{"id":11218,"date":"2025-09-14T09:20:39","date_gmt":"2025-09-14T13:20:39","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=11218"},"modified":"2025-09-15T08:05:19","modified_gmt":"2025-09-15T12:05:19","slug":"golpe-militar-ou-revolucao-entenda-o-que-esta-em-jogo-na-regiao-do-sahel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2025\/09\/14\/golpe-militar-ou-revolucao-entenda-o-que-esta-em-jogo-na-regiao-do-sahel\/","title":{"rendered":"Golpe militar ou revolu\u00e7\u00e3o? Entenda o que est\u00e1 em jogo na regi\u00e3o do Sahel"},"content":{"rendered":"<p>Neste 16 de setembro, os povos de Burkina Faso, Mali e N\u00edger celebram o segundo anivers\u00e1rio da Alian\u00e7a dos Estados do Sahel (AES), estabelecida pela Carta de Liptako-Gourma em 2023. Esta n\u00e3o \u00e9 apenas uma data no calend\u00e1rio, mas a celebra\u00e7\u00e3o de uma luta renovada pela soberania em uma regi\u00e3o h\u00e1 muito sufocada pelo neocolonialismo franc\u00eas e pelas estrat\u00e9gias de seguran\u00e7a ocidentais fracassadas. \u00c0 medida que a\u00e7\u00f5es de solidariedade s\u00e3o planejadas em todo o Sahel, \u00e9 essencial olhar al\u00e9m das narrativas tradicionais de &#8220;golpes de Estado&#8221; e compreender as condi\u00e7\u00f5es que levaram a este momento crucial.<\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas, o Sahel tem sido um caso cl\u00e1ssico de pilhagem neocolonial. A &#8220;independ\u00eancia da bandeira&#8221; da d\u00e9cada de 1960 foi uma fachada para a domina\u00e7\u00e3o francesa cont\u00ednua, mantida por meio do franco CFA e de uma rede de pactos de defesa. O acordo de 1961 com o N\u00edger, por exemplo, concedeu \u00e0 Fran\u00e7a o controle sobre instala\u00e7\u00f5es militares e recursos estrat\u00e9gicos como o ur\u00e2nio, ao mesmo tempo em que concedia isen\u00e7\u00f5es fiscais para empresas francesas. Esse sistema destruiu a soberania fiscal da regi\u00e3o, resultando em subdesenvolvimento catastr\u00f3fico, pobreza e uma crise de seguran\u00e7a exacerbada pelas pr\u00f3prias pot\u00eancias que alegavam resolv\u00ea-la.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros s\u00e3o sombrios. Em 2023, o PIB per capita do N\u00edger era de apenas US$ 560, com quase metade de sua popula\u00e7\u00e3o vivendo na pobreza; seus vizinhos enfrentam realidades semelhantes. Essa \u00e9 a consequ\u00eancia direta de um sistema projetado para extra\u00e7\u00e3o. As mineradoras francesas h\u00e1 anos desviam o ur\u00e2nio e o ouro da regi\u00e3o, deixando pouco para tr\u00e1s. Em 2010, por exemplo, o N\u00edger recebeu apenas 13% do valor total das exporta\u00e7\u00f5es de seu pr\u00f3prio ur\u00e2nio.<\/p>\n<p>Essa explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0 crise de seguran\u00e7a. A interven\u00e7\u00e3o da OTAN na L\u00edbia em 2011 desencadeou em um grande fluxo de armas e extremistas por toda a regi\u00e3o. Opera\u00e7\u00f5es subsequentes lideradas pela Fran\u00e7a, como Barkhane, mostraram-se contraproducentes, visto que a atividade terrorista disparou sob sua supervis\u00e3o \u2013 com um aumento de 2.860% nas mortes em quinze anos. Para o povo do Sahel, a conclus\u00e3o era inevit\u00e1vel: a raposa estava tomando conta do galinheiro.<\/p>\n<p>Dessa fus\u00e3o de Estados falidos, interfer\u00eancia estrangeira e frustra\u00e7\u00e3o popular que nasceu a AES. As interven\u00e7\u00f5es militares no Mali (2020), Burkina Faso (2022) e N\u00edger (2023) n\u00e3o foram as t\u00edpicas tomadas de poder por uma elite interesseira. Foram, como Philippe Toyo Noudjnoume, da Organiza\u00e7\u00e3o dos Povos da \u00c1frica Ocidental, as denominou: &#8220;interven\u00e7\u00f5es militares pela soberania&#8221;. Lideradas por uma nova gera\u00e7\u00e3o de jovens oficiais patriotas como Ibrahim Traor\u00e9, de Burkina Faso, e Assimi Go\u00efta, do Mali, esses movimentos foram alimentados por mobiliza\u00e7\u00f5es em massa de uma popula\u00e7\u00e3o cansada da velha ordem, como bem demonstra o recente dossi\u00ea lan\u00e7ado pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social<i>, <\/i><a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-sahel-alianca-soberania\/\"><i>Sahel em busca da soberania<\/i><\/a>.<\/p>\n<p>As cenas de manifesta\u00e7\u00f5es em massa nas ruas de Bamako, Ouagadougou e Niamey, ap\u00f3s a deposi\u00e7\u00e3o de governos apoiados pelo Ocidente, foram um poderoso testemunho do profundo desejo de mudan\u00e7a. Al\u00e9m disso, as massas n\u00e3o se manifestaram simplesmente para apoiar cegamente um novo regime.<\/p>\n<p>Veja-se o caso do N\u00edger: quando os l\u00edderes militares tomaram o poder \u2014 motivados principalmente pela falta de prote\u00e7\u00e3o e remunera\u00e7\u00e3o adequadas enquanto lutavam na linha de frente contra incurs\u00f5es terroristas, muitas vezes ligadas ao <a href=\"https:\/\/peoplesdispatch.org\/2024\/12\/04\/there-is-no-terrorism-there-is-only-france-says-president-of-the-west-african-peoples-organization\/\">suposto<\/a> apoio franc\u00eas \u2014, foram as organiza\u00e7\u00f5es de base que lideraram o apelo \u00e0 expuls\u00e3o das for\u00e7as militares e diplom\u00e1ticas francesas, sitiando as guarni\u00e7\u00f5es militares e a embaixada do pa\u00eds europeu. N\u00e3o se tratava apenas de explos\u00f5es antifrancesas, mas de uma profunda rejei\u00e7\u00e3o de um sistema que, por muito tempo, negou ao povo do Sahel sua dignidade e seu direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o. A AES, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas uma alian\u00e7a militar, mas um projeto pol\u00edtico, uma tentativa ousada de trilhar um novo caminho baseado no pan-africanismo, no desenvolvimento end\u00f3geno e em uma postura anti-imperialista resoluta.<\/p>\n<p>Em seus dois anos de exist\u00eancia, a AES alcan\u00e7ou avan\u00e7os significativos. A expuls\u00e3o das tropas francesas dos tr\u00eas Estados-membros foi um golpe hist\u00f3rico para o neocolonialismo franc\u00eas na \u00c1frica. A forma\u00e7\u00e3o da Confedera\u00e7\u00e3o dos Estados do Sahel, em 6 de julho de 2024, solidificou ainda mais a alian\u00e7a, com uma for\u00e7a militar conjunta j\u00e1 realizando exerc\u00edcios e seus l\u00edderes aprofundando os la\u00e7os de seguran\u00e7a, como visto nas reuni\u00f5es militares na R\u00fassia em julho e agosto de 2025. Planos est\u00e3o avan\u00e7ando para um passaporte \u00fanico, um novo fundo de investimento dom\u00e9stico financiado pelos impostos e, eventualmente, uma moeda comum. Na frente econ\u00f4mica, a AES est\u00e1 tomando medidas concretas para retomar o controle sobre seu destino. Propostas est\u00e3o em discuss\u00e3o para reunir recursos para projetos-chave de minera\u00e7\u00e3o, energia e infraestrutura. Num movimento significativo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 soberania energ\u00e9tica, a Rosatom (corpora\u00e7\u00e3o estatal russa respons\u00e1vel pela ind\u00fastria e energia nuclear) assinou um acordo com os tr\u00eas membros em junho-julho de 2025, sobre o uso pac\u00edfico da energia nuclear para <a href=\"https:\/\/www.nuclearbusiness-platform.com\/media\/insights\/sahel-nuclear-gambit\">desenvolver<\/a> um &#8220;ciclo regional de combust\u00edvel nuclear verticalmente integrado \u2013 das minas do N\u00edger aos reatores de Burkina Faso e Mali&#8221;. Isso complementa os esfor\u00e7os nacionais em toda a alian\u00e7a, que incluem uma s\u00e9rie de acordos bilaterais com novos parceiros e novas iniciativas nacionais de desenvolvimento, abrangendo uma gama de setores econ\u00f4micos, pol\u00edticos e sociais. Mali e Burkina Faso aprovaram novos c\u00f3digos de minera\u00e7\u00e3o em 2023 para aumentar a participa\u00e7\u00e3o estatal e eliminar as isen\u00e7\u00f5es fiscais da era neocolonial, enquanto o N\u00edger iniciou uma auditoria abrangente dos contratos de minera\u00e7\u00e3o existentes com o objetivo de renegoci\u00e1-los em termos mais equitativos.<\/p>\n<p>Essas pol\u00edticas concretas s\u00e3o acompanhadas por um impulso por renova\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Burkina Faso est\u00e1 revivendo o esp\u00edrito de Thomas Sankara com um grande impulso pela autossufici\u00eancia alimentar, mobilizando programas nacionais de voluntariado para construir barragens de irriga\u00e7\u00e3o, lan\u00e7ando a constru\u00e7\u00e3o da primeira f\u00e1brica de processamento de tomate do pa\u00eds para reduzir a depend\u00eancia de importa\u00e7\u00f5es e a campanha nacional de restaura\u00e7\u00e3o florestal (uma campanha em junho de 2025 resultou no <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/06\/23\/against-desertification-burkina-faso-plants-5-million-trees-per-hour\/\">plantio<\/a> de 5 milh\u00f5es de \u00e1rvores em uma hora). O Mali, em seu novo plano de desenvolvimento nacional, est\u00e1 promovendo o conceito do kura Maliden (&#8220;novo malin\u00eas&#8221;) &#8211; um cidad\u00e3o patriota, respons\u00e1vel e trabalhador, dedicado \u00e0 soberania nacional. Esses esfor\u00e7os paralelos, tanto materiais quanto ideol\u00f3gicos, est\u00e3o tecendo uma nova <a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/triconart-bulletin-sahel-benkan\/\">bandeira<\/a> para a regi\u00e3o, simbolizada na bandeira da AES: um mapa das tr\u00eas na\u00e7\u00f5es unidas em uma s\u00f3, contrastando com as cores pan-africanas de vermelho, dourado e verde, com o antigo baob\u00e1 no centro. O povo do Sahel desfraldou a bandeira da soberania e, a cada dia, por meio de lutas di\u00e1rias para construir um projeto regional coerente, recupera sua dignidade.<\/p>\n<p>Os desafios pela frente continuam imensos. As economias dos pa\u00edses da AES seguem fortemente dependentes da exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas, deixando-as vulner\u00e1veis \u200b\u200baos caprichos do mercado global. A situa\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a, embora tenha melhorado em algumas \u00e1reas, permanece prec\u00e1ria. E as for\u00e7as do imperialismo n\u00e3o ficaram ociosas. Mas focar apenas nesses desafios \u00e9 ignorar a hist\u00f3ria mais ampla. O povo do Sahel n\u00e3o espera por um salvador. Ele est\u00e1 tomando seu destino em suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Este anivers\u00e1rio de dois anos da AES \u00e9 um momento para elogiar sua coragem e vis\u00e3o. \u00c9 um lembrete de que, como disse Thomas Sankara certa vez: &#8220;um escravo que n\u00e3o \u00e9 capaz de assumir o controle de sua pr\u00f3pria rebeli\u00e3o n\u00e3o tem direito \u00e0 piedade.&#8221; O povo do Sahel assumiu o controle de sua rebeli\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste 16 de setembro, os povos de Burkina Faso, Mali e N\u00edger celebram o segundo anivers\u00e1rio da Alian\u00e7a dos Estados do Sahel (AES), estabelecida pela Carta de Liptako-Gourma em 2023. 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