u00edtica aos pa\u00edses do Norte Global, que \u201cmonopolizam o poder econ\u00f4mico, pol\u00edtico e tecnol\u00f3gico\u201d e \u201coferecem mais das mesmas receitas que s\u00f3 serviram para nos tornar mais pobres, mais explorados e mais dependentes\u201d. Concluiu dizendo que \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada na ordem econ\u00f4mica e pol\u00edtica existente que possa servir aos interesses da humanidade\u201d.<\/p>\n<p><b>Rumo a uma economia de liberta\u00e7\u00e3o nacional<\/b><\/p>\n<p>A economia nunca foi um campo de pesquisa neutro em termos de valores. Sua configura\u00e7\u00e3o como campo acad\u00eamico diferenciado \u00e9 resultado do nascimento do capitalismo. A economia como a conhecemos teve que fornecer historicamente uma cobertura ideol\u00f3gica para pelo menos tr\u00eas lutas de classes distintas: em primeiro lugar, a luta entre os interesses feudais dos propriet\u00e1rios de terras e os capitalistas industriais emergentes; em segundo lugar, a luta entre os capitalistas e os trabalhadores; e, em terceiro lugar, a luta entre as na\u00e7\u00f5es industrializadas e as na\u00e7\u00f5es colonizadas e sob o imperialismo.<\/p>\n<p>Essas lutas definiram a moralidade (ou a falta dela) do campo da economia. A economia de Castro era uma economia de liberta\u00e7\u00e3o nacional. Ela valorizava a soberania das na\u00e7\u00f5es e a dignidade de seus povos. Como todos os modelos econ\u00f4micos, pode-se dizer que ela cont\u00e9m algumas suposi\u00e7\u00f5es: existe uma restri\u00e7\u00e3o externa, a divis\u00e3o internacional do trabalho imposta pelas corpora\u00e7\u00f5es multinacionais e pelas institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais existentes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, qualquer tentativa de superar essa restri\u00e7\u00e3o leva \u00e0 viol\u00eancia: golpes de Estado, assassinatos, san\u00e7\u00f5es e embargos. E, por \u00faltimo, a maioria da popula\u00e7\u00e3o do Sul Global, e de fato de todo o mundo, tem um interesse comum em se unir para p\u00f4r fim a esse sistema de explora\u00e7\u00e3o e \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o e crises que ele gera.<\/p>\n<p>Em seu \u00faltimo <a href=\"https:\/\/misiones.cubaminrex.cu\/en\/articulo\/fidel-cuba-cuba-fidel\">discurso<\/a>, proferido em 2017 no VII Congresso do Partido Comunista de Cuba, Castro afirmou que \u201cas ideias dos comunistas cubanos permanecer\u00e3o como prova de que, neste planeta, se trabalharmos com fervor e dignidade, podemos produzir os bens materiais e culturais de que os seres humanos necessitam\u201d.<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201cas ideias podem produzir os bens de que os seres humanos necessitam\u201d \u00e9 interessante.<\/p>\n<p>De acordo com o <a href=\"https:\/\/www.oxfam.org\/en\/research\/takers-not-makers-unjust-poverty-and-unearned-wealth-colonialism\">relat\u00f3rio<\/a> da Oxfam <i>Takers not Makers<\/i>, o n\u00famero de pessoas que vivem na pobreza praticamente n\u00e3o mudou desde 1990. Nos \u00faltimos dez anos, a riqueza dos 1% mais ricos da popula\u00e7\u00e3o mundial aumentou em mais de 33,9 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, o suficiente para acabar com a pobreza 22 vezes. Talvez seja hora de novas ideias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 13 de agosto de 2025, completariam-se 99 anos do nascimento do revolucion\u00e1rio cubano Fidel Castro. Essa data tamb\u00e9m marca o in\u00edcio de um ano de comemora\u00e7\u00f5es pelo seu centen\u00e1rio. Castro \u00e9 conhecido por muitas coisas: revolucion\u00e1rio inveterado, orador carism\u00e1tico, diplomata habilidoso e b\u00fassola moral do projeto do Terceiro Mundo. 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