{"id":10767,"date":"2025-06-30T15:27:53","date_gmt":"2025-06-30T19:27:53","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/?p=10767"},"modified":"2025-07-04T12:52:44","modified_gmt":"2025-07-04T16:52:44","slug":"as-alucinacoes-da-otan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.globetrotter.media\/pt-br\/2025\/06\/30\/as-alucinacoes-da-otan\/","title":{"rendered":"As alucina\u00e7\u00f5es da OTAN"},"content":{"rendered":"<p>Na conclus\u00e3o da reuni\u00e3o anual da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) em Haia, em junho de 2025, ficou evidente que tudo se resumia a quest\u00f5es financeiras. De fato, o<a href=\"https:\/\/media.us12.list-manage.com\/track\/click?u=b02aceea9cb578af543d3029c&amp;id=73d73cda3e&amp;e=ad573e7db3\"> comunicado final<\/a> foi talvez o mais curto de todas as reuni\u00f5es da OTAN \u2013 apenas cinco pontos, dois sobre dinheiro e um para agradecer \u00e0 Holanda por sediar a c\u00fapula. A Declara\u00e7\u00e3o de Haia tinha apenas 427 palavras, enquanto no ano anterior, a <a href=\"https:\/\/media.us12.list-manage.com\/track\/click?u=b02aceea9cb578af543d3029c&amp;id=8ed2f9b68e&amp;e=ad573e7db3\">Declara\u00e7\u00e3o de Washington<\/a> tinha 5.400 palavras e 44 par\u00e1grafos. Desta vez, n\u00e3o houve detalhes minuciosos sobre esta ou aquela amea\u00e7a, nem avalia\u00e7\u00f5es longas e detalhadas sobre a guerra na Ucr\u00e2nia e como a OTAN apoia essa guerra sem limites (\u201cO futuro da Ucr\u00e2nia est\u00e1 na OTAN\u201d, afirmou a alian\u00e7a em 2024, uma posi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi repetida na breve declara\u00e7\u00e3o de 2025). Ficou claro que os Estados Unidos simplesmente n\u00e3o queriam permitir uma lista intermin\u00e1vel de obsess\u00f5es da OTAN. Em vez disso, prevaleceu a obsess\u00e3o dos EUA: que a Europa aumente seus gastos militares para compensar o escudo protetor dos EUA em torno do continente.<\/p>\n<p>Ao concordarem em aumentar seus gastos militares para 5% do Produto Interno Bruto (PIB), os Estados europeus criaram uma s\u00e9rie de problemas para si mesmos.<\/p>\n<p>O primeiro problema \u00e9 que teriam de inventar o dinheiro a partir dos seus apertados or\u00e7amentos. Aumentar as despesas militares para 5% do PIB exigiria uma redu\u00e7\u00e3o das despesas sociais \u2013 ou seja, aprofundar as pol\u00edticas de austeridade j\u00e1 em vigor. Na Alemanha, por exemplo, 21,1% da popula\u00e7\u00e3o<a href=\"https:\/\/media.us12.list-manage.com\/track\/click?u=b02aceea9cb578af543d3029c&amp;id=f93fbcb485&amp;e=ad573e7db3\"> enfrenta<\/a> o risco de pobreza ou exclus\u00e3o social. O governo alem\u00e3o, liderado pelo chanceler Friedrich Merz, prometeu 650 bilh\u00f5es de euros para as for\u00e7as armadas nos pr\u00f3ximos cinco anos \u2013 um montante que at\u00e9 mesmo o Financial Times<a href=\"https:\/\/media.us12.list-manage.com\/track\/click?u=b02aceea9cb578af543d3029c&amp;id=abfa3f4645&amp;e=ad573e7db3\"> considera<\/a> \u201cimpressionante\u201d. Para atingir 5% do PIB, a Alemanha, por exemplo, ter\u00e1 que levantar cerca de 144 bilh\u00f5es de euros por ano por meio da realoca\u00e7\u00e3o de verbas or\u00e7ament\u00e1rias (austeridade) e do aumento do endividamento (d\u00edvida); o aumento de impostos \u00e9 improv\u00e1vel, mesmo que se trate de impostos regressivos sobre o consumo, como o Imposto sobre o Valor Agregado (IVA).<\/p>\n<p>O segundo problema \u00e9 que, apesar do desembolso de dinheiro para as for\u00e7as armadas, a Europa simplesmente n\u00e3o tem linhas de produ\u00e7\u00e3o prontas para produzir tanques e m\u00edsseis no ritmo necess\u00e1rio. Ao contr\u00e1rio dos Estados Unidos, a Europa come\u00e7ou a desindustrializar seu setor militar ap\u00f3s a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1991. Agora, ter\u00e1 que gastar somas consider\u00e1veis apenas para recuperar seu potencial industrial.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, as ind\u00fastrias militares europeias t\u00eam enfrentado dificuldades para atender \u00e0s necessidades da Ucr\u00e2nia, com a Uni\u00e3o Europeia<a href=\"https:\/\/media.us12.list-manage.com\/track\/click?u=b02aceea9cb578af543d3029c&amp;id=406c54c80c&amp;e=ad573e7db3\"> incapaz de<\/a> atender \u00e0 demanda de um milh\u00e3o de proj\u00e9teis de artilharia em 2024. A Rheinmetall, por sua vez, s\u00f3 consegue<a href=\"https:\/\/media.us12.list-manage.com\/track\/click?u=b02aceea9cb578af543d3029c&amp;id=5ccb6953f3&amp;e=ad573e7db3\"> produzir<\/a> 150 tanques Leopard 2 por ano, muito abaixo do que as empresas europeias fabricavam durante a Guerra Fria e muito abaixo das necessidades de um ex\u00e9rcito europeu que tenha de enfrentar a R\u00fassia no campo de batalha.<\/p>\n<p>Nem os ca\u00e7as Eurofighter Typhoon nem os Dassault Rafale podem ser produzidos rapidamente. Os servi\u00e7os de aquisi\u00e7\u00e3o em toda a Europa est\u00e3o atrasados pelos regulamentos da Uni\u00e3o Europeia e pelos requisitos alfandeg\u00e1rios. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel um crescimento r\u00e1pido das for\u00e7as armadas.<\/p>\n<p>O n\u00famero de 5% do PIB \u00e9 mais rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do que realidade.<\/p>\n<p><b>Amea\u00e7as<\/b><\/p>\n<p>A Declara\u00e7\u00e3o da C\u00fapula de Haia afirma que a alian\u00e7a euro-atl\u00e2ntica enfrenta \u201cprofundas amea\u00e7as e desafios \u00e0 seguran\u00e7a\u201d. Quem amea\u00e7a a regi\u00e3o euro-atl\u00e2ntica? O \u00fanico advers\u00e1rio mencionado na Declara\u00e7\u00e3o \u00e9 a R\u00fassia. No entanto, na mesma \u00e9poca em que os membros da OTAN se reuniram em Haia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,<a href=\"https:\/\/media.us12.list-manage.com\/track\/click?u=b02aceea9cb578af543d3029c&amp;id=3f12e06e8f&amp;e=ad573e7db3\"> conversou<\/a> com o presidente russo, Vladimir Putin, sobre a redu\u00e7\u00e3o de tens\u00f5es na Ucr\u00e2nia e o fim das tens\u00f5es na Europa, e as negocia\u00e7\u00f5es de Istambul continuaram entre as v\u00e1rias partes envolvidas no fim da guerra. Se houver um cessar-fogo na Ucr\u00e2nia e se a R\u00fassia e a Europa chegarem a acordo sobre determinadas garantias de seguran\u00e7a, para que serviria o aumento de 5% do PIB nas despesas militares?<\/p>\n<p>Mesmo que a R\u00fassia ponha fim \u00e0 guerra na Ucr\u00e2nia, existem v\u00e1rias outras preocupa\u00e7\u00f5es que os membros da OTAN insistem em invocar para justificar o aumento das suas despesas militares. Por exemplo, os Estados-membros da OTAN na Europa permitiram que suas instala\u00e7\u00f5es militares se deteriorassem, o que, do ponto de vista da paz, \u00e9 aceit\u00e1vel, mas n\u00e3o do ponto de vista de uma guerra iminente (o lobby militar na Europa tem apontado especialmente para a neglig\u00eancia do continente em rela\u00e7\u00e3o a ataques cibern\u00e9ticos e ao uso da intelig\u00eancia artificial como arma \u2014 embora n\u00e3o esteja claro como a reconstru\u00e7\u00e3o de quart\u00e9is ajudaria nisso). Os Estados B\u00e1lticos soaram o alarme contra uma potencial invas\u00e3o russa, enquanto a instabilidade em torno do Ir\u00e3 alertou a Europa para os perigos nas suas fronteiras. Estas s\u00e3o algumas das raz\u00f5es apresentadas pelos intelectuais belicistas na Europa para a necessidade de aumentar os gastos militares.<\/p>\n<p>Mas, de longe, a causa mais importante n\u00e3o tem nada a ver com as fronteiras da Europa ou com amea\u00e7as \u00e0 Europa: a China. No Conceito Estrat\u00e9gico da OTAN para 2022, a China \u00e9<a href=\"https:\/\/media.us12.list-manage.com\/track\/click?u=b02aceea9cb578af543d3029c&amp;id=c7cbdee395&amp;e=ad573e7db3\"> considerada<\/a> \u201cum desafio sist\u00eamico \u00e0 seguran\u00e7a euro-americana\u201d. Mas de que forma a China \u00e9 uma amea\u00e7a para a Europa? Os Estados Unidos veem a China como seu principal rival, n\u00e3o em termos militares, mas em termos do dom\u00ednio econ\u00f4mico das multinacionais sediadas nos EUA. Os pa\u00edses europeus s\u00f3 t\u00eam beneficiado dos investimentos chineses, como por exemplo atrav\u00e9s da Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota (BRI). Dos 44 pa\u00edses da Europa, 29 aderiram \u00e0 BRI \u2013 a maioria destes pa\u00edses situa-se na Europa Oriental, e dois ter\u00e7os dos pa\u00edses europeus assinaram memorandos de entendimento com a China para o com\u00e9rcio e o desenvolvimento. A It\u00e1lia abandonou a BRI em dezembro de 2023, mas os outros pa\u00edses continuam comprometidos com o projeto. Dos trinta e dois Estados-membros da OTAN, doze t\u00eam um acordo com a China para fazer parte da BRI ou de algum outro grande projeto (Alb\u00e2nia, B\u00f3snia e Herzegovina, Bulg\u00e1ria, Cro\u00e1cia, Rep\u00fablica Tcheca, Gr\u00e9cia, Hungria, Montenegro, Maced\u00f4nia do Norte, Pol\u00f4nia, Portugal e Turquia). O fato de esses Estados dependerem da din\u00e2mica econ\u00f4mica da China mostra que eles n\u00e3o se sentem amea\u00e7ados pela China, o que levanta a quest\u00e3o de qual \u00e9 a amea\u00e7a que a OTAN v\u00ea na China.<\/p>\n<p>O h\u00e1bito da austeridade e da guerra domina os governos da OTAN, enquanto o Sul Global se comprometeu com a paz e o desenvolvimento. \u00c9 impressionante como a Declara\u00e7\u00e3o de Haia soa anacr\u00f4nica quando colocada ao lado do slogan da 17\u00aa<a href=\"https:\/\/media.us12.list-manage.com\/track\/click?u=b02aceea9cb578af543d3029c&amp;id=2e9ccf6f91&amp;e=ad573e7db3\"> C\u00fapula<\/a> do BRICS no Rio de Janeiro (Brasil) em julho de 2025: Sul Global Inclusivo e Sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>A OTAN n\u00e3o tem amea\u00e7as reais, apenas alucina\u00e7\u00f5es caras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na conclus\u00e3o da reuni\u00e3o anual da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) em Haia, em junho de 2025, ficou evidente que tudo se resumia a quest\u00f5es financeiras. 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