{"id":10939,"date":"2025-07-24T09:35:31","date_gmt":"2025-07-24T13:35:31","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=10939"},"modified":"2025-08-06T16:04:32","modified_gmt":"2025-08-06T20:04:32","slug":"israel-e-a-guerra-as-drogas-na-siria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2025\/07\/24\/israel-e-a-guerra-as-drogas-na-siria\/","title":{"rendered":"Israel e a guerra \u00e0s drogas na S\u00edria"},"content":{"rendered":"<p>As tens\u00f5es se intensificaram no sul da S\u00edria quando avi\u00f5es de guerra israelenses<a href=\"https:\/\/www.annahar.com\/arab-world\/arabian-levant\/220406\/%D8%B3%D9%88%D8%B1%D9%8A%D8%A7-%D8%A7%D9%84%D9%82%D8%B5%D9%81-%D8%A7%D9%84%D8%A5%D8%B3%D8%B1%D8%A7%D8%A6%D9%8A%D9%84%D9%8A-%D9%84%D8%AF%D8%B1%D8%B9%D8%A7-%D8%AA%D8%B3%D8%A8%D8%A8-%D9%81%D9%8A-%D8%AE%D8%B3%D8%A7%D8%A6%D8%B1-%D8%A8%D8%B4%D8%B1%D9%8A%D8%A9-%D9%88%D9%85%D8%A7%D8%AF%D9%8A%D8%A9-%D8%AC%D8%B3%D9%8A%D9%85%D8%A9\"> bombardearam<\/a> o Minist\u00e9rio da Defesa em Damasco, \u00e1reas ao redor do pal\u00e1cio presidencial e aldeias em As-Suwayda no dia 16 de julho de 2025, matando pelo menos 250 s\u00edrios nesses ataques a\u00e9reos. As autoridades de transi\u00e7\u00e3o na S\u00edria, lideradas pelo ex-chefe da Al-Qaeda Ahmed al-Sharaa, <a href=\"https:\/\/www.zamanalwsl.net\/news\/article\/167662\/\">condenaram<\/a> os ataques, que Israel justificou como necess\u00e1rios para deter os combates entre as for\u00e7as s\u00edrias, as <i>Quwwat al-Badu<\/i> (ou For\u00e7as Bedu\u00ednas), organizadas \u00e0s pressas, e os drusos <i>Harakat Rijal al-Karama<\/i> (Homens da Dignidade).<\/p>\n<p>Em dezembro de 2024, os Homens da Dignidade, as For\u00e7as <i>Sheikh al-Karama<\/i> e a <i>Liwa al-Jabal<\/i> (Brigada da Montanha) uniram for\u00e7as na \u00e1rea de As-Suwayda para criar o grupo <i>Ghurfat \u2018Amaliyyat al-Janub<\/i> (Opera\u00e7\u00f5es do Sul) para defender a regi\u00e3o das incurs\u00f5es israelenses e do novo governo s\u00edrio. No entanto, o grupo se dividiu no in\u00edcio deste ano, o que enfraqueceu sua capacidade de conter a incurs\u00e3o dos israelenses al\u00e9m da ocupa\u00e7\u00e3o anterior das Colinas de Gol\u00e3, ocupadas desde 1967. Desde ent\u00e3o, Israel expandiu seu controle das Colinas de Gol\u00e3 em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1rea de As-Suwayda e tem sido acusado pelas for\u00e7as locais de interfer\u00eancia em disputas locais para justificar novas invas\u00f5es militares.<\/p>\n<p>Desde 2012, a autoridade central do Estado s\u00edrio tem sido enfraquecida, num movimento que estende-se desde a borda das Colinas de Gol\u00e3, passando pela cidade de Daraa, at\u00e9 as aldeias de As-Suwayda, formando um cintur\u00e3o ao longo da fronteira sul da S\u00edria e ao longo da fronteira com a Jord\u00e2nia. As for\u00e7as militares s\u00edrias permaneceram nesta zona, mas sua legitimidade atingiu um n\u00edvel historicamente baixo, causando o surgimento de v\u00e1rias for\u00e7as militares neste v\u00e1cuo. Em 2013, a comunidade drusa da regi\u00e3o, liderada pelo xeique Wahid al-Bal\u2019ous, formou o <i>Harakat Rijal al-Karama<\/i> (Homens da Dignidade), enquanto uma alian\u00e7a de v\u00e1rios combatentes liderada por Murhij Hussein al-Jarmani (tamb\u00e9m conhecido como Abu Ghaith) formou o <i>Liwa al-Jabal<\/i> (Brigada da Montanha) no ano seguinte. Esses grupos foram criados para defender a comunidade drusa dos ataques do grupo <i>Jabhat al-Nusra<\/i> (Frente da Vit\u00f3ria), ligado \u00e0 Al-Qaeda, que havia come\u00e7ado a se deslocar para o sul a partir das montanhas de Qalamoun e parecia estar recebendo ajuda da intelig\u00eancia e das for\u00e7as militares israelenses. O decl\u00ednio do papel dos militares s\u00edrios nesta \u00e1rea levou ao aumento do papel pol\u00edtico e securit\u00e1rio tanto dos Homens da Dignidade como da Brigada da Montanha, que combateram as for\u00e7as da Al-Qaeda, os ataques posteriores do ISIS e os ataques dos israelenses.<\/p>\n<p><b>A rede de fentanil no sul da S\u00edria<\/b><\/p>\n<p>Em 2012, quando encontrei pela primeira vez com militares s\u00edrios ao longo da estrada junto \u00e0s montanhas Qalamoun, j\u00e1 era evidente que o seu moral oscilava entre a extrema confian\u00e7a e a exaust\u00e3o completa, devido \u00e0 natureza p\u00edrrica da guerra. Sem o apoio a\u00e9reo dos EUA ou de Israel, os v\u00e1rios ex\u00e9rcitos rebeldes \u2013 sendo os mais entusiasmados deles as for\u00e7as da Al-Qaeda \u2013 n\u00e3o teriam sido capazes de prevalecer; isto garantiu ao Ex\u00e9rcito \u00c1rabe S\u00edrio mant\u00ea-los afastados. No entanto, cada vez que o ex\u00e9rcito s\u00edrio avan\u00e7ava, tinha de o fazer com bombardeios e viol\u00eancia enormes, que atingiam alvos civis, reduzindo o seu sentimento de superioridade moral e destruindo as bases da economia s\u00edria. Uma economia em colapso e um aparato estatal em lento decl\u00ednio deterioraram o moral do ex\u00e9rcito s\u00edrio. Em 2013, todos os lados do conflito mantinham seu esp\u00edrito de luta n\u00e3o por pol\u00edtica ou ideologia, mas pelo influxo de grandes quantidades de anfetamina, conhecida na S\u00edria por seus nomes comerciais, Captagon e Tramadol, ou, como os combatentes a chamavam, as \u201cp\u00edlulas brancas da morte\u201d.<\/p>\n<p>Perto da fronteira com a Jord\u00e2nia, na regi\u00e3o de As-Suwayda, eu estava onde a produ\u00e7\u00e3o em grande escala dessas p\u00edlulas come\u00e7ou. Ex-militares que administravam essas fazendas entraram em neg\u00f3cios com sindicatos internacionais do tr\u00e1fico de drogas. H\u00e1 uma d\u00e9cada, circulavam rumores de que o brigadeiro-general Wafiq Nasser teria desempenhado um papel importante na cria\u00e7\u00e3o da rede de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de drogas atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de pequenas aldeias na regi\u00e3o de As-Suwayda. Nasser trabalhou com Abu Yassin Ahmad Jaafar e Jamil al-Balaas para construir o sistema de fazendas das aldeias de Busra al-Sham a al-Qurayya, a cerca de vinte quil\u00f4metros da Jord\u00e2nia. Esses homens, ao lado de Marei al-Ramthan e Raji Falhout, aproveitaram-se do colapso do sistema estatal s\u00edrio, estabeleceram la\u00e7os com autoridades jordanianas e libanesas por meio de suborno e come\u00e7aram a dominar o com\u00e9rcio de produ\u00e7\u00e3o e venda de anfetaminas em toda a regi\u00e3o (inclusive em Israel, principalmente para uso recreativo).<\/p>\n<p>As tens\u00f5es aumentaram entre as unidades de autodefesa (principalmente os Homens da Dignidade drusos) e as gangues de traficantes de drogas, pois os primeiros tentavam impedir os segundos de vender anfetaminas para as pessoas da pr\u00f3pria \u00e1rea. Em 2015, um carro-bomba em As-Suwayda matou Wahid al-Bal\u2019ous, l\u00edder dos Homens da Dignidade. Circularam rumores de que ele teria sido morto pelo governo s\u00edrio e, posteriormente, pela Al-Qaeda (ap\u00f3s a pris\u00e3o de um homem chamado Wafi Abu Trabi). Mas, nos bastidores, estava claro que al-Bal\u2019ous era uma v\u00edtima da guerra \u00e0s drogas. Tr\u00eas anos ap\u00f3s esse assassinato, os Homens da Dignidade capturaram Abu Yassin Ahmad Jaafar, que lhes confessou, diante das c\u00e2meras, que estava envolvido no assassinato de al-Bal\u2019ous e que era um dos principais chefes do tr\u00e1fico de drogas da regi\u00e3o. Posteriormente, ele foi executado pelos Homens da Dignidade.<\/p>\n<p>Na mesma confiss\u00e3o em v\u00eddeo de Jaafar, ele mencionou que Marei al-Ramthan havia organizado um grupo de jovens bedu\u00ednos para contrabandear as drogas pela fronteira com a Jord\u00e2nia. Al-Ramthan, que era pastor antes de entrar no neg\u00f3cio de drogas em 2006, conseguiu absorver a produ\u00e7\u00e3o significativamente maior que se iniciou ap\u00f3s 2012, tornando-se o maior transportador de drogas do Levante. Os tribunais da Jord\u00e2nia o condenaram \u00e0 pris\u00e3o v\u00e1rias vezes, mas ele nunca foi preso.<\/p>\n<p><b>A guerra \u00e0s drogas<\/b><\/p>\n<p>O lento colapso do Estado s\u00edrio levou \u00e0 ascens\u00e3o de autoridades locais como senhores independentes do tr\u00e1fico de drogas. Em 2018, o major-general Kifah al-Mulhim substituiu Nasser. No in\u00edcio, a nomea\u00e7\u00e3o de Al-Mulhim levantou esperan\u00e7as de que as redes de drogas fossem pressionadas. Em seguida, uma s\u00e9rie de eventos se desenrolou. Em 2021, o Estado prendeu Raji Falhout, mas libertou-o poucas horas depois. Em julho de 2022, funcion\u00e1rios do Estado, em conjunto com os Homens da Dignidade, invadiram a fazenda de Falhout e encontraram um laborat\u00f3rio de Captagon. Mais tarde nesse ano, em dezembro, o governo prendeu al-Ramthan, mas acabou libertando-o. Ainda em 2022, o ex\u00e9rcito s\u00edrio, em conjunto com a mil\u00edcia <i>Liwa al-Jabal<\/i> (Brigada da Montanha), combateu os grupos armados de Falhout perto da fronteira com a Jord\u00e2nia e eliminou v\u00e1rios deles. De janeiro a mar\u00e7o de 2024, a for\u00e7a a\u00e9rea jordaniana atacou muitas dessas fazendas de Captagon na zona rural de As-Suwayda. Esses ataques mataram civis, o que levou o movimento Homens da Dignidade a pedir \u00e0 Jord\u00e2nia que suspendesse os ataques. O ex\u00e9rcito s\u00edrio publicamente permaneceu em sil\u00eancio. Ou al-Mulhim fazia parte da vasta rede de drogas que ia de As-Suwayda a Damasco e outros lugares, ou ele n\u00e3o tinha autoridade para realizar uma limpeza adequada na regi\u00e3o. Nos \u00faltimos dias do governo de Assad, al-Mulhim foi chamado de volta a Bagd\u00e1 como diretor do Departamento de Seguran\u00e7a Nacional da S\u00edria. Os Estados Unidos impuseram san\u00e7\u00f5es pessoais a al-Mulhim devido ao seu papel no Estado s\u00edrio. Ap\u00f3s a queda de Assad, essas san\u00e7\u00f5es pessoais foram revogadas.<\/p>\n<p>A queda do governo de Assad em dezembro de 2024 ocorreu por v\u00e1rias raz\u00f5es: a guerra israelense contra o L\u00edbano (que enfraqueceu o Hezbollah), os ataques a\u00e9reos contra posi\u00e7\u00f5es militares s\u00edrias e uma blitzkrieg coordenada das antigas for\u00e7as da Al-Qaeda da cidade de Idlib, no norte, at\u00e9 Damasco. Israel, aproveitando-se da situa\u00e7\u00e3o, avan\u00e7ou das alturas das Colinas de Gol\u00e3, ocupadas ilegalmente, para a regi\u00e3o pr\u00f3xima a As-Suwayda. Os israelenses argumentaram que se tratava de uma nova barreira de seguran\u00e7a n\u00e3o apenas para Israel, mas tamb\u00e9m para a comunidade minorit\u00e1ria drusa. Mas isso era apenas uma desculpa. Aproveitando-se das lutas pelas fazendas de drogas em julho de 2025, os israelenses atacaram v\u00e1rios alvos, incluindo os pr\u00e9dios do governo em Damasco, mas n\u00e3o as fazendas de drogas, mais uma vez alegando que o fizeram para proteger os drusos. Mas v\u00e1rios l\u00edderes drusos, incluindo o xeique Sami Abi al-Muna, disseram que n\u00e3o precisavam da prote\u00e7\u00e3o israelense e que o genoc\u00eddio de Israel contra os palestinos invalidava sua alega\u00e7\u00e3o de humanitarismo. Na verdade, os ataques israelenses visavam pressionar o ex-chefe da Al-Qaeda Ahmed al-Sharaa, agora presidente interino da S\u00edria (que tinha san\u00e7\u00f5es dos EUA contra si, <a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2025\/6\/30\/trump-formally-orders-lifting-of-syria-sanctions\">oficialmente suspensas<\/a> em 30 de junho de 2025). Al-Sharaa ainda n\u00e3o fez o que Israel espera que a S\u00edria fa\u00e7a, que \u00e9 reconhecer Israel. Ele expulsou l\u00edderes da Frente Popular para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (FPLP) e do Hamas e prendeu lideran\u00e7as da Jihad Isl\u00e2mica, mas isso n\u00e3o \u00e9 suficiente. Israel continuar\u00e1 se aproveitando de qualquer pretexto para atacar a S\u00edria e conseguir o que quer. N\u00e3o s\u00e3o as drogas nem os drusos que preocupam Israel; o que preocupa \u00e9 que al-Sharaa n\u00e3o tenha derramado o hist\u00f3rico pr\u00f3-palestina da S\u00edria aos p\u00e9s do regime israelense.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As tens\u00f5es se intensificaram no sul da S\u00edria quando avi\u00f5es de guerra israelenses bombardearam o Minist\u00e9rio da Defesa em Damasco, \u00e1reas ao redor do pal\u00e1cio presidencial e aldeias em As-Suwayda no dia 16 de julho de 2025, matando pelo menos 250 s\u00edrios nesses ataques a\u00e9reos. 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